| Energias
alternativas para o Brasil
Em fevereiro de 2003, o Brasil tinha 1220 empreendimentos,
com uma potência instalada de 82,4 mil MW. Grande
parte desse total é fornecido por usinas hidrelétricas
(64,2 mil MW), segundo dados publicados pela Agência
Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Com a crise no abastecimento de energia elétrica,
em 2001, empreendimentos voltados à expansão
da potência instalada do país passaram
a ser novamente priorizados. Prova disso é a
Medida Provisória (MP) 2.198-5, conhecida como
a MP do Apagão, de junho de 2001, que estabeleceu
prazos curtíssimos para o licenciamento ambiental
simplificado de empreendimentos do setor elétrico
de baixo impacto ambiental, sem que esta definição
tenha ficado clara para os ambientalistas.
É neste contexto que a construção
da Hidrelétrica de Belo Monte voltou à
cena, uma vez que 63% do potencial hidrelétrico
do Brasil, estimado em 260 mil MW, está concentrado
na Amazônia e boa parte deste percentual no Pará.
A transformação dos rios brasileiros em
megawatts é recorrente. Já o fato de a
construção de usinas hidrelétricas
no país ter provocado a inundação
de mais de 34 mil km2 e o deslocamento compulsório
de cerca de 200 mil famílias, segundo o Movimento
dos Atingidos por Barragens (MAB), é pouco lembrado
ou citado.
“Enquanto a alternativa hidrelétrica
era sempre apresentada como uma forma energética
limpa, renovável e barata, e cada projeto era
justificado em nome do interesse público e do
progresso, o fato é que populações
ribeirinhas, entre outros, tiveram violentadas as suas
bases materiais e culturais de existência”, aponta
o especialista em energia Célio Bermann, professor
do Programa de Pós-Graduação em
Energia da Universidade de São Paulo (USP) e
integrante da Coordenação do Programa
Brasil Sustentável e Democrático. "Mesmo
que no Brasil seja oficialmente considerada uma fonte
de energia limpa, nos Estados Unidos e na Europa as
usinas hidrelétricas são avaliadas como
um tipo de tecnologia cara e destrutiva ao meio ambiente",
informa Glenn Switkes, da International Rivers Network
(IRN).
Para contrapor a idéia de que Belo Monte,
assim como a construção de outras grandes
barragens e de usinas termelétricas à
gás natural de grande porte, são obras
necessárias ao país, Célio Bermann
apresenta diferentes alternativas para incorporar ao
Sistema Elétrico Brasileiro uma capacidade instalada
de aproximadamente 24 mil MW.
A primeira delas está relacionada às
perdas técnicas do Sistema Elétrico Brasileiro,
atualmente em torno de 15% ou 54 milhões de MW/h.
Isso inclui desde a eletricidade gerada pelas usinas
hidrelétricas, passando pelas linhas de transmissão,
até chegar ao consumidor final. Ele sugere que
o Brasil adote o padrão internacional - índice
de 6% perdas, o que representaria um acréscimo
de 33 milhões de MW/h. Isso equivale ao que produz
uma usina hidrelétrica de 6.500 MW de potência
instalada durante um ano. Para isso, seria necessário
melhorar o isolamento nas linhas e substituir equipamentos
defeituosos, como os transformadores.
A segunda alternativa diz respeito a repotencializar
usinas hidrelétricas com mais de 20 anos por
meio da troca de equipamentos e da modernização
de componentes e sistemas. A terceira considera a geração
de energia por meio de Pequenas Centrais Hidrelétricas
(PCHs), com potencial calculado em 9,8 mil MW, e o aproveitamento
da energia dos ventos. O Atlas Eólico, lançado
pela Aneel e pelo Ministério das Minas e Energia,
estima o potencial eólico do Brasil em 143 mil
MW. A quarta alternativa identifica a co-geração
a partir do bagaço de cana e do papel e celulose
como fontes e são as que apresentam maiores possiblidades
de utilização a curto prazo.
ONGs elaboram plataforma mínima
Durante avaliação dos 10 anos da
Rio-92, em maio de 2002, o Fórum Brasileiro de
ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento
elaborou uma plataforma mínima para o setor energético
brasileiro. O documento pede a revogação
da condição estratégica da Usina
Hidrelétrica de Belo Monte:“O projeto não
pode ser aprovado de forma emergencial antes de um estudo
independente amplamente divulgado que contenha informação
precisa quanto à potência total gerada, ao
numero real de atingidos, à necessidade de complementação
do projeto com um complexo de hidrelétricas no
Rio Xingu, e ao posicionamento dos povos indígenas,
que devem ter respeitado o seu direito de veto.” E lista
outras demandas para o governo federal, entre as quais:
- priorizar o atendimento dos 20 milhões de
brasileiros que não têm acesso a energia
e vivem em condições de pobreza, especialmente
no meio rural, através de programas voltados
à inclusão social com sustentabilidade
ambiental;
- o estabelecimento de metas e padrões de consumo
menos intensivos em energia, enfatizando a reciclagem
e a reutilização de materiais e a busca
pela substituição de processos tecnológicos
intensivos em energia;
- revisar o modelo industrial que prioriza o estabelecimento
de indústrias eletrointensivas, estas não
adequadas a um cenário energético e
industrial sustentável que distribua lucros
e os bens, como a energia, de forma eqüitativa
entre a sociedade;
- a implementação de programas de conservação
e eficiência energética em todos os setores,
em especial nos setores de transporte, de transmissão
e distribuição de energia, bem como
nos setores comercial, residencial e estabelecimentos
públicos;
- uma revisão da intenção do
aproveitamento do potencial hidrelétrico brasileiro,
que permita a participação social no
processo decisório, em especial das populações
atingidas;
- uma moratória ao Programa Nuclear Brasileiro,
desde a mineração do urânio até
a geração nuclear, e a solução
do problema da destinação final dos
resíduos radioativos gerados e ora estocados
provisoriamente;
- a realização de auditorias nas instalações
energéticas que têm gerado passivos sociais
e ambientais (petróleo, carvão mineral,
ciclo nuclear, usinas termoelétricas e hidrelétricas);
- a implementação de um programa de
aproveitamento do imenso potencial das energias solar,
eólica e de biomassa.
No caso específico das grandes barragens,
o documento exige que:
- os processos decisórios sejam participativos
com inclusão e reconhecimento dos interesses
das populações atingidas desde o início
dos processos de formulação dos projetos;
- os custos ambientais e sociais das grandes barragens
sejam incorporados no custo final da energia gerada
por tais empreendimentos;
- os reservatórios sejam avaliados nos seus
múltiplos usos e que a bacia hidrográfica
seja utilizada como unidade de avaliação
dos impactos cumulativos dos demais projetos hdrelétricos
e de demais usos da água, presentes e futuros;
- a análise do inventário de potencialidade
hidrelétrica inclua uma avaliação
socioambiental que categorize os melhores aproveitamentos
considerando o espaço total da bacia e condicione
as concessões da Agência Nacional das
Águas (ANA) e da Agência Nacional de
Energia Elétrica (Aneel) aos resultados e recomendações
destes estudos, as quais devem ser discutidas também
no âmbito dos comitês de bacias.
Em relação à participação
das fontes de energia renováveis alternativas,
sugere:
- um programa de aproveitamento dos combustíveis
renováveis como o álcool e o biodiesel;
um programa para o suprimento descentralizado de energia
por Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs);
- o incentivo à co-geração de
vapor e eletricidade em processos industriais e em
coletividades, para fins produtivos obtida por meio
de resíduos de processos industriais, bem como
do lodo de estações de tratamento de
efluentes ou mesmo de aterros de lixo urbano;
- o incentivo à experimentação
e disseminação em escala comercial de
equipamentos de energia eólica, de energia
solar térmica e fotovoltaica, de geotermia,
de gaseificação de resíduos orgânicos,
bem como o incentivo a pesquisas em novas fontes como
células de hidrogênio;
- estabelecimento de metas para o uso passivo de energia
solar para iluminação e conforto térmico,
e de normas mínimas de isolamento térmico
para construções urbanas, as quais podem
reduzir significativamente a demanda energética
nas residências e estabelecimentos comerciais,
devendo ser incorporadas no Estatuto das Cidades e
na revisão dos planos diretores de modo a propiciar
a utilização da energia solar e de materiais
e o desenvolvimento de projetos de construção
adequados;
- investimentos para o aproveitamento do gás
metano proveniente de resíduos orgânicos
de lixões e aterros sanitários urbanos,
priorizando o seu consumo em ônibus urbanos
e automóveis e em fontes estacionárias
(caldeiras e turbinas), é mais uma medida viável
a ser considerada como fonte de energia nas cidades,
entre outros.
Fontes alternativas de energia
As iniciativas de investimento do governo em
fontes de energia renováveis alternativas são
consideradas extramamente tímidas por Célio
Bermann. Para Glenn Switkes, da International Rivers
Network (IRN), existem várias alternativas para
a geração de energia no país, o
que não existe é uma discussão
nacional ou regional de planejamento para o setor. “Energias
renováveis, como biomassa, energia solar, energia
eólica, estão travadas por questões
burocráticas, por falta de definição
de política de preços dentro do setor
elétrico.”
De acordo com as conclusões e recomendações
do seminário internacional Fontes
Alternativas de Energia e Eficiência Energética
- Opção para uma Política Energética
Sustentável no Brasil, organizado
em junho de 2002 pela Fundação Heinrich
Böll e a ONG Coalização Rios Vivos,
apesar de projetos de lei em tramitação
e dos recentemente aprovados - como o que cria o Programa
Prioritário de Desenvolvimento da Energia Eólica
no Nordeste e o que institui o Programa de Incentivo
às Fontes Alternativas de Energia Elétrica
-, ainda falta um marco regulatório de caráter
orientador para o setor, uma vez que as constantes mudanças
e anúncio de normas e medidas provisórias
criam um clima de incerteza para os investidores e têm
inibido a ampliação de negócios
em fontes alternativas de energia no Brasil.
A visão da Eletronorte
Ainda que considerado um recurso limitado, para
o ex-presidente da Eletronorte, José Muniz Lopes,
a repontecialização das usinas hidrelétricas
é uma forma muito inteligente de reduzir o déficit
energértico. Já a produção
de energias alternativas...“Todo ano são mais
3 milhões de pessoas incorporadas à população
em condições de trabalhar, e vamos atender
a esse crescimento como? Com células fotovoltáicas,
com biomassa, com energia solar? Por que os mais desenvolvidos
não fazem isso? Porque não tem escala
para isso. O grande diferencial do Brasil é o
potencial hidrelétrico. Mas, se essas opções
não saírem, vamos ter que ir para energia
nuclear ou gás combustível, mas gás
de onde? Os Estados Unidos têm gás, carvão,
dominam o petróleo do mundo, e o Brasil domina
o quê? Em Joanesburgo, durante a Rio + 10, nenhum
país desenvolvido quis assumir isso. Por que
nós vamos querer? Não estou defendendo
a posição dos Estados Unidos. Mas estou
dizendo o seguinte: será que eles estão
errados e nós estamos certos ou nós estamos
errados? Não sei. É para ser avaliado.”

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