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Glenn Switkes, coordenador no Brasil da International Rivers
Network (IRN), organização que trabalha com alternativas
às grandes obras em rios e impactos das grandes barragens
(entrevista concedida entre setembro e novembro de 2002)
Belo Monte: contra ou a favor? "Vemos Belo Monte
como uma obra com viabilidade questionável, do ponto de vista
da engenharia, pela quantidade de energia que poderá gerar;
do ponto de vista econômico, porque, junto com todo o Complexo
de Belo Monte, as linhas de transmissão e os programas de
mitigação custarão muito mais do que a Eletronorte
está indicando até agora; e, por último, do
ponto de vista ambiental, o que eles terão de responder por
meio dos Estudos de Impacto Ambiental (EIA).
Existe ainda uma questão maior: sendo a obra de viabilidade
questionável, como e quando vamos saber se serão construídas
outras barragens? A Eletronorte em inventários para todo
o Rio Xingu. Chegou a realizar estudos de viabilidade para o Kararaô
e Babaquara, que chamam hoje de Altamira. Os rios da Amazônia
detêm mais de 60% do potencial hidrelétrico existente
no futuro no país, e o Xingu é um dos três ou
quatro rios na Amazônia onde está o maior potencial
hidrelétrico do Brasil, com cerca de 20 mil megawatts.
Então fica óbvio que o plano da Eletronorte não
é colocar apenas uma barragem ineficiente neste rio, como
potência instalada de 11 mil MW, mas uma energia média
gerada bem menor. Muniz Lopes, o presidente da Eletronorte, já
disse publicamente que está previsto no primeiro semestre
de 2003 o início dos estudos de viabilidade de uma próxima
barragem, acima de Belo Monte, que poderá ser chamada Altamira,
antiga Babaquara. Dentro desse novo paradigma de manejo de bacias
no Brasil, a gente acha que a Eletronorte deveria ser honesta e
colocar na mesa todas as obras, para poderem ser analisadas em seu
conjunto.
Outra questão interessante é que parece haver um
potencial inesgotável na Amazônia para hidrelétricas,
mas se você começa a pensar que hoje a capacidade instalada
é de 72 mil MW e previsão é crescer mais de
5% por ano. Bom, então no próximo ano eles vão
ter que instalar 4 mil MW, no outro ano 4 mil e um pouco mais e
assim por diante. Dentro de 20, 25 anos, acabou o potencial hidrelétrico
da Amazônia. Ou seja, todos os grandes rios da Amazônia
vão estar represados, não vai ter mais lugar para
construir barragens, os impactos ambientais serão irreversíveis.
Isso é uma coisa muito assustadora. Cada barragem vai ser
altamente problemática do ponto de vista ecológico,
das populações indígenas, populações
extrativistas. O próprio presidente de Itaipu disse que se
fosse hoje Itaipu não poderia ser construída. Porém,
a Eletronorte tem uma atitude de ser a senhora da Amazônia,
que pode fazer qualquer coisa, mas o currículo deles é
horrível: Tucuruí, Balbina, Samuel."

Exemplos
infelizes: índio Kaiapó em visita a Tucuruí,
a convite da Eletronorte (no alto); e Balbina (acima), cuja
constrrução significou a morte biológica
do Rio Uatumã |
Impactos socioambientais do projeto
"A Eletronorte diz que a Terra Indígena Paquiçamba
não será mais inundada e os estudos de viabilidade
apontam que será estabelecida uma 'vazão ecológica'
no rio. Ainda não podemos dizer, pois o Estudo de Impacto
Ambiental (EIA) não foi finalizado, mas os estudos de viabilidade
colocam o seguinte número: 220 m3/segundo. Mas o que significam
esses 220 m3/s? Representa metade do mínimo histórico
do Xingu já medido no trecho do rio onde será construída
a usina. Vale ressaltar que essa quantidade durante toda a época
de seca enquanto a menor margem histórica foi registrada
durante alguns dias.
A Eletronorte argumenta ainda que com essa quantidade
poderá ser assegurada a função ecossistêmica
do rio. Mas fica óbvio que essa parte do rio vai quebrar
em poços, em água estagnada e, com isso, diversas
comunidades indígenas, ribeirinhas terão atividades
de subsistência afetadas, como pesca, e não terão
como chegar a Altamira, entre outros problemas. Há possibilidade
também do rio Bacajá ficar mais baixo. A Amazônia
é um dos últimos respiros da indústria de grande
barragens.
O que acontece hoje é que as indústrias
de barragens estão concentrando seus esforços nos
países em desenvolvimento porque encontram, usualmente, mercados
com aumento de demanda, países que se oferecem como entreposto
de processamento de metais, como o alumínio. Procuramos mostrar
que as barragens não cumprem suas promessas, causam impactos
muito mais abrangentes do que os que são admitidos e que
devem ser estabelecidos novos procedimentos de consulta à
população - os povos indígenas, como os mais
vulneráveis, devem ter poder de decisão sobre os projetos
que possam atingir suas terras. Outro fator que vai ser muito importante
no Brasil no futuro será a contribuição de
liberação de gás carbônico por reservatórios
e barragens em rios tropicais. Estudos feitos em Tucuruí
e em uma outra barragem na Guiana Francesa mostram que as usinas
hidrelétricas representam contribuições enormes
de gás carbônico na atmosfera."
Condução do projeto "Esse projeto
está sendo feito de uma maneira quase inédita. Estão
tentando avançar em todas as frentes para entregar, para
dar a concessão da obra já quase licenciada. Usualmente,
eles fazem estudo de viabilidade, dão permissão para
algumas empresas fazer o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), e as
empresas ficam com a condução do processo de licenciamento,
como está sendo feito agora no Rio Araguaia-Tocantins. Como
eles estão tentando fechar todos os 'nós' do projeto.
Neste caso, como eles sabem que nenhuma empresa vai querer bancar
o projeto inteiro, que a barragem não tem como funcionar
sem as linhas de transmissão, eles vão ter que caprichar
para fazer algum tipo de arranjo artificial que garanta milhões
de reais do Tesouro Nacional, um empréstimo do Banco Nacional
de Desenvolvenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e colocar
um valor que seja responsabilidade das empresas. Agora, várias
perguntas: se esse valor eventualmente for seja suficiente para
terminar a obra, quem vai bancar os gastos extras?
Usualmente, uma barragem custa 30%, 40% a mais do que foi orçado.
Eles estão correndo para fazer isso durante o governo do
Fernando Henrique porque, com as eleições, vai ser
uma grande incógnita. Eles estão tentando fazer isso,
mas, na prática, vai ser muito difícil sair essa concessão
até o final do ano. Em termos práticos, se eles conseguem
concessionar essa obra, há grande chance dela sair. Estamos
apostando no arranjo precário da obra, com viabilidade muito
frágil, com questões econômicas, sociais, ambientais
e até de engenharia muito questionáveis e no fato
das empresas privadas estarem reavaliando participação
em barragens na Amazônia.
Além disso, a gente acha que num país agora democrático
o bom senso vai prevalecer, que haverão discussões,
como a Comissão Mundial de Barragens recomenda. Esses debates
não podem ser feitos dentro de uma atmosfera onde as regras
vão mudando e com o pessoal da Eletronorte dizendo em diversos
eventos que vai concessionar a obra, sem a discussão de alternativas
com a população local. Isso não está
acontecendo e não há nenhum motivo para correr com
uma obra desse tamanho."
Estudos de Impacto Ambiental (EIA) "Outra questão
é o EIA/RIMA, que está suspenso no Judiciário.
Uma vez liberada a elaboração do EIA/RIMA, o maior
entrave será o licenciamento da obra. Como tem comunidade
indígena afetada, talvez seja necessário um ato especial
do Congresso Nacional. A Constituição diz que qualquer
obra que atinja área indígena precisa passar por consulta
junto à população."
Contratação da Fadesp para elaborar o EIA
"Não posso opinar sobre a competência da Fadesp,
mas, em geral, existe uma máfia de consultores que trabalham
com a indústria de barragens. É muito lucrativo. Você
dá um selo verde para um projeto e depois recebe mais contratos
para outras consultorias. Mas, se você questiona uma obra,
você se queima. No caso da Fadesp, existe a suspeita de que
a seleção foi feita para pular alguns obstáculos
básicos no processo. O Rio Xingu é interestadual,
e uma obra dessa proporção deve estar sob a jurisdição
do Instituto Nacional do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama) e o EIA não pode ser feito por uma entidade estadual
de meio ambiente. Por que escolher a Fadesp dentro de todos os consultores
do país com competência para fazer este tipo de estudo,
justamente ela que está envolvida num escândalo complicado
como o do Araguaia-Tocantins? Fica a impressão de que eles
estão conduzindo este projeto de maneira a atropelar as etapas
previstas."
Uso de energia pelas empresas de alumínio
"A Companhia do Vale do Rio Doce, por exemplo, vai perder em
2004 energia subsidiada de Tucuruí em 2004. Firmou contrato
durante o Projeto Grande Carajás para ter, durante 20 anos,
subsídio público de até US$ 200 milhões
por ano em preço reduzido de energia. Pelo contrato, o subsídio
acaba em dois anos e, por isso, estão de olho em vários
aproveitamentos na Amazônia para ter sua própria barragem.
Em termos de planejamento de desenvolvimento do país, subsidiar
as empresas de alumínio e entregar os recursos naturais para
essas empresas, tem de ser questionado. As empresas de alumínio
hoje em dia utilizam 8% de toda a energia elétrica do país
e no mundo cerca de 2%. Se a gente for falar em alternativas energéticas,
não existe uma alternativa energética para uma grande
fábrica de alumínio. Isso é uma coisa estrutural
no modelo de desenvolvimento do país, que elimina a possibilidade
de outras alternativas de desenvolvimento. Um livro do professor
Célio Berman mostra que o número de empregos gerados
pelas indústrias eletro-intensivas é 70 vezes menor
do que uma indústria do ramos de alimentos e bebidas e 40
vezes menor que a indústria têxtil."
Alternativas para o setor elétrico brasileiro
"Existem várias alternativas para a geração
de energia, o que não existe é uma discussão
nacional ou regional de planejamento para o setor. Tudo feito a
portas fechadas por uma série de tecnocratas. Primeira coisa
seria abrir a discussão. Com a privatização,
o incentivo para a melhoria do sistema foi dividido entre vários
atores: o dono dos sistemas de barragens, o dono do sistema de transmissão
etc. Fica parecendo que o prejuízo não é tão
grande, mas estamos perdendo muita energia sem a modernização
do sistema, por exemplo, o que é muito mais barato do que
investir US$ 5 bilhões em Belo Monte. Isso sem falar nas
energias renováveis: biomassa, energia solar, energia eólica,
que estão travadas por questões burocráticas,
por falta de definição de política de preços
dentro do setor elétrico.
Enquanto isso, continuamos com 20 milhões de pessoas sem
energia elétrica em casa, sendo que a energia solar poderia
ser uma alternativa, embora não suficiente para suprir todos
os problemas. São coisas práticas, que não
custam tanto dinheiro, que implica maior compromisso para fornecer
energia como um direito básico do que pensar em entregar
os recursos naturais do país para empresas transnacionais,
que têm garantido o direito de fazer dinheiro de qualquer
forma."
Lúcia Schild Ortiz, coordenadora do Grupo de Trabalho
Energia do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais
para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento
(entrevista concedida entre setembro e novembro de 2002)
Belo Monte: a favor ou contra? "O Fórum
Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o
Desenvolvimento defende a revogação da condição
estratégica da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que
não pode ser aprovada de forma emergencial antes de um estudo
independente amplamente divulgado que contenha informação
precisa quanto à potência total gerada, ao número
real de atingidos, à necessidade de complementação
do projeto com um complexo de hidrelétricas no rio Xingu
e ao posicionamento dos povos indígenas, que devem ter respeitado
o seu direito de veto. O que nos preocupa neste projeto é
que tem sido divulgado que irá gerar 11 mil MW, mas somente
o reservatório de Belo Monte não vai poder oferecer
esta quantidade de energia. Provavelmente serão necessários
barramentos a montante, atingindo uma maior quantidade de florestas,
populações etc e voltaremos ao mesmo problema do projeto
original, Kararaô. Além disso, achamos que o projeto
está sendo encaminhado de uma maneira muito autoritária."
Alternativas para a crise energética brasileira
"Com a crise energética, as ONGs voltaram-se a esta
questão. Desde junho do ano passado, o GT Energia reuniu-se
três vezes, para discustir fontes alternativas de energia,
política energética brasileira, entre outros assuntos,
o que resultou na elaboração de uma plataforma mínima
durante uma avaliação temática dos 10 anos
da Conferência Rio-92, já entregue a diversos parlamentares.
Para o governo nacional, foi recomendado dar prioridade ao atendimento
dos 20 milhões de brasileiros que não têm acesso
a energia e que vivem em condições de pobreza, especialmente
no meio rural. Isso seria feito por meio de programas voltados à
inclusão social com sustentabilidade ambiental; do estabelecimento
de metas e padrões de consumo menos intensivos em energia,
enfatizando a reciclagem e a reutilização de materiais
e a busca pela substituição de processos tecnológicos
intensivos em energia; por uma revisão do modelo industrial
que prioriza o estabelecimento de indústrias eletrointensivas
não adequadas a um cenário energético e industrial
sustentável que distribua lucros e os bens, como a energia,
de forma eqüitativa entre a sociedade; com a implementação
de programas de conservação e eficiência energética
em todos os setores, em especial nos setores de transporte, de transmissão
e distribuição de energia, bem como nos setores comercial,
residencial e estabelecimentos públicos; pela reavaliação
do modelo de transporte brasileiro (urbano e interestadual), garantindo
um sistema intermodal integrado, incentivando a redução
do uso de combustíveis fósseis e o desenvolvimento
de combustíveis renováveis (álcool e biodiesel)
e o uso de transporte coletivo.
Outras recomendações foram: a revisão da intenção
do aproveitamento do potencial hidrelétrico brasileiro, que
permita a participação social no processo decisório,
em especial das populações atingidas; uma moratória
ao Programa Nuclear Brasileiro, desde a mineração
do urânio até a geração nuclear, e a
solução do problema da destinação final
dos resíduos radioativos gerados e ora estocados provisoriamente;
a realização de auditorias nas instalações
energéticas, que têm gerado passivos sociais e ambientais
(petróleo, carvão mineral, ciclo nuclear, usinas termoelétricas
e hidrelétricas); a implementação de um programa
de aproveitamento do imenso potencial das energias solar, eólica
e de biomassa.
Para as grandes barragens, as recomendações envolvem
processos decisórios participativos, com inclusão
e reconhecimento dos interesses das populações atingidas
desde o início dos processos de formulação
dos projetos; custos ambientais e sociais incorporados ao custo
final da energia gerada por tais empreendimentos; adoção
dos múltiplos usos de uma bacia hidrográfica como
unidade de avaliação dos impactos cumulativos dos
demais projetos hidrelétricos e de demais usos da água,
presentes e futuros; análise do inventário de potencialidade
hidrelétrica inclua uma avaliação socio-ambiental
que categorize os melhores aproveitamentos considerando o espaço
total da bacia e condicione as concessões da Agência
Nacional de Águas (ANA) e da Agência Nacional de Energia
Elétrica (Aneel) aos resultados e recomendações
destes estudos, as quais devem ser discutidas também no âmbito
dos comitês de bacias; revogação da condição
estratégica da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, a
qual não pode ser aprovada de forma emergencial antes de
um estudo independente amplamente divulgado que contenha informação
precisa quanto à potência total gerada, ao numero real
de atingidos, à necessidade de complementação
do projeto com um complexo de hidrelétricas no Rio Xingu,
e ao posicionamento dos povos indígenas, que devem ter respeitado
o seu direito de veto."

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