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As várias faces do projeto

Belo Monte é a melhor usina hidrelétrica do mundo”, afirmou categoricamente José Muniz Lopes, em entrevista concedida ao ISA no segundo semestre de 2002, quando era presidente da Eletronorte, subsidiária da Eletrobras na Amazônia Legal, responsável pelo projeto. Lopes defendeu sua afirmação relacionando a potência instalada da usina hidrelétrica, 11.182 megawatts (MW), à área atual do reservatório, 400 km2, um 1/7 do lago de Tucuruí, que produz 4 mil MW. Belo Monte, um dos sete barramentos previstos originalmente pela Eletronorte para o Rio Xingu, teria, de acordo com o projeto original, um reservatório de 1.200 km2. Essa extensão foi reduzida posteriormente.

Hoje, esta usina tem um espelho d'água de 400 km2, mas a região a ser alagada mesmo é menor que 200 km2, uma área já antropizada”, disse ele. De acordo com a estatal, o reservatório da usina tem a particularidade de estar parcialmente acomodado no próprio leito do rio. Além do lago de 400 km2, está previsto para o empreendimento a implantação de uma casa de força principal com 20 máquinas com potência unitária de 550 MW, responsáveis pela geração de 11 mil MW, uma casa de força secundária com sete unidades de 26 MW cada, que totalizam os 182 MW adicionais. De acordo com a Eletronorte, a segunda casa de força foi projetada para melhorar o aproveitamento da vazão do rio e reduzir os impactos ambientais.

Também serão construídos dois canais de adução, cada um com cerca de 12 quilômetros de extensão e largura média de 250 metros, para auxiliar na pressão das águas às turbinas. Para a construção desses canais, serão escavados 144 milhões m3 de terra e 51 milhões m3 de rocha, material que, segundo o Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e do Xingu (MDTX), ainda não tem destino. Muniz afirma que o volume é, efetivamente, grande, mas já existe um estudo de realocação do material, como, por exemplo, utilizá-lo para a criação de algumas praças, cujo resultado está disponível no estudo de viabilidade. Belo Monte envolve ainda 3,8 milhões de m3 de concreto, contra 7,9 milhões de Tucuruí e 12,6 milhões em Itaipu.

Segundo a Eletronorte, as turbinas serão do tipo bulbo, que necessitam menor volume de água para serem movimentadas, e a usina produzirá mais de 27,5 MW por quilômetro quadrado, um dos melhores aproveitamentos hidrelétricos do mundo, contra 2,8MW/km2 de Tucuruí ou 8,6 MW/km2 de Itaipu, a maior usina hidrelétrica do país.

Obra estratégica

Belo Monte foi considerada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e pela Eletronorte uma obra estratégica para o setor elétrico brasileiro, pois proporcionará a integração entre bacias com diferentes regimes hidrológicos por meio da interligação com o Sistema Elétrico Brasileiro. Para isso, deverão ser construídas linhas de transmissão até Colinas, no Tocantins, onde poderá ser feita a conexão com a Linha de Transmissão Norte-Sul.

O então presidente da Eletronorte explicou, durante a entrevista realizada no ano passado, que Belo Monte tem localização estratégica e que junto com a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Norte, e da Usina Hidrelétrica de Itaipu, no Sul, faz integração com o Sudeste e o Nordeste, regiões com carência de energia. “A usina vai produzir mais energia num período em que as bacias dessas regiões estão com um volume de água muito baixo.” Ele se refere ao fato de a cheia no Rio Xingu - período de maior produção de energia de Belo Monte - coincidir com o período de escassez de chuvas das outras regiões.

Voltada principalmente ao abastecimento do Sudeste e Nordeste, Belo Monte representaria hoje um aumento de quase 20% da capacidade instalada do país. “Espero que grande parte da energia gerada seja consumida no Pará e que nós possamos interligá-la com o Amazonas e com o gás de Urucu", afirmou. Ele estava se referindo à construção ainda indefinida do Gasoduto Urucu-Porto Velho. "Agora, no cenário atual, ela será incluída no Sistema Elétrico Brasileiro, e acho que a tendência natural será utilizar a energia que não for usada no Pará para suprir outras regiões do país."

Projetada para operar a fio d'água, ou seja, a água do reservatório segue diretamente para as turbinas, Belo Monte funcionará durante mais de seis meses, período de seca do Rio Xingu, com uma energia firme - volume de geração de energia no pior giro hidrológico - de 4.675 MW. Segundo especialistas em energia, esse total é inferior à 50% da potência instalada, a média internacional. Apesar disso, Muniz defende que, desde que interligada ao Sistema Elétrico Brasileiro, Belo Monte se viabilizaria economicamente sozinha devido ao seu custo de produção, de US$ 12 MW/h, muito abaixo da média atual, de US$ 40 MW/h. ( veja detalhes no item investimento).


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