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Energia para quem?
Para uns, a possibilidade de gerar energia para o Pará
e, uma vez interligada ao Sistema Elétrico Brasileiro, para
todo país. Para outros, uma usina voltada a produzir energia
para indústrias eletro-intensivas, com destaque para as indústrias
de alumínio.
“Espero que grande parte desta energia seja consumida no
próprio Pará, mas isso ainda é um sonho. No
cenário atual, ela será incluída dentro do
Sistema Elétrico Brasileiro, e acho que a tendência
natural será utilizar a energia não usada no Pará
para suprir o Nordeste, para suprir todo o país ”, afirmava
José Muniz Lopes, presidente da Eletronorte, em meados de 2002.
As indústrias eletrointensivas - ligadas
à indústria de cimento, à produção
siderúrgica e à produção de alumínio
- estão entre os principais investidores no setor elétrico
do país, segundo o especialista em energia Célio Bermann. E as empresas
que formam o consórcio que disputará o leilão de Belo Monte são a prova disso: Vale, Neoenergia,
Votorantim Alumínio e Andrade Gutiierrez.
“As empresas de alumínio utilizam 8%
de toda a energia elétrica do país e cerca de 2% no
mundo. Se falarmos em alternativas energéticas, não
existe uma alternativa para uma grande fábrica de alumínio.
Isso é uma coisa estrutural no modelo de desenvolvimento
do país, que elimina a possibilidade de outras alternativas
de desenvolvimento”, explicava, em 2002, Glenn Switkes, que foi coordenador da ONG
International Rivers Network. Glenn faleceu em janeiro de 2010.
Indústrias consomem 50% da energia produzida
O especialista Celio Bermann, que é professor do Programa de Pós-Graduação
em Energia da Universidade de São Paulo, acrescenta que cerca de 50% da energia elétrica no
Brasil é consumida por indústrias, sendo que 30% se
restringe a seis setores: cimento, aço, alumínio,
ferro-ligas, petroquímica e papel e celulose. “O Brasil precisa
repensar urgentemente o perfil da indústria que quer no
país, para reduzir a produção de produtos intensivos
no consumo de energia com baixo valor agregado. O alumínio
é vendido a um preço insignificante para o mercado
internacional e gera pouco emprego. Fiz uma avaliação
há pouco tempo sobre a mão-de-obra empregada para
produção de alumínio e concluí que é
70 vezes menor do que a gerada pela indústria de alimentos
e bebidas e 40 vezes menor do que a gerada pela indústria
têxtil. Quando repensarmos a produção industrial
brasileira, poderemos abrir novas oportunidades para a geração
descentralizada, para a geração a partir da biomassa,
da energia eólica ou das Pequenas Centrais Hidrelétricas
(PHEs). Do ponto de vista ambiental, estas são alternativas
muito mais adequadas e do ponto de vista econômico-financeiro
já se mostram competitivas, para usar um termo do mercado,
embora exista esta restrição. Não fornecem
energia em grande escala, mas essa escala é exigida pelas
indústrias, pelos grandes centros urbanos.”
Sobre a privatização do setor, Célio
Bermann aponta que ela tirou do Estado a capacidade de pensar a
longo prazo, planejar. “O que hoje existe no Brasil são os
programas nacionais de expansão. Cada ano um comitê
de expansão de energia elétrica faz um estudo prevendo
o crescimento da demanda e, em função disso, estabelecem,
de forma indicativa, os empreedimentos que devem ser desenvolvidos
para atender o crescimento do mercado. Essa é a única
referência de planejamento no Brasil. Os estudos de longo
prazo da Eletrobras não existem mais. O setor elétrico
acha que o mercado tem capacidade de resolver a oferta. O interesse
público, portanto, fica à mercê do setor privado,
o que não é a melhor forma de resolver o problema
de energia, que é estratégico num país que
tem 20 milhões de pessoas sem acesso à energia elétrica.”
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