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José Muniz Lopes, ex-presidente da Eletronorte, subsidiária
da Eletrobrás na Amazônia Legal
(entrevista concedida em outubro de 2002)
Belo Monte se sustenta sozinha? "Com o Plano
Decenal 1987/2010, os técnicos verificaram que a usina de
Kararaô, rebatizada como Belo Monte, se viabilizava economicamente
sozinha desde que interligada ao Sistema Elétrico Brasileiro.
Com Tucuruí no Norte e Itaipu no Sul faz integração
com regiões que têm carência de energia, produzindo
mais energia numa época em que outras áreas estão
com os reservatórios mais baixos. Até 2010 não
está prevista mais nenhuma usina para o Xingu. O estudo que
foi feito agora considera só a de Belo Monte. Na minha opinião,
só caberia mais uma usina, a antiga Babaquara. Defendemos
uma Babaquara refeita, com um reservatório menor, mais baixa,
com menos impacto ambiental."
Impactos socioambientais do empreendimento"O
que se coloca de negativo numa usina? Normalmente, a área
alagada. Esta usina vai alagar menos de 200 km2. Ela tem um espelho
de 400 km2, mas a região alagada mesmo é menor que
200 km2, uma área já antropizada. Em relação
ao remanejamento de pessoas, só vamos ter de deslocar moradores
vinculados a atividades agrícolas e cerca de duas mil famílias
em Altamira, que ali vivem atualmente em uma situação
de tremenda miséria. São pessoas que vivem, durante
o período em que o rio está cheio, com água
sob o piso, e, quando o rio seca, com lama embaixo de suas casas,
onde as crianças brincam, fazem suas necessidades. Já
os índios, que moram a jusante do barramento principal, onde
o volume de água diminuirá no período de chuva,
poderão ser compensados, poderá ser construída
uma nova aldeia, vizinha ao canal ou ao próprio
reservatório principal, a exemplo do que nós fizemos
com os Waimiri-Atroari,
um projeto reconhecido internacionalmente. Para os índios,
nós temos dezenas de formas de mitigar, compensar e melhorar
a qualidade de vida deles. Isso está no site da Eletronorte.
E vai haver alteração no rio? Vai, mas a Volta Grande
do Xingu tem vários tributários e vamos barrar apenas
um pedaço. Vai ter aumento de população? Vai.
Esta usina gerará 100 mil empregos na região, 25 mil
diretos, e 75 mil indiretos. Então, serão 100 mil
empregos, num período de cinco a dez anos, e mais, investimentos
por 20 anos em estrutura, em erradicação do analfabetismo,
entre outros."
Estudo de Impacto Ambiental (EIA) "Nós
não partimos para fazer um EIA da estaca zero. Nós
tínhamos de convergir o EIA do projeto anterior para o atual.
Os ajustes da parte de engenharia, de viabilidade foram feitos pela
equipe da Eletronorte, mas precisávamos atualizar o estudo.
Então, hoje a Fundação de Amparo e Desenvolvimento
da Pesquisa (Fadesp), vinculada à Universidade Federal do
Pará, está credenciada para isso. O EIA, portanto,
é resultado de um trabalho em conjunto com técnicos
da Eletronorte com a Fadesp. A responsabilidade pela qualidade do
trabalho é da Eletronorte, como foi o estudo de viabilidade
da obra. Já sabíamos das críticas a outros
trabalhos da Fadesp e pedimos à fundação que
não ussassem os técnicos que foram envovidos com tais
trabalhos. Eu assseguro que o trabalho que está aí
para ser encaminhado para os órgãos ambientais, tão
logo seja liberado, é de altíssimo nível e,
reforço, é de responsabilidade da Eletronorte. Ele
está 95% concluído, faltando apenas conferirmos alguns
dados de um levantamento de campo, que ainda não foi feito
porque o estudo foi suspenso."
Custo do EIA "O que nós vamos gastar
agora é com o contrato da Fadesp, que ficou em torno de R$
4 milhões, e alguns trabalhos técnicos complementares
que serão feitos. Nós vamos gastar em torno de R$
5 milhões para terminar o EIA-RIMA, o que é insignificante
para um projeto de US$ 3 bilhões."
Custo da energia de US$12 MW/h "Quem está
calculando esses custos não é a Eletronorte. A Eletronorte
terminou os estudos e mandou para a Eletrobras. A Eletrobras formou,
pela segunda vez, um grupo de técnicos que avaliaram profundamente
esses custos e chegaram aos mesmos gastos. Esses dados, essa viabilidade
foi encaminhada para a Aneel, que está analisando. Se tiver
alguma coisa errada, a agência vai dizer. Mais ainda: a Eletrobras
contratou uma empresa de consultoria para analisar a viabilidade
econômica e financeira, que bateu nos mesmos números.
Tem um grupo interministerial estudando essa usina. Mas eu ratifico:
o custo da energia lá é US$ 12, o kilowatt instalado
vai ficar em torno de US$ 400 e a viabilidade está disponível
na internet. O diferencial é o seguinte: o local é
privilegiado, nunca vi nada parecido para se fazer uma usina hidrelétrica."
Destino da energia gerada por Belo Monte "Espero
que grande parte desta energia seja consumida no próprio
Pará, mas isso ainda é um sonho. Porque nos meus sonhos,
o Pará estará para o Brasil no século XXI como
São Paulo esteve no século XX. Porque lá tem
terras, água, floresta, reservas minerais ainda a serem descobertas
na margem esquerda do rio Amazonas, entre outros, além de
já ser o pólo de alumínio do Brasil. Então,
espero que grande parte da energia seja consumida lá, que
nós possamos interligar com o Amazonas e com o gás
de Urucu - referindo-se à construção, ainda
indefinida, do Gasoduto Urucu-Porto Velho. No cenário atual,
ela será incluída no do Sistema Elétrico Brasileiro,
e acho que a tendência natural será utilizar a energia
não usada no Pará para suprir o Nordeste, para suprir
todo o país."
Discussão do projeto com a população
local "Eu, particularmente, já fiz mais de 100
palestras na região ao longo desses 15 anos. Temos lá
em uma praça pública de Altamira uma maquete de Belo
Monte. Temos um centro de comunicação com todas as
informações e estamos ampliando este centro. Tudo
o que estamos discutindo com os prefeitos é comunicado à
sociedade. Temos em Altamira um jornalista, uma relação
públicas. E a nossa linha de ação agora é
levar os segmentos que ainda têm dúvidas em relação
ao projeto para verem como as coisas funcionam em Tucuruí.
Além disso, estamos criando o site de Belo Monte, com um
telefone 0800, até o final do ano."
Opiniões contrárias ao projeto "Eu
acho bom vocês fazerem uma pesquisa por lá. Segundo
a minha constatação, o Movimento pelo Desenvolvimento
da Transamazônica e Xingu (MDTX) é o único movimento
que se opõe ao projeto. Por razões que eu prefiro
não comentar. Agora, eu digo o seguinte: por que o Movimento
dos Atingidos por Barragens (MAB) não se mobiliza mais como
em Tucuruí? Porque não tem problemas. Isso foi avaliado.
Nós fizemos um estudo de cenário de desenvolvimento
para a região com a visão de 20 anos. A Eletronorte
é a única empresa no Brasil que pratica esta metodologia.
A partir deste cenário nós desenvolvemos um plano
de desenvolvimento regional, que está sendo debatido pela
segunda vez pela sociedade. Na primeira vez, alguns segmentos não
quiseram debater ou não acreditavam na importância.
Só para você ter uma idéia, este plano de inserção
regional tem previsto algo em torno de US$ 300 milhões. Numa
região riquíssima como aquela, com potencial, se este
empreendimento for feito como planejado, trará um novo Brasil,
um Brasil muito diferente do que existe hoje lá."
Financiamento do projeto "Existe um Grupo de
Trabalho interministerial a quem caberá decidir isso. Isso
está sendo estudado por esse GT, que conta a com participação
da sociedade civil."
Plano de Inserção Regional e Plano de Desenvolvimento
Sustentável "Os planos são de responsabilidade
da Eletronorte. O Plano de Desenvolvimento Sustentável foi
feito com a nossa equipe, que já tem prática nisso,
e está sendo discutido com a comunidade. Quando encerrarmos
essas discussões, teremos um número mais preciso.
Tínhamos um número que agora foi alterado por conta
dessa interações com os prefeitos e todos os segmentos
da sociedade. Não posso precisar esses dados agora, mas daqui
a um ou dois meses teremos esse plano legitimado pela sociedade
e legitimado pelo governo do Estado. O Plano de Inserção
Regional é uma composição de três parcelas:
a mitigação dos impactos ambientais negativos, a compensação
dos impactos negativos e a potencialização dos impactos
ambientais positivos. Para potencialização desses
impactos, há um acerto deste governo de que sejam alocados
US$ 300 milhões em 20 anos, sendo US$ 10 milhões nos
10 primeiros anos e US$ 20 milhões nos últimos 10
anos."
Alternativas para cobrir o déficit energético
do país "Acho que o Brasil executou o maior
programa de redução de perdas na história do
setor elétrico - referindo-se à economia de energia
imposta à sociedade em 2001. A sociedade aprendeu a combater
o desperdício. E o que vem acontecendo? O mercado de energia
retroagiu a 1999. Então, isso vai gerar um problema inimaginável
para o setor elétrico brasileiro. Por que? Por que as empresas
planejam sua receita com o crescimento do mercado, e o mercado involuiu.
Se de um lado o combate ao desperdício foi tão forte
reduzindo violentamente a receita das empresas de distribuição
- já existem empresas anunciando a retirada do Brasil - de
outro, a exigência da melhoria da qualidade do fornecimento
de energia, que exige investimentos adicionais. O Brasil realizou
o combate às perdas da forma mais traumática possível
e ninguém sabe qual vai ser o custo disso. Agora, a repontecialização
das usinas hidrelétricas é uma forma muito inteligente
de reduzir o déficit. Todas as empresas devem repotencializar
suas usinas porque é um custo de energia mais barato, mas
é um recurso limitado. Em Joanesburgo, nenhum país
desenvolvido quis assumir isso. Por que nós vamos querer?
Não estou defendendo a posição dos Estados
Unidos. Mas estou dizendo o seguinte: será que eles estão
errados e nós estamos certos ou nós estamos errados?
Não sei. É para ser avaliado. Vamos antender o crescimento
do Brasil com o quê? Com células fotovoltáicas,
com biomassa, com energia solar? Por que os mais desenvolvidos não
fazem isso? Por que não tem escala para isso. O grande diferencial
do Brasil é o potencial hidrelétrico. Porém,
se não houver essas opções, vamos ter que ir
para energia nuclear ou combustível a gás. Mas gás
da onde? Os Estados Unidos têm gás, carvão,
dominam o petróleo do mundo, e o Brasil domina o quê?"
Belo Monte não seria uma repetição de
Tucuruí e Balbina? "Desejo muito que Belo Monte
repita de forma melhorada o que está acontecendo em Tucuruí.
Eu desafio qualquer ecologista, ambientalista, a ir lá em
Tucuruí. Como Belo Monte já vai nascer incorporando
o aprendizado de Tucuruí, com certeza não vai repetir
o começo de Tucuruí. Espero que possamos ver daqui
a alguns anos acontecendo na região o que está ocorrendo
hoje em Tucuruí. Em relação a Balbina, a polêmica
é muito maior. Eu não defenderia uma nova Balbina.
Mas eu aconselharia a quem tem dúvida a ir lá, conhecer
os Waimiri-Atroari. Uma nação em extinção,
que tinha 374 índios doentes, com uma taxa anual de decréscimo
superior a 20%, e hoje uma nação com mil indivíduos
sem nenhum índio doente. Um projeto que chefes de Estado
do mundo todo vem conhecer, e os brasileiros não conhecem.
Imagine Manaus sem Balbina. Só um dado: Balbina, pelo custo
evitado, já se pagou mais de duas vezes. Balbina tem 250
megawatts instalados para uma área alagada de 3 mil km2,
a grosso modo. Belo Monte vai ter 11.182 MW para 400 km2. Na época,
quem tomou a decisão dentro dos parâmetros da época,
acertou. Tucuruí hoje é uma experiência que
dá orgulho ao brasileiro."

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