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Cronologia do projeto
1975 - O aproveitamento hidrelétrico da Amazônia,
cujo potencial representa 60% do total do país, figura entre
as prioridades do projeto desenvolvimentista de industrialização
brasileira e começa a ser diagnosticado na década
de 70. A recém-criada Eletronorte, subsidiária da
Centrais Elétricas Brasileiras - Eletrobras na Amazônia
Legal, inicia os Estudos de Inventário Hidrelétrico
da Bacia Hidrográfica do Rio Xingu. O trabalho de mapear
o rio e seus afluentes e definir os pontos mais favoráveis
para barramentos ficou sob a responsabilidade do Consórcio
Nacional de Engenheiros Consultores S.A., integrante do grupo Camargo
Côrrea.
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1980 - Finalizado o relatório dos Estudos de Inventário
Hidrelétrico da Bacia Hidrográfica do Rio Xingu. Para
o aproveitamento integral da Bacia do Rio Xingu, foram previstos
sete barramentos, que gerariam 19 mil megawatts (MW), metade da
capacidade instalada nas hidrelétricas brasileiras à
época. Essas usinas representariam o alagamento de mais de
18 mil km2 e atingiriam sete mil índios, de 12 Terras Indígenas,
além dos grupos isolados da região.
1980 - A partir das recomendações do relatório
final do estudo, a Eletronorte inicia os estudos de viabilidade
técnica e econômica do chamado Complexo Hidrelétrico
de Altamira, que reunia as Usinas de Babaquara (6,6 mil MW) e Kararaô
(11 mil MW).
1986 - Concluído o Plano 2010 - Plano Nacional de
Energia Elétrica 1987/2010. Propõe a construção
de 165 usinas hidrelétricas até 2010, 40 delas na
Amazônia Legal, com o aumento da potência instalada
de 43 mil MW para 160 mil MW, e destaca: "pela sua dimensão,
o aproveitamento do Rio Xingu se constituirá, possivelmente,
no maior projeto nacional no final deste século e começo
do próximo". Os estudos do Plano indicam Kararaô
como a melhor opção para iniciar a integração
das usinas do Rio Xingu ao Sistema Interligado Brasileiro. Até
então, os estudos de Babaquara eram a prioridade.
1988 - O Relatório Final dos Estudos de Inventário
Hidrelétrico da Bacia Hidrográfica do Rio Xingu é
aprovado pelo Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica
(DNAEE), extinto órgão regulador do setor elétrico.
1988 - Paulinho Paikan, líder Kaiapó, Kube-I
Kaiapó e o etnobiólogo Darrel Posey, do Museu Emílio
Goeldi do Pará, participam, em janeiro, na Universidade da
Flórida, em Miami (EUA),de um simpósio sobre manejo
adequado de florestas tropicais. Ali, relatam indignados que o Banco
Mundial (BIRD) iria financiar um projeto de hidrelétricas
no Xingu que inundaria sete milhões de hectares e desalojaria
13 grupos indígenas. Apesar de serem diretamente atingidos,
os índios não tinham sido consultados. Foram convidados
a repetir o relato em Washington.
1988 - Em março, pelas declarações
em Washington, Paiakan e Kube-I são processados e enquadrados
na Lei dos Estrangeiros. Quando voltam ao Brasil, recebem o apoio
do Centro Ecumênico de Documentação e Informação
(Cedi), uma das organizações que originou o Instituto
Socioambiental (ISA), que faz campanha mobilizando a opinião
pública contra a arbitrariedade. Somente em 16/02/1989, o
Tribunal Federal de Recursos decidiria pela concessão de
habeas corpus aos dois e também pelo trancamento da ação
penal.
Em novembro, lideranças Kaiapó se reúnem
na aldeia Gorotire para discutir as barragens projetadas para o
Rio Xingu, ocasião em que decidem convidar autoridades brasileiras
para um grande encontro com os povos indígenas que seriam
afetados pelas usinas. A convite de Paiakan, uma equipe do Cedi
participa da reunião na aldeia Gorotire, assessorando os
Kaiapó na formalização, documentação
e encaminhamento do convite às autoridades.

Tuíra: gesto
de advertência a Muniz Lopes
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1989 - Realizado o 1º Encontro dos Povos Indígenas
do Xingu, em fevereiro, em Altamira (PA). Patrocinado pelos Kaiapó,
conta com a participação da equipe do Cedi desde o
início dos preparativos até a implantação,
realização e avaliação do encontro.
Seu objetivo é protestar contra as decisões tomadas
na Amazônia sem a participação dos índios
e contra a construção do Complexo Hidrelétrico
do Xingu.
O encontro acaba ganhando imprevista notoriedade, com a maciça
presença da mídia nacional e estrangeira, de movimentos
ambientalistas e sociais. Reúne cerca de três mil pessoas.
Entre elas: 650 índios de diversas partes do país
e de fora, lideranças como Paulo Paiakan, Raoni, Marcos Terena
e Ailton Krenak; autoridades como o então diretor e durante
o governo FHC, presidente da Eletronorte, José Antônio
Muniz Lopes, o então presidente do Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama),
Fernando César Mesquita, o então prefeito de Altamira,
Armindo Denadin; deputados federais; 300 ambientalistas, em torno
de 150 jornalistas e o cantor inglês Sting. Durante a exposição
de Muniz Lopes sobre a construção da usina Kararaô,
a índia Tuíra, prima de Paiakan, levanta-se da platéia
e encosta a lâmina de seu facão no rosto do diretor
da estatal num gesto de advertência, expressando sua indignação.
A cena é reproduzida em jornais de diversos países
e torna-se histórica. Na ocasião, Muniz Lopes anuncia
que, por significar uma agressão cultural aos índios,
a usina Kararaô - nome que significa grito de guerra em Kaiapó
- receberia um outro nome e não seriam mais adotados nomes
indígenas em usinas hidrelétricas. O evento é
encerrado com o lançamento da Campanha Nacional em Defesa
dos Povos e da Floresta Amazônica, exigindo a revisão
dos projetos de desenvolvimento da região, a Declaração
Indígena de Altamira e uma mensagem de saudação
do cantor Milton Nascimento. O encontro de Altamira é considerado
um marco do socioambientalismo no Brasil.
1990 - A Eletronorte envia ao Departamento Nacional de Águas
e Energia Elétrica (DNAEE) o Relatório Final dos Estudos
de Viabilidade do Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte,
antiga Kararaô, solicitando sua aprovação e
outorga de concessão.
1994 - Novo
projeto, remodelado para se mostrar mais palatável
aos ambientalistas e investidores estrangeiros, é apresentado
ao DNAEE e à Eletrobras. O reservatório da usina,
por exemplo, é reduzido de 1.225 km2 para 400 km2, evitando
a inundação da Área Indígena Paquiçamba.
1996 - A Eletrobrás solicita autorização
à Aneel para, em conjunto com a Eletronorte, desenvolver
o complemento dos Estudos de Viabilidade do Aproveitamento Hidrelétrico
de Belo Monte.
2000 - Acordo de Cooperação Técnica
é celebrado entre a Eletrobrás e Eletronorte com o
objetivo de realizar os Estudos de Complementação
da Viabilidade do Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte.
2000 - O Plano Plurianual de 2000-2003 - instrumento de
planejamento de médio prazo das ações do Governo
Brasileiro apresentado ao Congresso -, nomeado Avança
Brasil, contempla Belo Monte não apenas como uma
obra estratégica para elevar a oferta de energia do país,
mas também como um projeto estruturante do Eixo de Desenvolvimento
- Madeira/Amazonas.
2000 - A Fundação de Amparo e Desenvolvimento
de Pesquisas (Fadesp), vinculada à Universidade Federal do
Pará (UFPA), é contratada para elaborar os Estudos
de Impacto Ambiental (EIA) do Complexo Hidrelétrico de Belo
Monte.
2001 - O Ministério das Minas e Energia anuncia,
em maio, um plano de emergência de US$ 30 bilhões para
aumentar a oferta de energia no país. Inclui a construção
de 15 usinas hidrelétricas, entre as quais o Complexo Hidrelétrico
de Belo Monte, que seria avaliada pelo Conselho Nacional de Política
Energética - órgão criado em 1997, vinculado
ao Ministério de Minas e Energia, voltado à formulação
de políticas e diretrizes de energia - em junho do mesmo
ano.
2001- Ainda em maio, o Ministério Público
move ação civil pública para suspender os Estudos
de Impacto Ambiental (EIA) de Belo Monte, cujo pedido é atendido
por uma liminar da 4.ª Vara Federal de Belém, porque
não houve licitação para a Fadesp, acusada,
entre outros, de elaborar o EIA/RIMA das Hidrovia Araguaia-Tocantins
e Teles-Tapajós com uma metodologia questionável sob
o ponto de vista científico e técnico; a obra deve
ser licenciada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e não pelo governo
do Pará, já que o Xingu é um rio da União;
e os EIA devem examinar toda a Bacia do Xingu e não apenas
uma parte dela.
2001 - Governo edita a Medida Provisória 2.152-2
, em junho, conhecida como MP do Apagão, que, entre outras
medidas, determina que o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama)
estabeleça licenciamento simplificado de empreendimentos
do setor elétrico de “baixo impacto ambiental”. Estabelece
também o Relatório Ambiental Simplificado, aplicável
às hipóteses de obras em que não se exigirá
o Estudo de Impacto Ambiental.
2001 - O Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica
e Xingu (MDTX), que reúne 113 organizações
sociais, elabora, em agosto, um documento intitulado SOS
Xingu: um chamamento ao bom senso sobre o represamento de rios na
Amazônia.
2001 - Em setembro, Resolução do Conselho
Nacional de Política Energética reconhece Belo Monte
como de interesse estratégico no planejamento de expansão
de hidreletricidade até 2010.
2001 - A Justiça Federal concede, em setembro, liminar
à ação civil pública que pede a suspensão
dos Estudos de Impacto Ambiental (EIA) de Belo Monte
2002 - Em janeiro, a Eletrobrás aprova a contratação
de uma consultoria para definir a modelagem de venda do projeto
de Belo Monte.
2002 - Em março, uma Resolução do Conselho
Nacional de Política Energética cria um Grupo de Trabalho
(GT) com o objetivo de estudar e apresentar um plano de viabilização
para a implantação da Usina Hidrelétrica de
Belo Monte. O GT, formado por representantes da Casa Civil da Presidência
da República, dos ministérios de Minas e Energia,
do Meio Ambiente, da Fazenda, do Planejamento, Orçamento
e Gestão; da Eletrobrás, da Eletronorte, da Companhia
Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), da Furnas Centrais
Elétricas S.A, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES) e do Governo do Estado do Pará, deveria
envolver também dois representantes da sociedade civil. Wilson
Quintella, presidente da Agência de Desenvolvimento Tietê
Paraná, parceira da Eletronorte, entretanto, é o único
representante nomeado.
2002 - Em março, a Federação dos Trabalhadores
da Agricultura Transamazônica promove debate em Altamira (PA)
com a participação de representantes indígenas,
igreja, políticos locais, ONGs, confederações
e federações de agricultores como a Confederação
dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Movimento dos Atingidos
por Barragens (MAB), Ministério Público, entre outros.
2002 - A Fundação Viver, Produzir e Preservar
(FVPP), o Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica
e Xingu (MDTX), o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), a Federação
dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri/Regional) e o Conselho
Indigenista Missionário - Cimi Norte II enviam, em março,
carta ao presidente Fernando Henrique Cardoso pedindo a suspensão
de todas as obras de grande impacto na Amazônia, até
que haja uma discussão exemplar e a construção
de um consenso com a sociedade local.
2002 - Em abril, a Comissão de Minas e Energia realiza
audiência pública sobre a construção
de Belo Monte, apenas com participantes totalmente favoráveis
à obra, entre eles, os deputados federais Nicias Ribeiro
(PSDB-PA), Antônio Feijão (PSDB-AP), Josué Bengtson
(PTB-PA), Juquinha (PSDB-GO), Marcos Lima (PMDB-MG), Fernando Ferro
(PT-PE) e Asdrubal Bentes (PMDB-PA).
2002 - Ainda em abril, o presidente Fernando Henrique Cardoso
afirma que a birra de ambientalistas atrapalha o país, referindo-se
à oposição e construção de usinas
hidrelétricas. “Além do respeito ao meio ambiente,
é preciso que haja também respeito às necessidades
do povo brasileiro, para que a 'birra' entre os diferentes setores
não prejudique as obras, porque elas representarão
mais emprego.” Ele menciona que o projeto de Belo Monte foi refeito
diversas vezes e que tem um “grau de racionalidade” bastante razoável.
2002 - Encontro das Comunidades da Volta Grande do Rio Xingu,
em maio. Participantes produzem carta com diversos pedidos às
autoridades que estudam e discutem sobre o setor elétrico
brasileiro.
2002 - Realizado o 1o Encontro dos Povos Indígenas
da Região da Volta Grande do Rio Xingu, em maio, que reúne
cerca de 250 representantes da sociedade civil e povos indígenas,
para reafirmar posição contrária à construção
de Belo Monte.
2002 - Em junho, cópias dos Estudos sobre a Viabilidade
de Implantação do Complexo Hidrelétrico Belo
Monte são colocadas à disposição dos
interessados na sede da Agência Nacional de Energia Elétrica
(Aneel).
2002 - Em agosto, resolução do Conselho Nacional
de Política Energética prorroga para 30 de novembro
o prazo para a apresentação do plano de viabilidade
para a implantação da Usina Hidrelétrica de
Belo Monte.
2002 - Em setembro, MDTX, Fundação Viver,
Produzir e Preservar, Prelazia do Xingu, Comissão Pastoral
da Terra e Arikafú - Associação dos Povos Xipaya
da Aldeia Tukamã enviam carta aos membros do Conselho Nacional
de Política Energética exigindo que o órgão
tome as providências cabíveis, começando por
ouvir todas as partes envolvidas nesse projeto, em especial, os
povos indígenas, que nunca tiveram suas proposições
consideradas pelo governo.
2002 - O candidato à presidência, Luiz Inácio
Lula da Silva lança em setembro, O
Lugar da Amazônia no Desenvolvimento do Brasil, quinto
caderno temático de seu programa de governo. Além
de citar Belo Monte como um dos projetos de intensos debates na
região, o documento também afirma que “a matriz energética
brasileira, que se apóia basicamente na hidroeletricidade,
com megaobras de represamento de rios, tem afetado a Bacia Amazônica.
Considerando as especificidades da Amazônia, o conhecimento
fragmentado e insuficiente que se acumulou sobre as diversas formas
de reação da natureza em relação ao
represamento em suas bacias, não é recomendável
a reprodução cega da receita de barragens que vem
sendo colocada em prática pela Eletronorte”.
2002 - O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro
Marco Aurélio Mello, nega, em novembro, pedido da União
e mantém suspensos os Estudos de Impacto Ambiental de Belo
Monte. Segundo o ministro, o artigo 231 da Constituição
Federal prevê que é nulo e extinto “todo e qualquer
ato” que tenha por objeto a ocupação, o domínio
e a posse de terras indígenas, ou a exploração
das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes.
Embora a União tenha argumentado que a Constituição
Federal não cita o EIA, o presidente do STF considera que
a única ressalva do artigo 231 é a existência
de “relevante interesse público da União, segundo
o que dispuser lei complementar” e, tal lei, ainda não existe.
Também contou o fato de a Fadesp ter sido contratada sem
licitação, o que poderia pesar sobre o patrimônio
público. A defesa da União de que Belo Monte está
voltada ao desenvolvimento do potencial energético nacional
foi rebatida pelo presidente do STF pela necessidade de se “proceder
com segurança, visando-se a elucidar os parâmetros
que devem nortear o almejado progresso” e princípios constitucionais
respeitados.
2002 - Ainda em novembro, advogados da Eletronorte analisam
com a Advocacia Geral da União (AGU) a decisão do
Supremo Tribunal Federal (STF).
2002 - A Eletronorte e o Centro de Desenvolvimento Sustentável
da Universidade de Brasília (UnB) promovem, em novembro,
o seminário Dinamismo Econômico e Conservação
Ambiental: um Desafio para Belo Monte ...e para todos. O objetivo
é discutir textos preliminares da pesquisa Dinamismo econômico
e conservação ambiental: o caso de Belo Monte, Pará,
encomendada pela Eletronorte à UnB, e submeter a críticas
os Planos de Desenvolvimento Sustentável da Região
de Belo Monte (PDSBM) e o Plano de Inserção Regional
(PIR). Entretanto nenhum representante da região, do Ministério
Público ou especialista em energia está entre os expositores
e debatedores do evento.
2003 - O físico Luiz Pinguelli Rosa assume a presidência
da Eletrobrás e declara à imprensa que o projeto de
construção de Belo Monte será discutido e opções
de desenvolvimento econômico e social para o entorno da barragem
estarão na pauta, assim como a possibilidade de reduzir a
potência instalada.
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