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Catorze anos se passaram desde que
os 3 mil participantes - 650 eram índios - do I Encontro
dos Povos Indígenas do Xingu, realizado entre 20 e 25 de
fevereiro de 1989, em Altamira (PA), bradaram ao Brasil e ao mundo
seu descontentamento com a política de construção
de barragens no Rio Xingu. A primeira, de um complexo de cinco hidrelétricas
planejadas pela Eletronorte, seria Kararaô, mais tarde rebatizada
Belo Monte. De acordo com o cacique Paulinho Paiakan, líder
kaiapó e organizador do evento ao lado de outras lideranças
como Raoni, Ailton Krenak e Marcos Terena, a manifestação
pretendia colocar um ponto final às decisões tomadas
na Amazônia sem a participação dos índios.
Tratava-se de um protesto claro contra a construção
de hidrelétricas na região.

Encontro de Altamira reuniu 3 mil pessoas,
650 índios, entre elas, e foi considerado um marco do socioambientalismo
no Brasil
Na memória dos brasileiros, o encontro ficou marcado
pelo gesto de advertência da índia kaiapó Tuíra,
que tocou com a lâmina de seu facão o rosto do então
diretor da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes, aliás
presidente da estatal durante o governo FHC. O gesto forte de Tuíra
foi registrado pelas câmaras e ganhou o mundo em fotos estampadas
nos principais jornais brasileiros e estrangeiros. Ocorrido pouco
mais de dois meses após o assassinato do líder seringueiro
Chico Mendes, em Xapuri (AC), que teve repercussão internacional,
o encontro de Altamira adquiriu notoriedade inesperada, atraindo
não apenas o movimento social e ambientalista, como a mídia
nacional e estrangeira.
O I Encontro dos Povos Indígenas foi o resultado
de um longo processo de preparação iniciado um ano
antes, em janeiro de 1988, (veja o item Histórico)
depois que o pesquisador Darrel Posey, do Museu Emílio Goeldi
do Pará, e os índios kaiapó Paulinho Paiakan
e Kuben-I participaram de seminário na Universidade da Flórida,
no qual denunciaram que o Banco Mundial (BIRD) liberara financiamentos
para construir um complexo de hidrelétricas no Rio Xingu
sem consultar os índios. Convidados por ambientalistas norte-americanos
a repetir o depoimento em Washington lá foram eles. E, por
causa disso, Paiakan e Kube-I acabaram enquadrados pelas autoridades
brasileiras, de forma patética, na Lei dos Estrangeiros e,
por isso, ameaçados de serem expulsos do país. O Programa
Povos Indígenas no Brasil, do Centro Ecumênico de Documentação
e Informação (Cedi), uma das organizações
que deu origem ao Instituto Socioambiental (ISA), convidou Paiakan
a vir a São Paulo, denunciou o fato e mobilizou a opinião
pública contra essa arbitrariedade.
Para avançar na discussão sobre a construção
de hidrelétricas, lideranças kaiapó reuniram-se
na aldeia Gorotire em meados de 1988 e decidiram pedir explicações
oficiais sobre o projeto hidrelétrico no Xingu, formulando
um convite às autoridades brasileiras para participar de um
encontro a ser realizado em Altamira (PA). A pedido de Paiakan, o
antropólogo Beto Ricardo e o cinegrafista Murilo Santos, do
Cedi, participaram da reunião, assessorando os kaiapó
na formalização, documentação e encaminhamento
do convite às autoridades. Na seqüência, uniram-se
aos kaiapó na preparação do evento. O encontro
finalmente aconteceu e o Cedi, com uma equipe de 20 integrantes, reforçou
sua participação naquele que seria, mais tarde, considerado
um marco do socioambientalismo no Brasil. Ao longo desses anos, o
Cedi, e depois o ISA, acompanharam os passos do governo e da Eletronorte
na questão de Belo Monte, alertas para os impactos que provocaria
sobre as populações indígenas, ribeirinhas e
todo o ecossistema da região.
Listada no governo FHC como uma das muitas obras estratégicas
do programa Avança
Brasil, a construção do complexo de hidrelétricas
no Rio Xingu faz parte da herança legada ao governo Lula, eleito
em novembro de 2002. Herança que era bem conhecida. Tanto assim,
que o caderno temático O
Lugar da Amazônia no Desenvolvimento do Brasil, parte
do Programa do Governo do presidente eleito, alertava: “Dois projetos
vêm sendo objeto de intensos debates: a Usina Hidrelétrica
de Belo Monte, no Pará, e o de Gás de Urucu, no Amazonas.
Além desses também preocupam as 18 barragens propostas
na Bacia do Rio Araguaia e Tocantins. A matriz energética brasileira,
que se apóia basicamente na hidroeletricidade, com megaobras
de represamento de rios, tem afetado a Bacia Amazônica. Considerando
as especificidades da Amazônia, o conhecimento fragmentado e
insuficiente que se acumulou sobre as diversas formas de reação
da natureza em relação ao represamento em suas bacias,
não é recomendável a reprodução
cega da receita de barragens que vem sendo colocada em prática
pela Eletronorte”.
Decisão ficou para o novo governo
De fato, razões para preocupação não
faltam. Exemplos infelizes como a construção das usinas
hidrelétricas de Tucuruí (PA) e Balbina (AM), as últimas
construídas na Amazônia, nas décadas de 1970
e 1980, estão aí de prova. Desalojaram comunidades,
inundaram enormes extensões de terra e destruíram
a fauna e flora daquelas regiões. Balbina, a 146 quilômetros
de Manaus, significou a inundação da reserva indígena
Waimiri-Atroari, mortandade de peixes, escassez de alimentos e fome
para as populações locais. A contrapartida, que era
o abastecimento de energia elétrica da população
local, não foi cumprida. O desastre foi tal que, em 1989,
o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), depois
de analisar a situação do Rio Uatumã, onde
a hidrelétrica fora construída, concluiu por sua morte
biológica. Em Tucuruí não foi muito diferente.
Quase dez mil famílias ficaram sem suas terras, entre indígenas
e ribeirinhos. Diante desse quadro, em relação à
Belo Monte, é preciso questionar a forma anti-democrática
como o projeto vinha sendo conduzido, a relação custo-benefício
da obra, o destino da energia a ser produzida e a inexistência
de uma política energética para o país que
privilegie energias alternativas.
Essas questões continuam a ser repisadas pelos movimentos
sociais que atuam na região, como por exemplo, o Movimento
pelo Desenvolvimento da Transamazônica e Xingu (MDTX) e o
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), entre outros. São
eles que levam adiante a batalha contra a construção
de Belo Monte e de outras hidrelétricas no Rio Xingu.
Empossado em janeiro de 2003, o novo presidente da Eletrobrás,
o físico Luiz Pinguelli Rosa, declarou à imprensa
que o projeto de construção de Belo Monte será
discutido e opções de desenvolvimento econômico
e social para o entorno da barragem estarão na pauta, assim
como a possibilidade de reduzir a potência instalada, prevista
em 11 mil megawatts (MW) no projeto original. As discussões
sobre o empreendimento deverão envolver outros ministérios,
como o do Meio Ambiente. Em todas as suas entrevistas, a construção
da Usina Hidrelétrica de Belo Monte é líquida
e certa, embora ele insista que o processo será permeado
de consultas e incluirá “medidas compensatórias”.
Abre-se com isso uma frente polêmica na relação
dos socioambientalistas com o novo governo.
A persistência governamental em construir Belo Monte
está baseada numa sólida estratégia de argumentos
dentro da lógica e vantagens comparativas da matriz energética
brasileira. Os rios da margem direita do Amazonas têm declividades
propícias à geração de energia, e o
Xingu se destaca, também pela sua posição em
relação às frentes de expansão econômica
(predatória) da região central do país. O desenho
de Belo Monte foi revisto e os impactos reduzidos em relação
à proposta da década de 80. O lago, por exemplo, inicialmente
previsto para ter 1.200 km2, foi reduzido, depois do encontro, para
400 km2. Os socioambientalistas, entretanto, estão convencidos
de que além dos impactos diretos e indiretos, Belo Monte
é um cavalo de tróia, porque outras barragens virão
depois, modificando totalmente e para pior a vida na região.
Como um dos personagens que deram apoio ao protesto de Altamira
desde o início, o Instituto Socioambiental saiu a campo no
segundo semestre de 2002 para apurar a opinião de especialistas,
ambientalistas, movimentos sociais, prefeituras locais e dirigentes
de órgãos governamentais durante o governo de Fernando
Henrique Cardoso. O ISA também pesquisou o que diz o governo
Lula no item de seu programa de governo referente à construção
de hidrelétricas e mais especialmente sobre Belo Monte. Como
o assunto está longe de ser encerrado, este especial será
atualizado com regularidade, até porque ainda não
foi possível entrevistar o presidente da Eletrobrás,
Luiz Pinguelli Rosa. Pesquisas, entrevistas e textos ficaram a cargo
da jornalista Cristiane Fontes. O jornalista Ricardo Barretto entrevistou
os prefeitos dos municípios da região de Belo Monte
e a assessora política Marília da Silva Oliveira conduziu
a entrevista com o presidente da Eletronorte. Os prós e os
contras - mais contras do que prós - os internautas poderão
conferir nos textos abaixo, e acompanhar aqui a evolução
do debate, que certamente, terá a participação
da sociedade civil. Se você tiver comentários e sugestões,
fale conosco (isa@socioambiental.org).
Inês Zanchetta
:: Características
:: Localização
:: Histórico
:: Impactos socioambientais
:: Destino da energia
gerada
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:: O que dizia a Eletronorte
no governo FHC
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social
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público local
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Lula
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