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Custos e financiamento de
Belo Monte
US$ 3,7 bilhões. Este é o custo de Belo Monte
segundo cálculos da Eletronorte, que defende o projeto como
um dos empreendimentos hidrelétricos com menor custo operacional
do mundo. A cifra, entretanto, não convence o especialista
Célio Bermann, professor do Programa de Pós-Graduação
em Energia da Universidade de São Paulo (USP): “Eles estão
entrando numa nova etapa do capitalismo internacional, que transforma
um investimento de, no mínimo, US$ 11 bilhões em US$
3,7 bilhões. Falo em US$ 11 bilhões porque o custo
médio internacional para a geração de hidroeletricidade
é de US$ 1 mil o kilowatt instalado, considerando uma taxa
de desconto de 15%, adotada no mercado brasileiro, e um tempo de
retorno de 15 anos, período para viabilizar financeiramente
qualquer investimento no país. Também deve se acrescentar
a isso o fato de ser na Amazônia, longe do material de construção
do empreendimento, o que, em vez de reduzir, eleva a média
nacional”.
Bermann, que define Belo Monte como uma usina cara e inútil,
lembra que a Usina Hidrelétrica de Tucuruí tinha um
orçamento estimado em US$ 2,1 bilhões, sendo que o
seu custo atualizado é de cerca de US$ 7,5 bilhões,
sem incluir as linhas de transmissão. Este exemplo também
é utilizado pelo jornalista paraense Lúcio Flávio
Pinto, em muitos de seus artigos sobre o projeto. A Eletronorte
adota a cifra de US$ 4,7 bilhões.
Outro dado controverso é o valor oficial da geração
da energia de US$ 12MW/hora. “É um absurdo a Eletronorte
dizer que o custo da geração é de 12MW/h. O
custo da eletricidade no Brasil hoje é de US$ 35 MW/hora.
Eles falam em US$ 12 MW/h, com um custo de capital de US$ 400 o
quilowatt instalado e uma taxa de desconto de 10% ao ano, que não
é a que o mercado brasileiro trabalha. Fizemos um cálculo
na universidade para avaliar o custo médio do kw instalado,
com a taxa de desconto que é utilizada no mercado, e chegamos
a um custo de geração de US$ 41MW/h”, afirma Bermann.
José Muniz Lopes, presidente da Eletronorte até
o final de 2002, defendia seus cálculos. “Esse custo de US$
35 MW/h é considerado para usinas termoelétricas.
O custo médio de uma usina hidrelétrica hoje fica
na faixa de US$ 25, US$ 30 MH/W. Se alguém construir uma
usina a US$ 35 MW/h hoje, não consegue vender. Eu ratifico
o custo de energia a US$ 12 MW/h na usina, mais US$ 8 MW/h para
ser interligado ao Sistema Elétrico Brasileiro. Agora, se
você tiver que levar a energia a São Paulo fica em
torno de US$25, US$ 28 MW/h. A viabilidade está disponível
na Internet. É um lugar privilegiado, nunca vi nada parecido
para se construir uma usina hidrelétrica.”
A usina hidrelétrica deverá ser interligada
ao Sistema Elétrico Brasileiro por meio da construção
de linhas de transmissão até Colinas, no Tocantins,
que, orçadas em cerca de US$ 2 bilhões, deverão
ser licitadas separadamente da usina. Para os críticos, as
linhas de transmissão representam um custo adicional ao projeto.
Planos de Inserção e Desenvolvimento
Sustentável
Além de reduzir em dois terços a área
do reservatório, de 1,200 km2 para 400 km2, o novo desenho
do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte inclui um Plano
de Inserção Regional e um Plano
de Desenvolvimento Sustentável . De acordo com
documentos da Eletronorte, a razão e a relevância do
Plano de Inserção Regional é potencializar
os impactos positivos do empreendimento, partindo do pressuposto
que a área de influência da obra encontra-se em fase
de decadência econômica. Neste sentido, são definidas
diversas ações para a retomada do desenvolvimento
local, divididas nos seguintes segmentos: educação,
qualificação e aperfeiçoamento de mão-de-obra
local; fomento à produção; melhoria da infra-estrutura
social e urbana; fortalecimento das instituições públicas
e estatais locais; e integração de infra-estrutura
de apoio logístico à realização do empreendimento.
“Os planos são de responsabilidade da Eletronorte.
Em relação ao Plano de Inserção Regional
(PIR), há um acerto deste governo (FHC) de que sejam alocados
US$ 300 milhões em 20 anos nos municípios da área
de influência da obra, sendo US$ 10 milhões nos 10
primeiros anos e US$ 20 milhões nos últimos 10 anos.
O Plano de Desenvolvimento Sustentável foi feito pela nossa
equipe, que já tem prática nisso, e está sendo
discutido com a comunidade”, afirmou José Muniz Lopes. Calculado
anteriormente em R$ 18 bilhões, o Plano de Desenvolvimento
Sustentável é dividido em 91 projetos, de 15 programas,
em linhas estratégicas que não diferem muito das estabelecidas
pelo PIR.
Bermann acredita que será complicado chamar o setor
privado a participar desses investimentos. “Se o Estado se mostrou
incapaz de fazer isso nos últimos 30 anos, muito menos a
iniciativa privada deverá ter esse tipo de interesse.” A
opinião também é dividida por Antônia
Mello, da coordenação do Movimento pelo Desenvolvimento
da Transamazônica e Xingu (MDTX), para quem o Plano de Inserção
Regional é uma carta obscura, com programas e projetos no
papel, sem a certeza de quem vai assumi-los. “Outras obras, que
foram construídas pelo governo, também tinham todos
esses projetos, que não foram contemplados. Imagine esse
que será construído pelo capital privado. Sobre os
'royalties' que serão repassados aos municípios como
compensação pelos danos ambientais e sociais, não
há controle social sobre esses recursos. Tucuruí,
Parauapebas, Oriximará e Barcarena recebem milhões
em royalties. A população está empregada nesses
municípios? Tem saneamento e urbanização para
todo mundo? Esses municípios oferecem a melhor saúde
e educação para suas populações? Os
jovens têm trabalho, estão sendo bem formados? Só
com controle da população sobre o planejamento do
uso dos recursos e sobre a aplicação, o município
pode usufruir o benefício dos royalties. Do contrário,
quem enriquece são os prefeitos e governos de plantão.”
Hélio Mecca, do Movimento dos Atingidos por Barragens,
é ainda mais crítico: “Esses planos fazem parte de
uma estratégia usada em todas as barragens no país.
Na prática, o que ocorre é que se cria uma expectativa
de desenvolvimento, a obra é fechada e as coisas acabam por
aí. Do ponto de vista de desenvolvimento regional, esses
são os exemplos que temos no Brasil: 1 milhão de pessoas
desalojadas em conseqüência da construção
de barragens, sendo que 70% delas perderam absolutamente tudo. A
população fica com os restos mortais da obra, sem
rede elétrica, sem terra, sem rio, sem pesca, sem a cultura
local, e os municípios ficam com uma estrutura e com mão-de-obra
ociosa gerada durante a construção da obra”.
Para Reinaldo Correa Costa, pesquisador da Universidade
de São Paulo (USP), não é possível discutir
um plano de inserção regional para uma hidrelétrica
separado do Estudo de Impacto Ambiental. “Não posso fazer
um plano de inserção regional voltado, por exemplo,
à pesca, se o meu estudo de previsão de impacto não
vai me dar uma base, um fundamento, para eu entender que tipo de
peixe eu vou poder pegar, em que época eu vou poder pegar,
num ambiente alterado.”
O então secretário especial de Infra-Estrutura
do Pará, José Augusto Affonso, afirmou ao ISA, em
2002, que a Eletronorte tem para Belo Monte uma outra visão
no que diz respeito aos investimentos energéticos, por meio
da consciência da necessidade de alocação de
recursos visando a inserção regional da obra. Affonso
explicou que os investimentos teriam diversas fontes de financiamento,
entre as quais o próprio empreendedor, programas do Avança
Brasil, parcerias com os governos municipais e entidades privadas,
ONGs, entre outros, e que a engenharia financeira ainda estava em
discussão.
Quem financiará o projeto?
“Os dirigentes da Eletronorte sabem que nenhuma empresa
vai querer bancar o projeto inteiro, que a barragem não tem
como funcionar sem as linhas de transmissão, portanto, eles
vão ter que caprichar para fazer algum tipo de arranjo artificial
que garanta milhões de reais do Tesouro Nacional, um empréstimo
do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
e colocar uma valor que seja responsabilidade das empresas. Agora,
se, eventualmente, esse valor não for suficiente para terminar
a obra, quem vai bancar os gastos extras? Usualmente, uma barragem
custa 30%, 40% a mais do que o que foi orçado originalmente”,
explica Glenn Switkes, coordenador no Brasil da International Rivers
Network, organização que trabalha com alternativas
às grandes obras em rios e impactos das grandes barragens.
Switkes aposta no arranjo precário da obra, sob o ponto de
vista econômico, social e ambiental, para que o projeto não
saia do papel, assim como no fato de empresas privadas estarem reavaliando
sua participação em barragens na Amazônia.
De acordo com José Muniz Lopes, o financiamento do
projeto estava sendo definido por um Grupo de Trabalho (GT) interministerial.
Formado em março de 2002, o GT tinha também entre
suas atribuições a apresentação da participação
do governo no financiamento e no investimento para a construção
do empreendimento e do sistema de transmissão. Contava com
representantes da Casa Civil da Presidência da República,
dos Ministério de Minas e Energia, do Meio Ambiente, da Fazenda,
do Planejamento, Orçamento e Gestão; da Eletrobras,
da Eletronorte, da Companhia Hidrelétrica do São Francisco
(Chesf), da Furnas Centrais Elétricas S.A., do BNDES, do
Governo do Estado do Pará, e deveria envolver também
dois integrantes da sociedade civil. Wilson Quintella, presidente
da Agência de Desenvolvimento Tietê Paraná, à
qual a Eletronorte é associada, é o único representante
da sociedade civil nomeado. A Resolução do Conselho
Nacional de Políticas Energéticas (CNPE) que criava
em março o GT, estabelecia o prazo de 60 dias para os trabalhos
serem apresentados, o que não ocorreu até hoje.
A participação do BNDES e da Eletrorte no
financiamento de uma parte da obra já tinha sido anunciada.
Entretanto, ao que tudo indica, a iniciativa privada será
o investidor controlador do empreendimento.
De acordo com Bermann, entre os principais investidores
no setor elétrico estão as empresas eletrointensivas,
ligadas à indústria de cimento, à produção
siderúrgica e à produção de alumínio.
“Elas já estão transformando vários trechos
de rio em usinas para consumo próprio.”
(In)Viabilidade econômica
“O que acontece hoje com o projeto de Belo Monte é
que se gasta para produzir 11 mil megawatts, dos quais cinco mil
não vão ser utilizados na maior parte do ano. O investimento
para a construção de uma usina, entretanto, precisa
ser remunerado pela energia gerada. Segundo a Eletronorte, a energia
firme não tem nada a ver com a remuneração
do investimento. Mas, então, eles estão tratando de
um outro tipo de economia e esse é o nó porque ela
é inviável sob o ponto de vista econômico”,
afirma Célio Bermann, professor do Programa de Pós-Graduação
em Energia da Universidade de São Paulo (USP). Em consequência,
ele não acredita que Belo Monte se viabilize sozinha, opinião
dividida com diversos entrevistados. “Belo Monte é a primeira,
que não se viabiliza sem a construção das outras.
Ela sozinha não assegura energia firme suficiente ao longo
de todo o ano, o que só é possível com a construção
de outras barragens acima do rio.”
Embora Muniz Lopes tenha defendido que, desde que esteja
interligada ao Sistema Elétrico Brasileiro, Belo Monte se
viabiliza sozinha economicamente, ele reconheceu que caberia mais
uma usina no Xingu. “Defendemos uma Babaquara refeita, com um reservatório
menor, mais baixa, com menos impacto ambiental.” Em relação
às críticas à energia média gerada pela
usina, ele disse não estar muito longe da maioria das usinas,
em torno de 50%.
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