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Um conjunto complexo de impactos socioambientais
Inundação constante, hoje sazonal,
dos igarapés Altamira e Ambé, que cortam a cidade
de Altamira, e parte da área rural de Vitória do Xingu.
Redução da vazão da água a jusante do
barramento do rio na Volta Grande do Xingu e interrupção
do transporte fluvial até o Rio Bacajá, único
acesso para comunidades ribeirinhas e indígenas. Remanejamento
de cerca de duas mil famílias que vivem hoje em condições
precárias na periferia de Altamira, de 800 famílias
da área rural de Vitória do Xingu e de 400 famílias
ribeirinhas. Alteração do regime do rio sobre os meios
biótico e socioeconômico, com redução
do fluxo da água. Estes são os impactos socioambientais
preliminarmente listados por um documento da Eletronorte, intitulado
Complexo
Hidrelétrico Belo Monte e sua Inserção Regional.
Preliminarmente
porque a elaboração dos Estudos de Impacto Ambiental
está suspensa pela Justiça Federal desde maio de 2001
por diversos motivos, entre os quais: a contratação
de toda a Bacia do Xingu e não apenas o trecho relacionado
à área de influência de Belo Monte. Considerada
vital pelo governador recém-eleito do Pará, Simão
Jatene, a obra também é defendida com veemência
por diversos prefeitos da região, que
promovem o Plano
de Inserção Regional e o Plano
de Desenvolvimento Sustentável como capazes de
compensar todos os impactos socioambientais do empreendimento.
Mário Matias Lobo, prefeito de Uruará, por
exemplo, afirma que o impacto ambiental é praticamente nulo
diante dos benefícios e da quantidade de energia que será
gerada. “A construção da usina é de grande
importância para o Pará, a Transamazônica e todo
o Brasil. O Plano de Inserção Regional faz parte dos
custos da obra. É claro que o Governo Federal e a Eletronorte
farão investimentos anteriores para evitar impactos iniciais.
Do total investido em Belo Monte, R$ 300 milhões serão
destinados a 11 municípios durante 20 anos”, diz Pedro Theodoro
de Rezende, prefeito de Pacajá.
Variedade de posições contrárias
Já movimentos sociais locais, ambientalistas e pesquisadores
discordam destes argumentos. Para Sônia Barbosa Magalhães,
pesquisadora do Departamento de Ciências Humanas do Museu
Goeldi (PA), além da alteração de vazão
de rio, com mudança de regime de inundação
e consequências para a agricultura, afluxo populacional e
desestruturação fundiária, o 'boom' das grandes
hidrelétricas no país e o conceito de impactos diretos
e indiretos em disputa nessas obras são fatores muito preocupantes.
“Tradicionalmente, as subsidiárias da Eletrobras chamam de
efeito direto o que seria alagado e de efeito indireto as áreas
não alagadas, quando deveriam adotar critérios mais
abrangentes.”
Embora o remanejamento da população atingida
por Belo Monte tenha sido contemplado em documentos da Eletronorte,
o Movimento pelo Desenvolvimento do Xingu e Transamazônica
(MDTX) não acredita que as famílias que vivem hoje
na área a ser alagada em Altamira serão indenizadas,
pois não possuem título de posse de terra. De acordo
com Hélio Mecca, da coordenação do Movimento
dos Atingidos por Barragens (MAB), apenas as pessoas que possuem
bens registrados em seus nomes são consideradas pelas construtoras
como atingidos por barragens, conceito que diverge completamente
do adotado pelo movimento social. Dados do MAB apontam que existem
hoje cerca de 1 milhão de pessoas desalojadas no Brasil em
consequência da construção de barragens, sendo
que 70% delas perderam absolutamente tudo e que mais de 34 mil km2
foram inundados para a formação de reservatórios.
Mecca, que foi atingido pela barragem de Itá (RS)
e hoje mora em Chupinzinho (PR), a 700 quilômetros do local
onde vivia anteriormente, afirma que as propriedades de Tucuruí
foram muito mal indenizadas. Segundo o pesquisador Reinaldo Correa
Costa, da Universidade de São Paulo (USP), mais do que terem
remunerações subestimadas algumas pessoas demoraram
10 anos para serem compensadas. Costa, que atualmente elabora um
estudo sobre a alteração da Volta Grande do Rio Xingu
a partir do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte, desenvolveu
sua tese de mestrado sobre os impactos causados pela Usina Hidrelétrica
de Tucuruí.
Qualidade de vida
A perda de qualidade de vida das pessoas remanejadas é
outra questão importante. “Pessoas que tinham um estilo de
vida, um trabalho fundamentalmente voltado à pesca, com a
mudança tiveram de aprender a lidar com a roça, a
construir uma nova relação com o mercado. Alguns não
se adaptaram longe de Tucuruí, por exemplo, e voltaram a
viver à beira do lago”, diz o pesquisador da USP.
“Somos contrários a esse projeto porque não
acreditamos que irá trazer benefícios e desenvolvimento
para a região. Belo Monte representa a perda de terras por
um grande contigente de famílias, aumento das invasões
de áreas e saída do povo do campo em busca da fantasia
dos empregos gerados pela barragem, com aumento da pobreza, inchamento
das cidades e desestruturação social, econômica
e ambiental de família rurais, indígenas e ribeirinhas”,
declara Antônia Melo, do MDTX.
Alterações no meio ambiente
“O impacto é generalizado, pois mexe na raiz
de todo o funcionamento do ciclo ecológico da região.
Entre a Volta Grande do Xingu e Belo Monte, o nível d'água
vai ficar bem abaixo da maior seca histórica e, rio acima,
ficará permanentemente cheio, num nível superior à
maior cheia conhecida. Assim, teremos, simultaneamente, trechos
do Xingu sob condições hidrológicas extremas
e diametralmente opostas, sendo que todo o regime ecológico
da região está condicionado às secas e às
cheias, explica o pesquisador Jansen Zuanon, do Instituto Nacional
de Pesquisas da Amazônia (Inpa) (clique nos mapas)..
Ele lembra que existem árvores, que estão adaptadas
a ficar alguns meses debaixo d'água.
Com a cheia permanente, as árvores irão resistir
alguns meses, mas depois vão morrer, com o afogamento das
raízes. “Essas árvores servem de dieta para muitos
peixes, por exemplo, o que gera impacto sobre a fauna e, consequentemente,
para todo o ciclo ecológico da área. Além disso,
muitos peixes sincronizam a desova com a cheia e, portanto, na parte
que vai ficar muito seca, é possível que haja diminuição
de diversas espécies. Esses impactos deverão provocar
uma busca por novas áreas de pesca comercial e ornamental,
que provavelmente se estenderão pelo trecho a montante da
cidade e poderão atingir o Médio/Alto Xingu e Iriri.”
Para Zuanon, além da influência para a alimentação
das populações, na parte baixa deve haver problema
de navegabilidade. “Outro ponto é que a vida do índio
e do caboclo está diretamente relacionada a esses ciclos
sazonais, quando você muda este ciclo altera o 'motor do sistema',
com reflexos imediatos e sérios para a população”,
analisa.
Os argumentos do pesquisador do Inpa são reforçados
por Glenn Switkes, da International Rivers Network (IRN): “A Eletronorte
diz que a Terra Indígena Paquiçamba não será
mais inundada e os estudos de viabilidade apontam que será
estabelecida uma 'vazão ecológica' no rio. Ainda não
podemos dizer, pois o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) não
foi finalizado, mas os estudos de viabilidade apontam para o seguinte
número: 220 m3/segundo, o que representa metade do mínimo
histórico do Xingu já medido no trecho do rio onde
será construída a usina. Vale ressaltar que essa quantidade
vai vigorar durante toda a época de seca enquanto a menor
margem histórica foi registrada durante alguns dias. A Eletronorte
argumenta ainda que poderá ser assegurada a função
ecossistêmica do rio com essa quantidade. Mas fica óbvio
que essa parte do rio vai quebrar em poços, em água
estagnada e, com isso, diversas comunidades indígenas, ribeirinhas
terão atividades de subsistência afetadas, como pesca,
e não terão como chegar a Altamira, entre outros problemas.
Há possibilidade também do Rio Bacajá ficar
mais baixo”.
Comunidades indígenas
Além
dos Juruna da Terra Indígena Paquiçamba, localizados
mais próximos à usina, a área de influência
de Belo Monte, segundo definição da Eletronorte, envolve
outros nove povos indígenas: os Assurini do Xingu, os Araweté,
os Parakanã, os Kararaô, os Xikrin do Bacajá,
os Arara, os Xipaia e os Kuruaia. A Coordenação das
Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira
(Coiab) inclui ainda vários povos Kaiapó na região
e mais de 1 mil índios que vivem em Altamira (clique no
mapa ao lado)
“O pessoal de Paquiçamba depende muito do regime
de águas de Volta Grande. A perspectiva de terem de buscar
alimento, atravessando canais, mostra que essa aldeia indígena
não está sendo considerada de forma adequada. Quando
a gente pensa que são 20 etnias ao longo de toda a bacia,
então é uma perspectiva altamente arriscada do ponto
de vista social. Principalmente, se a gente levar em conta que a
aprovação do projeto deveria ser submetida ao Congresso
Nacional, já que ele atinge diretamente uma comunidade indígena,
e o Congresso Nacional ainda não opinou de forma devida sobre
Belo Monte”, pontua Célio Bermann, professor do Programa
de Pós-Graduação em Energia da Universidade
de São Paulo. Para a pesquisadora Sônia Barbosa Magalhães,
a participação da população indígena
da área de abrangência de Belo Monte na condução
do empreendimento é um dos principais pontos a serem discutidos.
O artigo 231 da Constituição Federal, relacionado
aos direitos dos índios, determina que o aproveitamento de
recursos hídricos em Terras Indígenas, aí incluídos
os potenciais energéticos, só pode ser efetivado com
a autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades
afetadas. Também prevê que são nulos e extintos
todos os atos jurídicos que afetem essa posse, salvo relevante
interesse público da União, e que será necessária
uma lei ordinária que fixe as condições específicas
para exploração mineral e de recursos hídricos
nas Terras Indígenas.
A importância do artigo 231 da Constituição
Federal foi reconhecida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF), ministro Marco Aurélio Mello, que utilizou diversos
pontos do dispositivo para negar, no dia 4 de novembro de 2002,
o pedido da União para cassar a liminar que suspende o EIA.
Para André Lima, do Programa de Políticas
Públicas e Direito Socioambiental (PPDS) do ISA, considerando
a Lei da Política Nacional de Recursos Hídricos (9.433/97),
que exige o respeito do poder público aos usos múltiplos
da água, os povos indígenas da região deveriam
ser ouvidos e suas demandas consideradas desde a concepção
dos Estudos de Viabilidade de Belo Monte Monte, uma vez que o equilíbrio
ecológico do Rio Xingu é imprescindível para
a manutenção e uso de ambiente em que vivem e de seus
costumes. Segundo ele, como o estudo de viabilidade já foi
finalizado, os índios devem ser consultados no processo de
avaliação do Estudo de Impacto Ambiental.
José Muniz Lopes, presidente da Eletronorte no governo
FHC, admitiu em entrevista ao ISA, em meados de 2002, que os índios
que moram a jusante (abaixo) do barramento principal serão
afetados, uma vez que o volume de água diminuirá no
período de chuva, mas acredita que os impactos podem ser
solucionados facilmente por meio da construção de
uma nova aldeia, vizinha aos canais ou ao reservatório principal,
a exemplo do que fizeram com os Waimiri-Atroari,
atingidos pela construção da Usina Hidrelétrica
de Balbina. “Nós temos dezenas de formas de mitigar, compensar
e melhorar a qualidade de vida deles.”
O passado que condena
Construída no Rio Uatumã (AM) e inaugurada
parcialmente em 1988, a Usina de Balbina é considerada um
dos piores investimentos do país do ponto de vista econômico,
ambiental e social. Inundou uma área de 2,3 mil km2 para
uma potência instalada de apenas 250 MW. Entre o imenso passivo
socioambiental de Balbina está a inundação
de 30 mil hectares da Terra Indígena (TI) Waimiri-Atroari,
o que obrigou o remanejamento de duas aldeias. Para compensá-los,
a Eletronorte financiou a demarcação da TI Waimiri-Atroari,
de 2,5 milhões de hectares, e o Programa Waimiri-Atroari,
que envolve ações nas áreas de saúde,
educação, meio ambiente, apoio à produção,
vigilância dos limites, administração e documentação
e memória durante 25 anos. “Eu não defenderia uma
nova Balbina. Mas aconselharia os que têm dúvida a
ir lá, conhecer os Waimiri-Atroari. Uma nação
em extinção, que tinha 374 índios doentes,
com uma taxa anual de decréscimo superior a 20%, e hoje uma
nação com mil indivíduos sem nenhum índio
doente. Um projeto que chefes de Estado do mundo todo vem conhecer,
e os brasileiros não conhecem. Imagine Manaus sem Balbina”,
dizia o então presidente da Eletronorte. Ele é também
um defensor da Usina Hidrelétrica de Tucuruí - a segunda
maior usina hidrelétrica do país situada no Rio Tocantins
(PA) - como uma experiência que dá orgulho ao brasileiro.
Não a todos.
“Em Tucuruí, que é nossa referência,
houve aumento de prostituição e violência. Movimentos
que acompanham a construção da hidrelétrica.
Além disso, não existe uma coisa certa sobre os impactos
das grandes hidrelétricas na Amazônia, uma área
tropical com uma quantidade considerável de biomassa - conjunto
de matéria orgânica depositadas em um determinado lugar.
Isso pode causar alterações, por exemplo, no ciclo
do carbono - envolve a fixação de dióxido de
carbono inorgânico pela fotossíntese, formando compostos
orgânicos complexos até o retorno final à atmosfera
por respiração e decomposição -”, descreve
Reinaldo Correa Costa. Por outro lado, ele ressalta que existem
estudos que apontam a absorção do carbono pelas plantas.
“Em Tucuruí, a floresta foi colocada debaixo da água
e esse material entrou em decomposição, gerando uma
super oferta de alimentos para insetos, o que acabou expulsando
as populações da beira do rio.” A falta de peixes
é outro problema descrito por Costa. Segundo ele, um grupo
que costumava remar três horas para pescar, após a
obra estava remando de seis a dez horas para encontrar peixes. De
acordo com Glenn Switkes, da IRN, já existem estudos feitos
em Tucuruí, onde a cobertura vegetal não foi retirada
para a construção da usina, e em uma outra barragem
da Guiana Francesa, que comprovam a enorme liberação
de gás carbônico na atmosfera por reservatórios
e barragens em rios tropicais.
A falta de infra-estrutura para atender à demanda
do elevado número de pessoas que se deslocou para a região
em busca de emprego é um ponto da experiência vivida
em Tucuruí, que pode se repetir em Belo Monte. A hipótese
é levantada por Guilherme Carvalho, técnico do Núcleo
Cidadania da ONG Fase Pará e coordenador do Fórum
da Amazônia Oriental.
O mito da geração de emprego
A Eletronorte estima que a usina deverá gerar 100
mil empregos, 25 mil diretos, e 75 mil indiretos, num período
de cinco a dez anos. O MDTX contesta os dados. “Sabemos que a obra
vai ocupar, no máximo, cinco mil pessoas. Só em Altamira
já existem mais de 20 mil pessoas desempregadas. Onde essas
pessoas vão se instalar? Nas cidades e nas zonas rurais,
quem vai deixar suas propriedades para dar lugar aos que chegam?
Vai imperar a violência, a insegurança e a miséria,
porque nenhuma proposta da Eletronorte garante controle dessa situação.”
Segundo Costa, em decorrência da expectativa de empregos
a serem gerados pelo projeto, já está ocorrendo um
inchaço urbano em Altamira. “Há pessoas indo para
lá em busca de um trabalho na construção da
hidrelétrica. Existe na cidade uma estimativa de que entre
18 mil e 20 mil pessoas sejam empregadas diretamente no projeto,
além daquelas envolvidas indiretamente. Não devemos
nos esquecer, porém, que a mão-de-obra utilizada recentementa
na segunda fase da Usina Hidrelétrica de Tucuruí,
já treinada, deve ir para o município.”
O incremento do comércio local é outra expectativa
gerada pelo projeto. “Os comerciantes estão felizes com a
obra. Um deles me falou que a hora de enricar será agora.
Os estabelecimentos de Altamira, entretanto, não têm
condições, no momento, de suprir as demandas de construção
de uma hidrelétrica”, conta Costa. O MDTX também não
confia no lucro estimado para o comércio local e projeta
um panorama desanimador: “O que vai ocorrer é um aumento
da concorrência com o comércio de fora, com as grandes
redes de distribuição, que conseguem colocar produtos
mais baratos na região. Os principais serviços serão
contratados com empresas que sabem como lidar com este tipo de empreendimento.
Muitos comerciantes e negociantes da região serão
obrigados a mudar de ramo e outros, infelizmente, vão falir”.
Outro ponto questionado é o lixo a ser gerado pela
obra. “Para a construção dos canais serão escavados
144 milhões 622 mil m3 de terra e 51 milhões e 955
mil m3 de rochas. Essa terra e essas pedras ainda não têm
destino”, diz Antônia Melo, do MDTX. De acordo com o presidente
da Eletronorte, o volume é, efetivamente, grande, mas já
existe um estudo de realocação do material, como,
por exemplo, ser utilizado para a criação de algumas
praças, cujo resultado está disponível no estudo
de viabilidade.
Especulações precipitadas
As alterações previstas pelo projeto têm provocado
modificações no cenário socioeconômico
da região. De acordo com Costa, alguns camponeses não
estão trabalhando com o mesmo empenho na roça porque
não sabem se vão ter de sair em breve e estão
indo buscar terras em Anapu que, por essa razão, vem sofrendo
especulação imobiliária. Já o prefeito
de Pacajá, Pedro Theodoro de Rezende, destaca o estalelecimento
de novos hotéis e negócios relacionados à agroindústria
no entorno da usina ansiosamente aguardada por ele.
TOPO
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