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Um conjunto complexo de impactos socioambientais
Inundação constante, hoje sazonal,
dos igarapés Altamira e Ambé, que cortam a cidade
de Altamira, e parte da área rural de Vitória do Xingu.
Redução da vazão da água a jusante do
barramento do rio na Volta Grande do Xingu e interrupção
do transporte fluvial até o Rio Bacajá, único
acesso para comunidades ribeirinhas e indígenas. Remanejamento
de cerca de famílias que vivem hoje em condições
precárias na periferia de Altamira, na
área rural de Vitória do Xingu e de 350 famílias
ribeirinhas que vivem em reservas extrativistas. Alteração do regime do rio sobre os meios
biótico e socioeconômico, com redução
do fluxo da água. Estes são alguns dos impactos socioambientais
listados.
Para Sônia Barbosa Magalhães,
professora da Universidade Federal do Pará, entrevistada pelo ISA em meados de 2002 quando era do Museu Goeldi, além da alteração de vazão
de rio, com mudança de regime de inundação
e consequências para a agricultura, afluxo populacional e
desestruturação fundiária, o 'boom' das grandes
hidrelétricas no país e o conceito de impactos diretos
e indiretos em disputa nessas obras são fatores muito preocupantes.
“Tradicionalmente, as subsidiárias da Eletrobras chamam de
efeito direto o que seria alagado e de efeito indireto as áreas
não alagadas, quando deveriam adotar critérios mais
abrangentes.” Sônia integra o
painel de especialistas que, em outubro de 2009, apresentou estudos críticos sobre o EIA/Rima de Belo Monte.
Alterações no meio ambiente
“O impacto é generalizado, pois mexe na raiz
de todo o funcionamento do ciclo ecológico da região.
Entre a Volta Grande do Xingu e Belo Monte, o nível d'água
vai ficar bem abaixo da maior seca histórica e, rio acima,
ficará permanentemente cheio, num nível superior à
maior cheia conhecida. Assim, teremos, simultaneamente, trechos
do Xingu sob condições hidrológicas extremas
e diametralmente opostas, sendo que todo o regime ecológico
da região está condicionado às secas e às
cheias, explicava em entrevista ao ISA, em 2002, o pesquisador Jansen Zuanon, do Instituto Nacional
de Pesquisas da Amazônia (Inpa) (clique nos mapas)..
Ele lembra que existem árvores, que estão adaptadas
a ficar alguns meses debaixo d'água.
Com a cheia permanente, as árvores irão resistir
alguns meses, mas depois vão morrer, com o afogamento das
raízes. “Essas árvores servem de dieta para muitos
peixes, por exemplo, o que gera impacto sobre a fauna e, consequentemente,
para todo o ciclo ecológico da área. Além disso,
muitos peixes sincronizam a desova com a cheia e, portanto, na parte
que vai ficar muito seca, é possível que haja diminuição
de diversas espécies. Esses impactos deverão provocar
uma busca por novas áreas de pesca comercial e ornamental,
que provavelmente se estenderão pelo trecho a montante da
cidade e poderão atingir o Médio/Alto Xingu e Iriri.”
Para Zuanon, além da influência para a alimentação
das populações, na parte baixa deve haver problema
de navegabilidade. “Outro ponto é que a vida do índio
e do caboclo está diretamente relacionada a esses ciclos
sazonais, quando você muda este ciclo altera o 'motor do sistema',
com reflexos imediatos e sérios para a população”,
analisa.
Comunidades indígenas
Além
dos Juruna da Terra Indígena Paquiçamba, localizados
mais próximos à usina, a área de influência
de Belo Monte, segundo definição da Eletronorte, envolve
outros nove povos indígenas: os Assurini do Xingu, os Araweté,
os Parakanã, os Kararaô, os Xikrin do Bacajá,
os Arara, os Xipaia e os Kuruaia. A Coordenação das
Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira
(Coiab) inclui ainda vários povos Kaiapó na região
e mais de 1 mil índios que vivem em Altamira (clique no
mapa ao lado)
“O pessoal de Paquiçamba depende muito do regime
de águas de Volta Grande. A perspectiva de terem de buscar
alimento, atravessando canais, mostra que essa aldeia indígena
não está sendo considerada de forma adequada. Quando
a gente pensa que são mais de 20 etnias ao longo de toda a bacia,
então é uma perspectiva altamente arriscada do ponto
de vista social. Principalmente, se a gente levar em conta que a
aprovação do projeto deveria ser submetida ao Congresso
Nacional, já que ele atinge diretamente uma comunidade indígena,
e o Congresso Nacional ainda não opinou de forma devida sobre
Belo Monte”, explicava, em entrevista ao ISA em 2002, Célio Bermann, professor do Programa
de Pós-Graduação em Energia da Universidade
de São Paulo.
O artigo 231 da Constituição Federal, relacionado
aos direitos dos índios, determina que o aproveitamento de
recursos hídricos em Terras Indígenas, aí incluídos
os potenciais energéticos, só pode ser efetivado com
a autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades
afetadas. Também prevê que são nulos e extintos
todos os atos jurídicos que afetem essa posse, salvo relevante
interesse público da União, e que será necessária
uma lei ordinária que fixe as condições específicas
para exploração mineral e de recursos hídricos
nas Terras Indígenas.
A importância do artigo 231 da Constituição
Federal foi reconhecida pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF), ministro Marco Aurélio Mello, que utilizou diversos
pontos do dispositivo para negar, no dia 4 de novembro de 2002,
o pedido da União para cassar a liminar que suspendia o EIA.
O passado que condena
Construída no Rio Uatumã (AM) e inaugurada
parcialmente em 1988, a Usina de Balbina é considerada um
dos piores investimentos do país do ponto de vista econômico,
ambiental e social. Inundou uma área de 2,3 mil km2 para
uma potência instalada de apenas 250 MW. Entre o imenso passivo
socioambiental de Balbina está a inundação
de 30 mil hectares da Terra Indígena (TI) Waimiri-Atroari,
o que obrigou o remanejamento de duas aldeias. Para compensá-los,
a Eletronorte financiou a demarcação da TI Waimiri-Atroari,
de 2,5 milhões de hectares, e o Programa Waimiri-Atroari,
que envolve ações nas áreas de saúde,
educação, meio ambiente, apoio à produção,
vigilância dos limites, administração e documentação
e memória durante 25 anos.
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