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Xingu Vivo

O Xingu é um rio interior amazônico, que nasce a oeste da Serra do Roncador e ao norte da Serra Azul, no leste do Mato Grosso. Corre na direção sul-norte, paralelo aos rios Tapajós e Tocantins, e após percorrer pouco mais de 2 mil quilômetros, desagua ao sul da Ilha de Gurupá (PA), na margem direita do Amazonas, do qual é um dos maiores afluentes.



Cachoeiras da Volta Grande do Rio Xingu
Segundo os estudos elaborados pela Eletronorte entre 1975 e 1980, a Bacia Hidrográfica do Xingu, que se estende por 450 mil km2, tem um potencial hidrelétrico de 22 mil megawatts, um dos maiores do país. A Volta Grande do Xingu, uma queda de 96 metros onde o rio quadruplica de largura e forma diversas cachoeiras e ilhas, concentra boa parte do potencial hidrelétrico do rio sendo por isso o local escolhido para a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

A Volta Grande do Xingu, local que chamamos a 'fall line' (linha de queda) sul-amazônica, nada mais é do que o ponto de encontro de um relevo cristalino, portanto, duro, com outro sedimentar, menos duro. Conforme a erosão do rio, o ponto mais rígido fica e o sedimentar cede. No passado, quando as cidades foram formadas, os viajantes, os jesuítas, vinham de barco e paravam nos pontos de cachoeira porque o barco não dava conta de passar. Assim nasceram cidades como Tucuruí e Altamira. Quando a Rodovia Transamazônica (BR-230) foi construída, obedeceu à 'fall line'”, explica Reinaldo Correa Costa, doutorando em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP). De acordo com um artigo dos antropólogos Eduardo Viveiros de Castro e Lúcia de Andrade, as perigosas cachoeiras do Xingu foram o grande obstáculo para a invasão européia na região, com a concentração de missões e vilas até o século XX no Baixo Xingu.

Atividades econômicas e atores locais

Altamira, Anapu, Brasil Novo, Gurupá, Medicilândia, Pacajá, Placas, Porto de Moz, Senador José Porfírio, Uruará e Vitória do Xingu foram os municípios definidos pela Eletronorte como a área de abrangência de Belo Monte, locais que contam com Floresta de Terra Firme e Floresta de Várzea. Cerca de 250 mil pessoas vivem na região, que tem como elemento integrador a Transamazônica e o Xingu em sua parte navegável e Altamira como maior centro urbano local, com cerca de 65 mil habitantes.

As cidades da 'fall line' estão interligadas pela Transamazônica, que fez parte de um programa geopolítico, que envolvia, entre outros, a construção de diversas hidrelétricas na Amazônia para a expansão de projetos de mineração e industrialização do país e a colonização da região", diz Costa. Porém, em função de um período de incerteza econômica e instabilidade da moeda estrangeira, Tucuruí só foi construída a duras penas. Os projetos de colonização do governo foram conduzidos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a partir da década de 70 e contaram, principalmente, com migrantes do Nordeste e do Sul do país, que se estabeleceram em pequenas e médias propriedades.

Segundo Sônia Magalhães, pesquisadora do Departamento de Ciências Humanas do Museu Goeldi (PA), existem dois tipos de povoamento na área de influência de Belo Monte: o mais antigo, representado por populações ribeirinhas típicas da Amazônia, de origem indígena ou não, com uma menor relação com o mercado; e o mais recente, que se inicia com a colonização do Estado, notadamente pessoas da Bahia e da Região Sul, pequenos e médios agropecuaristas. “O campesinato mais consolidado, hoje formado por pequenos e médios agricultores, vem obtendo conquistas importantes relacionadas a políticas de crédito e ações de infra-estrutura.” Uma das principais organizações locais de trabalhadores rurais, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri) do Pará - filiada à Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) - obteve há pouco tempo, por exemplo, a abertura de uma linha de crédito específica para a agricultura familiar, com recursos do Fundo Constitucional do Norte. Segundo dirigentes da Fetagri, esta linha de crédito possibilitou a permanência de mais de 700 famílias na região.

Cacau, café, maracujá, pimenta, castanha, arroz e feijão estão entre os principais produtos agrícolas locais. Existem também algumas fazendas de gado e, por outro lado, diversas populações ribeirinhas e comunidades indígenas que se sustentam, basicamente, da pesca”, afirma Reinaldo Correa Costa.

Geoprocessamento/ ISAJuruna, Assurini do Xingu, Araweté, Parakanã, Kararaô, Xikrin do Bacajá, Arara, Xipaia, Kuruaia são os noves povos indígenas que habitam a área de inserção de Belo Monte, segundo definição da Eletronorte. Somam 1.397 pessoas, que vivem em dez Terras Indígenas, num total de 5,3 milhões de hectares. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) acrescenta a esta lista vários povos Kaiapó e cerca de 1.130 índios que habitam a zona urbana de Altamira (clique no mapa ao lado).

Além da agropecuária e da pesca, a extração de madeira também é uma fonte de renda local, complementa Maria do Socorro Simões, coordenadora do projeto Imaginário nas Formas Narrativas Orais Populares da Amazônia (IFNOIP), da Universidade Federal do Pará (UFPA).

A extração predatória de madeira ocorre principalmente nos municípios de Altamira, Senador José Porfírio, Brasil Novo, Uruará e Senador José Porfírio. De acordo com o Pólos Madeireiros do Pará, diagnóstico do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) sobre a atuação do setor madeireiro no Estado entre 1998 e 2001 divulgado no início de outubro, o Pará responde pela produção de 65% da madeira em tora do Brasil. O engenheiro florestal Adalberto Veríssimo, um dos responsáveis pelo estudo, explica que a atividade madeireira atualmente não é significativa na área de influência de Belo Monte. Apesar disso, o diagnóstico aponta que está havendo uma migração de madeireiras para o Oeste do Estado e, em menor proporção, para pólos madeireiros de Altamira e Uruará.

A pobreza e a riqueza da região

O poder público local e a Eletronorte definem a região como estagnada economicamente, com carência de infra-estrutura, desemprego e baixa escolaridade. “Na década de 70, houve um forte fluxo migratório para a região, baseado, principalmente, na agricultura e pecuária. Na década de 80, o dinamismo econômico continuou num ritmo similar, no entanto, com forte desmatamento e exploração irracional dos recursos florestais. Esses 20 anos de crescimento econômico e social, sob um modelo de ocupação não-planejada, deram lugar a um lento e angustiante processo de arrefecimento e crise, principalmente a partir da década de 90, havendo, até mesmo queda da taxa de crescimento anual da população de 7,9% para 1,7%”, descreve José Augusto Affonso, ex-secretário especial de Infra-Estrutura do Governo do Pará.

Pela expectativa do número de empregos que irá gerar, estimado em 25 mil diretos e 75 mil indiretos pela Eletronorte, e pelos recursos previstos para a execução do Plano de Inserção Regional e do Plano de Desenvolvimento Sustentável, Belo Monte é visto como um empreendimento imprescindível para o desenvolvimento local.

Já Antônia Melo, do Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e Xingu (MDTX), que reúne cerca de 115 organizações locais contrárias ao projeto, defende um novo modelo de desenvolvimento regional. “Ainda temos 75% de nossas florestas, que, com incentivos para serem utilizadas corretamente, podem tornar essa uma das áreas mais importantes do país. Com a eletrificação rural e o financiamento para produtores rurais, pequenas e médias empresas, a economia crescerá, diversificando os negócios. Sem propostas, ficamos à mercê de quem planeja por nós, como explorar nossas riquezas. Está na hora de discutirmos outras saídas econômicas, a partir da modernização dos serviços, da produção agropecuária e do uso inteligente das florestas e dos rios.” E pergunta: “Por que sacrificar o Xingu com o uso hidrelétrico se sua bacia representa um dos mais importantes capitais ecológicos do país em seu estado natural, podendo converter outras opções em investimentos, como o turismo verde, a pesca, o lazer, entre outros tantos? Não parece insensato que os países do G-7 invistam cerca de US$ 300 milhões para minimizar o desmatamento da Amazônia, enquanto seus mesmos bancos públicos financiam bilhões em obras que comprometem ecossistemas gigantescos para um extração ilegal de mogno, entre outros, dentro de áreas indígenas?”


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