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 A b e r t u r a O que dizem os pesquisadores 

Reinaldo Correa Costa, doutorando em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP)
(
entrevista concedida entre setembro e novembro de 2002)

Belo Monte: contra ou a favor? "Não sou contra as usinas hidrelétricas. Sou contra a forma como são construídas. Se for necessário, devemos construir hidrelétricas, mas dentro de bases democráticas e com estudos de viabilidade transparentes e com um estudo seríssimo de previsão de impactos. Elas têm sido construídas de forma não-democráticas ao agir em outras territorialidades, principalmente, de índios, camponeses. Essas pessoas têm suas áreas trabalhadas a duras penas por vários anos e um enclave pode colocá-las em uma situação de incerteza em outro local. Eu estive lá e presenciei isto, esta falta de informação a respeito de seu próprio futuro. Porque a casa do índio, por exemplo, não é só o espaço da construção da casa. Com o camponês é a mesma coisa; o lote dele é a expressão dele. Um bom exemplo dessa forma não-democrática é que estive em um campus da Universidade Federal do Pará (UFPA) em Altamira e os professores não tinham informações sobre o projeto. A universidade é local primordial do debate das idéias contrárias e, para debatêlas, você tem de conhecer, concorde ou não, você tem de conhecer."

Alterações no Rio Xingu com a obra "Só o fato de o rio ter sua sazonalidade modificada, já é uma alteração significativa, porque os peixes, por exemplo, são regulados por este movimento. Há também a possibilidade de haver uma elevação na incidência de um inseto, chamado carapanã da pedra. A periferia de Altamira vai ser alterada, vai ser alagada."

Impactos socioambientais para a região "Existe em Altamira uma estimativa de que entre 18 mil e 20 mil pessoas sejam empregadas diretamente no projeto, além daquelas envolvidas indiretamente. E está constatado que já está havendo um inchaço urbano no município, pessoas indo para lá em busca de um trabalho na construção da hidrelétrica. Não devemos nos esquecer, porém, que a mão-de-obra utilizada recentementa na segunda fase da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, já treinada, deve ir para o município. Então, muitos dos que chegarem lá atrás de emprego vão ficar à margem. Os comerciantes locais estão felizes com a obra; um deles me falou: 'A hora de enricar vai ser agora'. O comércio de Altamira, entretanto, não tem condições no momento de suprir as demandas de construção de uma hidrelétrica. E, se a situação atual não for alterada, as empreiteiras vão contratar seus próprios fornecedores. Além disso, em Tucuruí, que é nossa referência, houve aumento de prostituição, violência. Esses são movimentos que acompanham a construção da hidrelétrica.

Além disso, não existe um diagnóstico certo sobre os impactos das grandes hidrelétricas na Amazônia, uma área tropical com uma quantidade considerável de biomassa. Isso pode causar alterações, por exemplo, no ciclo do carbono. Se você tem uma área muito grande de floresta debaixo da água, esse material vai entrar em decomposição. Vai emitir mais carbono para a atmosfera? Vai. Mas também existem estudos que dizem que vai haver uma absorção do carbono pelas plantas. Em Tucuruí, que sempre será referência porque é o exemplo que se tem, a floresta foi colocada debaixo da água. Esse material entrou em decomposição, o que gerou uma super oferta de alimentos para insetos, que acabaram expulsando as populações da beira do rio. Agora, em Tucuruí, está havendo problemas com falta de peixes. Um grupo que costumava remar três horas até o local onde pescava, depois da obra estava remando de seis a dez horas para encontrar peixes. Outro ponto do exemplo de Tucuruí é que algumas pessoas demoraram 10 anos para receber indenização das áreas alagadas. Pessoas que tinham um estilo de vida, um trabalho fundamentalmente voltado à pesca e com a mudança tiveram de aprender a lidar com a roça, a construir uma nova relação com o mercado. Alguns, inclusive, não se adaptaram viver longe de Tucuruí e voltaram para a beira do lago."

Opinião da população local sobre o projeto "Em Altamira, a maioria das pessoas com quem eu falei, em conversas informais, está a favor da construção da hidrelétrica, na expectativa de melhoria da qualidade de vida com a construção da barragem. Acreditam que com a obra vem estrada, vem desenvolvimento. Já a população ribeirinha está desinformada. É contrária à barragem, se for alterar seu modo de vida. Também estive com alguns camponeses que não estão mais trabalhando da mesma maneira na roça porque não sabem se vão ter que sair no ano que vem. Algumas pessoas tem essa preocupação: para onde vamos? E já estão indo buscar terras no município de Anapu. As terras do município de Anapu tinham um preço e agora houve uma modificação do preço, portanto, já está havendo especulação imobiliária."

Plano de Inserção Regional e Plano de Desenvolvimento Sustentável "Como posso discutir um plano de inserção regional de uma hidrelétrica em separado do Estudo de Impacto Ambiental? Não posso fazer um plano de inserção regional voltado, por exemplo, à pesca, se o meu estudo de previsão de impacto não vai me dar uma base, um fundamento, para eu entender que tipo de peixe eu vou poder pegar, em que época eu vou poder pegar, num ambiente alterado. E não leva em consideração a modificação na estrutura fundiária. As pessoas que sairão daqui vão para onde? E imagine mais 20 mil pessoas em Altamira, somando-se às 15 mil pessoas que se direcionaram para lá, mas não conseguem emprego. Se o saneamento é insuficiente para 65 mil habitantes imagine para esse excedente. Para onde vai todo o lixo desse pessoal? Outro ponto: o lixo da obra vai para onde? Isso tem que estar não só no Plano de Inserção Regional, porque esse pode ser uma forma de gerar emprego, mas também no EIA/RIMA. O material utilizado na obra vai sair da onde? Esses são elementos de uma construção. Isso causa impacto. Essas são perguntas que até agora estão ligadas ao plano de inserção, mas também ao plano de previsão de impactos."

Sônia Barbosa Magalhães, pesquisadora do Departamento de Ciências Humanas do Museu Goeldi e autora do livro Energia na Amazônia
(entrevista concedida entre setembro e novembro de 2002)

Impactos socioambientais para a região "Alteração de vazão de rio, com mudança de regime de inundação e consequências para a agricultura, afluxo populacional, desestruturação fundiária; coisas que acontecem em todos os lugares. O que eu não posso dizer é como isso vai se dar. Até porque, para mim, a área a ser inundada não está bem clara. Além disso, há uma questão bem importante relacionada aos povos indígenas da área de abrangência do projeto, que, de acordo com a legislação pertinente, deveriam opinar se concordam ou não com a obra. Há um fator que me preocupa muito que é o boom das grandes hidrelétricas no país e o conceito em disputa de impactos diretos e indiretos dessas obras. Tradicionalmente, as subsidiárias da Eletrobras chamam de efeito direito o que seria alagado e de efeito indireto as áreas não alagadas, quando esses efeitos deveriam adotar outros critérios."

Jansen Zuanon, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)
(entrevista concedida entre setembro e novembro de 2002)

Impactos socioambientais para a região "O impacto é generalizado, pois mexe na raiz de todo o funcionamento do ciclo ecológico da região. Entre a Volta Grande do Xingu e Belo Monte, o nível d'água vai ficar bem abaixo da maior seca histórica e, rio acima, ficará permanentemente cheio, num nível superior à maior cheia conhecida. Assim, teremos, simultaneamente, trechos do Xingu sob condições hidrológicas extremas e diametralmente opostas, sendo que todo o regime ecológico da região está condicionado às secas e às cheias. Existem árvores, por exemplo, que estão adaptadas a ficarem alguns meses debaixo d'água. Com a cheia permanente, as árvores irão resistir alguns meses, mas depois vão morrer, com o afogamento das raízes. Essas árvores servem de dieta para muitos peixes, por exemplo, o que gera impacto sobre a fauna e, consequentemente, para todo o ciclo ecológico da área. Além disso, muitos peixes sincronizam a desova com a cheia e, portanto, na parte que vai ficar muito seca, é possível que haja diminuição de diversas espécies. Esses impactos deverão provocar uma busca por novas áreas de pesca comercial e ornamental, que provavelmente se estenderão pelo trecho a montante da cidade e poderão atingir o Médio/Alto Xingu e Iriri. Além da influência para a alimentação das populações, na parte baixa deve haver problema de navegabilidade. Outro ponto é que a vida do índio e do cabloco está diretamente relacionada a esses ciclos sazonais, quando você muda este ciclo altera o 'motor do sistema', com reflexos imediatos e sérios para a população"

Opinião da população local sobre o projeto "Não tenho informações recentes. Até onde eu sei, as pessoas estariam divididas. Boa parte deve estar preocupada com a modifição no ambiente. Parte do comércio local vive hoje de peixes ornamentais, encontrados em corredeiras e cachoeiras baixas. Quando você transforma isso num ambiente de água parada, algumas espécies se adaptarão à nova situação, mas a maioria deve se extinguir. Portanto, quem vive do comércio desses peixes deve estar preocupado."


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