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| Massa de pequi nas mãos de
uma índia durante um Kwarup no Parque Indígena
do Xingu (MT). Algumas variedades de pequi resultam
de uma domesticação específica
do cultivo na região xinguana, não
sendo encontradas em outros locais. Importante fonte
alimentar para as comunidades do Xingu, o pequi
é também o alimento por excelência
no cerimonial funerário do Kwarup, grande
emblema da cultura do Alto Xingu e que envolve todas
as aldeias dessa área cultural. |
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O Fome
Zero, grande e arriscada aposta do governo Lula,
chegou a comunidades indígenas do Mato Grosso
do Sul (MS). No dia 14/04, foi formalizado com o governo
do Estado um convênio de um ano, de R$ 5 milhões,
para atender 11.000 famílias indígenas
das etnias Kaiowá-Guarani, Ofaié, Guató
, Kadiweu e Terena. Além da distribuição
de alimentos já realizada pelo poder público
estadual, estão previstas ações
na área de agricultura para auto-consumo, manejo
de solo, criação de pequenos animais e
incentivo à produção de artesanato.
A escolha do MS como piloto é decorrente de
estudos da Fundação Nacional da Saúde
(Funasa) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), que o apontam como o estado com os maiores índices
de mortalidade infantil e de desnutrição
entre comunidades indígenas. Esses dados estão
entre os que subsidiam o grupo de trabalho interministerial
do Ministério de Segurança Alimentar e
Combate à Fome (MESA), responsável pela
execução do Fome Zero, a elaborar propostas
de atendimento às comunidades indígenas
em situação de insegurança alimentar
do país.
O programa e a diversidade dos povos indígenas
As políticas públicas da União,
entretanto, são respostas baseadas em conceitos
gerais, indicadores e procedimentos padronizados. Ou
seja, normalmente têm pouca flexibilidade para
dar conta da diversidade de situações
que um país como o Brasil encerra. Os mediadores
regionais e locais desses recursos é que acabam
dando as feições finais diante dos "beneficiários",
muitas vezes anulando qualquer possibilidade de que
cumpram os objetivos desenhados originalmente pelos
planejadores. E quando se trata de encarar a diversidade
de povos indígenas e dos ambientes por eles ocupados
então, a situação fica bem mais
difícil, porque se está diante de uma
natureza diversa, pouco conhecida e que passa desapercebida
pelos sistemas de indicadores em uso no Brasil.
Fato é que há povos indígenas
passando fome. Mas quem está com fome de quê?
Sem um diagnóstico mais fino dessa diversidade,
não há como desenhar respostas eficazes
a longo prazo, vale dizer, criar condições
para que as sociedades indígenas particulares
possam atualizar suas formas de reprodução
física e cultural, isto é, para que possam
retomar sua autonomia.
A grande maioria dos casos de fome indígena
se situa justamente nas unidades da federação
onde esses povos foram confinados em microterritórios
nos quais não podem mais garantir seus sustentos
a partir de seus modos de produção. É
o caso exemplar dos Guarani no Mato Grosso do Sul, que
não aderiram a métodos intensivos e estão
cercados por fazendas que praticam agronegócios
(pecuária, cana e soja), nas quais trabalham
como bóias-frias. Como romper esse ciclo de forma
duradoura? Os sinais que os Guarani têm dado nas
últimas décadas permitem supor que eles
vivem uma certa "anorexia cultural" que não
pode ser curada apenas com cestas básicas e programas
"produtivos" bem intencionados. Há
que se equacionar em Guarani esse dilema.
Mas também há casos de fome e desnutrição
entre povos indígenas com terras extensas na
Amazônia. São casos em que, apesar da demarcação,
as terras foram invadidas e parte dos recursos naturais
foram depredados, de tal sorte que os seus habitantes
perderam a capacidade de controlar seus modos tradicionais
de produção. É o caso da tragédia
que se abateu sobre os Yanomami em Roraima na década
de 80, depois da enorme invasão garimpeira que
dizimou 20% da população, acometida por
doenças e fome. Estabeleceu-se um ciclo vicioso
de contaminação (das pessoas, das águas
e dos alimentos), que derrubou na rede os adultos de
quem todos dependem diariamente para comer o que é
retirado das roças e processado dos rios e igarapés
e da floresta.
Para rompê-lo foi necessária uma operação
de guerra, que incluiu a retirada de invasores, ações
sanitárias e de apoio alimentar, até que
os sobreviventes pudessem retomar, aos poucos, suas
práticas produtivas. Esse exemplo mostra que
há situações extremas, onde é
o caso de "se dar comida na boca", sem antes
consultar os "etno-nutricionistas", se é
que eles existem!
Exemplos felizes e infelizes
Quantos povos indígenas sofreram traumas semelhantes
no período imediato do pós-contato com
os brancos? Quase todos. Eram mais de mil, quando os
portugueses aqui chegaram em 1500. Somente no século
XX, cerca de 80 povos desapareceram do mapa no Brasil
e ainda há casos hoje em dia! Quantos teriam
sobrevivido se programas emergenciais competentes tivessem
sido colocados em prática? Vários povos
chegaram à beira da extinção no
último quartel do século passado e conseguiram
se recuperar de forma impressionante. Um dos casos mais
bem documentado é o dos Panará (MT), chamados
Krenhakarore ou "índios gigantes",
contatados, contaminados e transferidos (os que restaram)
na década de 70, para que a rodovia Cuiabá-Santarém
pudesse passar, finalmente conseguiram vários
apoios governamentais e não-governamentais e
retomaram parte de seu território tradicional,
seu modo de vida sustentável e sua alegria de
viver. Outra história bem-sucedida de recuperação
é a dos Waimiri-Atroari, que vivem entre Roraima
e Amazonas, quase extintos depois do contato no início
dos anos 1970 e que tiveram uma enorme recuperação
em geral, reanimados culturalmente com o apoio decidido
e prolongado do Programa Waimiri-Atroari.
Mas também há casos em que a ajuda de
programas governamentais para combater a fome "dos
índios" se transformam numa verdadeira comédia
de erros, como as aldeias do Alto Rio Negro (AM) incluídas
no programa de cesta básica do governo FHC, por
aplicação de indicadores socioeconômicos
genéricos. Os baniwa, um dos campeões
amazônicos do manejo da agrobiodiversidade da
mandioca brava, um belo dia receberam nas suas aldeias
pacotinhos de farinha branca fina vinda do sul do país
e fubá de milho, ambos carimbados pelo prefeito
de plantão e sem serventia. Os índios
pediram que as doações fossem suspensas,
em troca de um programa específico de implementos
agrícolas e de valorização da sua
agrobiodiversidade. Nas aldeias Desana do Alto Tiquié
(AM) ficaram vestígios de um projeto fracassado
de criação de animais silvestres do início
dos anos de 1990, simplesmente porque os doadores não
quiseram entender que os "beneficiários"
se recusavam a manter relações íntimas
e cotidianas com animais que, segundo suas tradições,
pertenciam a outros gêneros de relacionamento
com os humanos .
Enfim, indicadores "indígenas" vindos
da Fundação Nacional de Saúde (Funasa),
em tese, são os melhores disponíveis dentro
do governo federal no momento, por conta da implantação
dos chamados Distritos Sanitários Especiais Indígenas
em 1999. Mas, ainda que somados às informações
censitárias do IBGE, não são suficientes
para se definir programas adaptados às particularidades
étnicas e socioeconômicas do mosaico de
sociedades indígenas do Brasil contemporâneo.
Somente programas étnico/regionais desenhados
com os próprios povos indígenas específicos
e com as pessoas e instituições que os
têm acompanhado de perto poderão escapar
das comédias de erros - que podem virar tragédias
- e dos fisiologismos das autoridades locais. Seria
uma forma de reconhecer que os povos indígenas
são detentores da maior diversidade de recursos
fitogenéticos do país, superando a esquizofrenia
estrutural e reconceituando as políticas públicas
afins, o que não parece garantido ao final do
ciclo de oficinas que será realizado em 2003,
para embasar uma proposta interministerial de Política
Nacional de Segurança Alimentar no Contexto do
Etnodesenvolvimento dos Povos Indígenas. |