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| Manifestação de povos
indígenas diante do Congresso Nacional, em
junho de 1988, durante a Constituinte |
O governo Lula confirma a regra e bate cabeça
no tratamento da questão indígena nos
seus primeiros cem dias de mandato. O vínculo
supostamente maior do Partido dos Trabalhadores (PT)
com o movimento indígena e com grupos de apoio,
assim como o seu mais elaborado e politicamente correto
programa para a campanha eleitoral do ano passado, não
foram suficientes para evitar hesitações
e encaminhamentos equivocados quanto a demarcação
das Terras Indígenas (TIs).
Desde o início do processo de democratização
do Brasil, os governos recém-empossados têm
sido omissos quanto à política indigenista.
José Sarney, nos seus primeiros meses de governo,
recebeu pedidos de parlamentares do PMDB - que o havia
elegido no Colégio Eleitoral - para demarcar
a TI Yanomami, mas, a partir de junho de 1985, sucumbiu
a pressões dos seus ministros militares e aprovou
a implementação do Projeto Calha Norte,
que subordinou a sua política indigenista aos
ditames do então Conselho de Segurança
Nacional.
Pouco depois, em 1987, instalava-se a Assembléia
Nacional Constituinte, daí resultando a Constituição
de 1988, que estabeleceu novos marcos para as relações
entre o Estado, a sociedade brasileira e os povos indígenas.
Entre outras inovações, reconhece o direito
originário - anterior à formação
do próprio Estado - dos índios às
terras que tradicionalmente ocupam.
Apesar das conquistas constitucionais, que foram muito
além dos direitos territoriais, os governos que
se sucederam continuaram omissos. Fernando Collor patinou
durante um ano, com Bernardo Cabral no Ministério
da Justiça, e só em 1991, já o
tendo substituído por Jarbas Passarinho, editou
cinco decretos, definindo o procedimento administrativo
para a demarcação das Terras Indígenas
(TIs), estabelecendo competências de vários
ministérios em relação às
demandas indígenas e promovendo a demarcação
da TI Yanomami já no rumo da Rio-92. Itamar Franco
foi exíguo nas demarcações e nem
chegou a definir uma política clara.
Já Fernando Henrique Cardoso enfrentou durante
o seu primeiro ano de mandato uma forte polêmica,
suscitada por Nelson Jobim, seu Ministro da Justiça,
quanto à alteração do procedimento
demarcatório, até a edição
do Decreto 1775, que prevê a manifestação
de terceiros interessados nos processos de demarcação.
Durante seus dois mandatos, foram homologadas 145 TIs,
somando mais de 41 milhões de hectares. No entanto,
esse processo foi estranhamente interrompido nos últimos
14 meses. FHC deixou na gaveta para o próximo
presidente 23 TIs demarcadas, prontas para serem homologadas.
O programa de governo do PT propunha a agilização
das demarcações, a criação
de um Conselho de Política Indigenista e a participação
das organizações indígenas e de
apoio aos índios nas decisões de governo.
Em fevereiro, o partido reivindicou a nomeação
do presidente da Fundação Nacional do
Índio, Eduardo Almeida, indicado por sua Secretaria
dos Movimentos Populares.
Por sua vez, o ministro da Justiça, Márcio
Thomaz Bastos, aceitou a indicação de
um quadro do Conselho Indigenista Missionário
(Cimi), Cláudio Beirão, para ocupar uma
assessoria especializada na questão indígena.
Na Fundação Nacional da Saúde (Funasa),
responsável pela atenção à
saúde indígena, Ubiratan Pedrosa Moreira,
que havia liderado a atuação do Ministério
da Saúde nesta área desde 1999, foi confirmado
no cargo.
No entanto, já em fevereiro, a Casa Civil e
o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência
da República encaminharam vários processos
de homologação de demarcações
de TIs que apenas aguardavam a assinatura do presidente
para a análise do Conselho de Defesa Nacional
(CDN), órgão de consulta da Presidência
da República para assuntos relacionados a soberania
nacional e defesa do estado democrático.
Este procedimento, de caráter protelatório
e não previsto no Decreto 1775, gerou apreensão
e frustração entre os índios e
seus apoiadores. De 23 processos de homologação
recebidos pelo atual governo, Lula assinou oito, outros
sete foram enviados ao CDN e não há indicações
sobre a situação dos demais. Não
se sabe o que o governo fará com os processos
pendentes, mas ainda há expectativa de que o
presidente venha a assiná-los durante a Semana
do Índio.
Diante deste procedimento, parlamentares se sentiram
estimulados a desenterrar Propostas de Emenda Constitucional
(PECs) voltadas a atrelar as demarcações
de TIs à apreciação do Legislativo,
o que representaria um enorme retrocesso em relação
às conquistas da Constituição de
1988.
Além disso, há a suspeita de que para
a filiação ao PT do governador de Roraima,
Flamarion Portela, teria sido exigido do governo federal
a não-homologação - ou a redução
- da TI Raposa/ Serra do Sol, que concentra a maior
população indígena entre as que
ainda não tiveram a sua demarcação
concluída. Com esta filiação, o
PT amplia a base de sustentação do governo
no Congresso, com vistas à aprovação
das reformas constitucionais pretendidas.
Questionado pela imprensa sobre a troca da filiação
pela homologação, o Ministro Chefe da
Casa Civil, José Dirceu, respondeu, suscintamente,
que não procede, mas até agora
esta homologação não foi decretada.
O programa do PT, que previa a agilização
das demarcações e a imediata
homologação da TI Raposa/ Serra do Sol,
não parece ter sido internalizado pelo comando
do partido e do governo.
Também são muitas as queixas da Funai
quanto ao apoio por parte das instâncias superiores
de governo. Há falta de recursos, demora nas
nomeações para os cargos de confiança
na estrutura do órgão e, mesmo, nas providências
que independem de orçamento, como é o
caso das homologações pendentes. Não
se percebe uma atuação consistente do
Ministério da Justiça diante da polêmica
suscitada quanto às homologações
e a sua assessoria especializada não parece estar
sendo prestigiada. Também não houve esclarecimento
e punição dos casos recentes de assassinatos
de índios.
Além das homologações, há
a expectativa de que o governo Lula aproveite esta Semana
do Índio para anunciar diretrizes para a sua
política indigenista. Uma das medidas esperadas
é a instituição de uma Comissão
de Política Indigenista, uma versão mais
precária do proposto Conselho de Política
Indigenista, para articular a atuação
dos órgãos com competências frente
às demandas setoriais indígenas. Se a
ocasião não ensejar as providências
esperadas, o governo enfrentará a crescente decepção
deste campo político. |