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| Araweté visitam a picada
de demarcação de suas terras, no sudeste
do Pará |
Ao contrário das duas gestões
anteriores, o governo Lula não tardou muito a
assinar decretos de homologação de Terras
Indígenas (TIs) ( veja quadro das áreas
prontas para serem homologadas). Após 40
dias à frente da presidência, em 10/02,
homologou
oito TIs. Antecessores
do presidente petista demoraram um ano para dar este
passo. A "canetada", na verdade, poderia
ter sido dada por FHC, caso seu governo, que reconheceu
mais de 40 milhões de hectares aos índios
ao longo de oito anos, tivesse mantido até o
final o compromisso com os direitos territoriais indígenas.
Mas, a exemplo de Fernando Collor, que editou o Decreto
22, e de FHC, que assinou o Decreto 1775, o governo
Lula parece também objetivar a modificação
da sistemática de reconhecimento de TIs. O modo
como essa mudança tem sido encaminhada, entretanto,
é preocupante.
Desvio de rota das demarcações das TIs
Seja por decisão própria, por mero descuido
continuista ou cedendo a pressões outras, o fato
é que o núcleo de poder do novo governo
herdou um procedimento bastante questionável,
iniciado no apagar de luzes da era FHC.
Desde o final do governo passado, o Gabinete de Segurança
Institucional da Presidência da República
e a Casa Civil vêm adotando um procedimento que
se deve qualificar, no mínimo, como estranho:
submeter
os processos de homologação à análise
prévia do Conselho de Defesa Nacional (CDN)
órgão de consulta da Presidência
da República para assuntos relacionados a soberania
nacional e defesa do estado democrático.
A medida suscita a possibilidade de serem questionados
limites de áreas já demarcadas após
o período previsto para contestações
pelo atual processo demarcatório de TIs, estabelecido
em 1996 pelo Decreto 1775 (veja mais informações
no quadro abaixo).
Portanto a consulta extemporânea ao Conselho
de Defesa Nacional representa não apenas uma
ameaça de confusão administrativa e o
esvaziamento da competência legalmente atribuída
ao Ministério da Justiça, mas também
o desperdício de recursos públicos investidos
nos trabalhos de demarcação física
das TIs.
E a consulta chega ao Senado
Esse desvio de rota chegou ao Senado Federal. Como
membro do CDN, o presidente do Senado, José Sarney
(PMDB/AP), solicitou à Comissão de Constituição,
Justiça e Cidadania do Senado Federal um parecer
sobre a homologação de sete TIs.
Aprovado
no dia 02/04, o documento sugere a homologação
imediata das TIs Badjonkôre (PA), Cuiu-Cuiu (AM),
mas a suspensão das TIs Jacamim (RR), Wai-Wai
(RR), Moscow (RR), Muriru (RR) e Boqueirão (RR),
alegando que poderiam exacerbar conflitos acirrados
com a possibilidade da homologação da
Raposa/Serra do Sol e São Marcos. Vale ressaltar,
entretanto, que a TI São Marcos foi homologada
em 1991. Já a TI Raposa/Serra do Sol, uma área
de 1,6 milhão de hectares no nordeste de Roraima,
é reivindicada pelos povos Macuxi, Wapichana,
Ingarikó, Taurepang e Patamona há cerca
de 30 anos. Os casos de violência gerados pela
invasão à terra por não-índios
e o descaso das autoridades locais foram recentemente
relatados à Comissão
Interamericana de Direitos Humanos da Organização
dos Estados Americanos (OEA).
O quadro de confusão administrativa ou
de deliberado confronto aos direitos indígenas
por setores com influência no interior do atual
governo fica ainda mais claro quando o próprio
presidente da Funai solicita esclarecimentos ao seu
superior em relação ao parecer do Senado,
conforme ofício encaminhado por Eduardo Almeida
ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz
Bastos, no dia 03/04.
E o Congresso Nacional se anima
Não parece mera coincidência que, contrariando
direitos
indígenas conquistados na Constituição
de 1988, Propostas de Emenda Constitucional (PECs)
para a submissão de demarcações
de TIs ao Legislativo voltem a tramitar no Congresso
Nacional. A PEC
38/99, de Mozarildo Cavalcanti (PPS/RR), que limita
em 50% a área de cada Estado passível
de ser transformada em TIs e UCs, seria votada em primeiro
turno no Senado no dia 26/03, mas foi retirada da pauta
pelo próprio parlamentar. Está prevista
para voltar ao plenário no dia 07/05.
Além disso, a PEC
579/2002, do deputado federal Ricarte de Freitas
(PSDB/MT), que submete a demarcação de
terras indígenas à aprovação
do Congresso Nacional, foi desarquivada no dia 27/03
e enviada à Comissão de Constituição
e Justiça e de Redação (CCRJ) da
Câmara dos Deputados no dia 14/04. Também
estão apensadas à proposta as PEC 153/1995,
de Oswaldo Biolchi (PTB/RS), e a 215/2000, de Almir
Sá (PPB/RR), que incluem ainda como competências
exclusivas do Congresso Nacional a ratificação
das demarcações de áreas já
homologadas.
Aliando a isso a suspeita de que a filiação
do governador de Roraima, Flamarion Portela, estaria
condicionada à não-homologação
da TI Raposa / Serra do Sol, o preocupante movimento
do Legislativo se delineia cada vez mais claramente
como uma estratégia de políticos locais
contra a homologação de Terras Indígenas
no Estado, com prejuízos aos direitos territoriais
de todos os povos indígenas do país, especialmente
dos que vivem na Amazônia.
E a sociedade civil protesta
Diversas instituições têm manifestado
suas preocupações em relação
ao assunto, como o ISA,
o Conselho
Indígena de Roraima e o Conselho
Indigenista Missionário (Cimi). Coordenação
das Organizações Indígenas da Amazônia
Brasileira (Coiab) e a Articulação dos
Povos e Organizações Indígenas
do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme)
realizarão entre 25 e 30/04, no Espaço
Cultural da Câmara dos Deputados, em Brasília
(DF), o Encontro dos Povos e Organizações
Indígenas no Brasil, quando debaterão
a falta de respostas efetivas do governo em relação
à demarcação de Terras Indígenas,
entre outros assuntos.
Balanço das demarcações até
abril de 2003
Além das homologações assinadas
logo no começo do ano e dos problemas acima mencionados,
um balanço dos primeiros meses do governo Lula
no que se refere às demarcações
de TIs demonstra que nenhuma portaria declarando terras
já identificadas pelo órgão indigenista
foi assinada pelo ministro da Justiça. Quanto
ao que compete à nova gestão da Funai,
foram aprovados os estudos de identificação
de três TIs:
| TI |
Povos |
UF |
Extensão (hectares) |
Data |
| Maraitá |
Ticuna |
AM |
54.000 |
18/03/2003 |
| Rio dos Índios |
Kaingang |
RS |
715 |
08/04/2003 |
| Xipaia |
Xipaia |
PA |
199.640 |
08/04/2003 |
A Funai também criou Grupos Técnicos para
identificar ou ampliar nove TI s . Outros três
GTs, relativos a terras distintas das anteriores, ainda
não concluíram suas atividades.
| TIs prontas para
serem homologadas |
Terra
indígena |
Extensão
(hectares) |
Povo |
| Apipica (AM) |
652 |
Mura |
| Badjonkore (PA) |
221,9 mil |
Kaiapó |
| Boqueirão (RR) |
16,3 mil |
Macuxi e Wapixana |
| Córrego João Pereira
(CE) |
3,1 mil |
Tremembé |
| Cuatá Laranjal (AM) |
1,1milhão |
Munduruku e Sateré-Mawé |
| Cuiu-Cuiu (AM) |
36,4 mil |
Miranha |
| Fortaleza do Castanho (AM) |
2,7 mil |
Mura |
| Itaitinga (AM) |
135 |
Mura |
| Jacamim (RR) |
193,3 mil |
Wapixana |
| Lago Jauari (AM) |
12 mil |
Mura |
| Mbiguaçu (SC) |
59 |
Guarani |
| Moskow (RR) |
14,2 mil |
Wapixana e Macuxi |
| Munduruku (PA) |
2,38 milhões |
Munduruku |
| Muriru (RR) |
5,5 mil |
Wapixana |
| Padre (AM) |
797 |
Mura |
| Pataua (AM) |
615 |
Mura |
| Paumari do Lago Manissuã
(AM) |
22,9 mil |
Paumari e Apurinã |
| Raposa Serra do Sol (RR) |
1,75 milhão |
Ingarikó, Wapixna
Macuxi, Taurepang e Patamona |
| Wai Wai (RR) |
406 mil |
Wai Wai |
| Xakriaba Rancharia (MG) |
6,7 mil |
Xakriabá |
| O que estabelece o Decreto
1775
O Decreto 1775, de 1996, substituiu o Decreto
22, de 1991, dando novo formato ao procedimento
administrativo de demarcação de
Terras Indígenas. Entre outas novidades,
prevê um período em que a proposta
de limites de uma TI a ser demarcada pode ser
objeto de contestação administrativa.
Esse período, criado para incorporar ao
processo administrativo os princípios constitucionais
do contraditório e da ampla defesa, antecede
a decisão política acerca dos limites,
o que se concretiza por meio de uma portaria do
ministro da Justiça.
Segue-se, então, a demarcação
física da terra segundo os limites definidos
na portaria, o que já envolve obras de
engenharia e de sinalização, com
maiores custos para o erário público.
Posteriomente, o Ministério da Justiça
encaminha o processo à homologação
presidencial por meio da assinatura de um decreto,
o que constitui o ato final da demarcação
administrativa de uma TI. |
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