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"Transversalidade"
na corda bamba
As eleições presidenciais do ano
passado proporcionaram um raro exemplo de engajamento da sociedade
civil organizada na disputa pelo poder, inclusive no campo
político socioambiental, mobilizando não apenas
pessoas, mas as próprias instituições.
Trabalhadores rurais, extrativistas, índios, quilombolas
e ONGs com atuação neste campo votaram maciçamente
em Lula, elegeram candidatos ao Congresso, subsidiaram a formulação
de programas específicos sobre a defesa do meio ambiente,
política indigenista e desenvolvimento sustentável
da Amazônia. Todos se sentiram, como nunca, subindo
a rampa do Palácio do Planalto com Lula, assim como
sentiram-se representados no governo pelos ministros que assumiram
as pastas do Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário,
Justiça, Cultura e outros também importantes
para a implementação das políticas socioambientais.
A expectativa geral é de que estas políticas,
afinal, saiam do gueto histórico em que, bem ou mal,
foram constituídas, para permear as decisões
estratégicas do governo e influir na construção
do projeto nacional - ou continental, se tivermos em perspectiva
a integração da América do Sul. Vale
lembrar que o próprio socioambientalismo é uma
invenção brasileira, sem paralelo no ambientalismo
internacional, que indica precisamente o rumo de integrar
políticas setoriais, suas perspectivas e atores, num
projeto de Brasil que tenha sua própria cara e possa,
por isso mesmo, ser politicamente sustentado. Pelo menos simbolicamente,
o socioambientalismo também chegou ao poder com gente
como a senadora e atual ministra Marina Silva, uma de suas
traduções concretas.
E, assim, conceitos complexos emergiram na cena política,
como a idéia de que as políticas socioambientais
devem ser transversais. Ou seja, devem perpassar o conjunto
das políticas públicas capazes de influenciar
o campo socioambiental. Estes conceitos pareciam também
combinar com a expectativa de que no governo Lula, supostamente
sustentado por uma posição partidária
e ideológica mais definida, se poderia promover uma
ação menos esquizofrênica das várias
agências oficiais com competências pertinentes
a este campo e a outros. Ademais, esperava-se que a conjuntura
recessiva que marca o início do mandato, em comparação
com a euforia inicial do governo FHC, embalado pelo Plano
Real, daria tempo para que tal perspectiva pudesse permear
o planejamento da retomada do crescimento econômico.
A eleição de Lula também trouxe impactos
imediatos na composição do Congresso Nacional,
com uma correlação de forças menos desfavorável
às questões socioambientais que a anterior,
assim como na própria composição do Supremo
Tribunal Federal (STF) e na direção do Ministério
Público Federal (MPF), sempre num sentido mais favorável.
Além disso, as alianças políticas construídas
para a sustentação do novo governo não
chegaram a comprometer, pelo menos neste campo, a montagem
da estrutura de governo, com a escolha e nomeação
de pessoas, em geral, historicamente comprometidas com as
lutas socioambientais.
No entanto, os primeiros embates concretos entre interesses
contraditórios igualmente representados no governo
já revelaram as primeiras dificuldades para se operar
a tão querida transversalidade, como a seqüência
de episódios envolvendo pendências do mandato
anterior, de plantações ilegais de transgênicos
a processos de homologação de terras indígenas
à espera de assinatura. A tudo isto se sobrepôs
o forte alerta contido nos dados divulgados pelo Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sobre o desmatamento
na Amazônia em 2001-2002, e os indícios de situações
de descontrole no campo, de avanço desordenado da fronteira
agrícola e escaladas predatórias promovidas
por governos locais, como no caso de Mato Grosso, que projetariam
índices igualmente altos para 2003, invadindo o mandato
de Lula e atribuindo maior atualidade ao caso.
Neste contexto, o Ministério do Meio Ambiente (MMA)
vem encontrando forte resistência de outros ministérios,
como Agricultura e Integração Nacional, para
viabilizar decisões e medidas de governo que sejam
capazes de enfrentar especificamente estas situações.
A pressão pela retomada do crescimento tem levado o
governo ao desespero, diante dos índices que revelam
o aumento do desemprego e a queda da renda dos trabalhadores,
além do pesado esforço fiscal que limita drasticamente
os investimentos e o cumprimento de metas sociais básicas.
Até foi forjada, oficialmente, a expressão “espetáculo
do crescimento”, uma apologia retórica que tem
dispensado qualquer qualificativo de “socialmente justo”,
ou “ambientalmente responsável” sendo que
o Brasil já conhece historicamente o passivo socioambiental
gerado por concepções de crescimento econômico
a qualquer preço.
Então, a preocupação que começa
a tomar conta deste campo político é a de que
o governo Lula se orientaria, segundo a concepção
do núcleo do poder, para uma concepção
desenvolvimentista ou economicista de tipo mais tradicional,
que até poderá incorporar a dimensão
social, ou da exclusão social, mas que tende a se descuidar
do ambiental e a desconfiar da consistência e da capacidade
dos atores deste campo de construir correlações
de força que lhes sejam favoráveis. Assim, os
resultados imediatos da produção de soja tendem
a continuar ofuscando os investimentos no desenvolvimento
de uma economia florestal para a Amazônia, por exemplo.
E é neste contexto que a proposta das políticas
transversais pode ficar na corda bamba (ou cair dela).
O material que compõe este balanço dos primeiros
duzentos dias das políticas socioambientais do governo
Lula inclui um conjunto de textos que aborda vários
temas correlatos, que certamente é insuficiente para
recobrir todas as questões pertinentes, mas que pretende
estimular aos leitores e militantes interessados neste campo
uma leitura mais abrangente sobre os rumos que estas políticas
estão tomando. É fundamental que os movimentos
sociais deste campo se compenetrem de que a sua atuação
desde fora do Estado é cada vez mais importante para
sustentar a chance de aproveitar esta excepcional oportunidade
histórica, abrindo maior espaço para a atuação
e o sucesso dos que nos representam no governo Lula.
Márcio Santilli, coordenador
do Programa Política e Direito Socioambiental do Instituto
Socioambiental (ISA)
Queimada na região de São José
do Xingu (MT), Julho de 2003 |
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