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| Assentamento Alcobrás, no Acre |
O novo governo havia desapropriado até junho cerca
de 240 mil hectares, em 18 Estados, para assentar cerca de 2,5
mil famílias, o que é pouco se comparado à
média de anos anteriores. A justificativa é de
que o primeiro semestre deste ano foi dedicado à reestruturação,
ao planejamento, ao encaminhamento de vistorias, ao recadastramento
das famílias acampadas e à formulação
de uma política agrícola para fomentar a produção
dos assentados e agricultores familiares.
Por outro lado, o governo federal já sinalizou com avanços
no plano da implementação de um novo
modelo de reforma agrária para a Amazônia Legal, que incorpore
a vertente ambiental. De acordo com dados
de junho de 2003 do Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária (Incra), foram implantados 1.609
assentamentos na Amazônia Legal entre 1995 e 2002, que correspondem
a uma área de 14.474.101 hectares. Ainda segundo informações
do órgão, os assentamentos localizados na região correspondiam
em 2001 a 78% do total do país.
Em maio, o Ministério do Desenvolvimento Agrário
(MDA) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA) firmaram um termo
de cooperação para a criação da comissão responsável por elaborar
a proposta de assentamento voltada à valorização da floresta
pelos agricultores familiares dos assentamentos da Amazônia,
também chamados de “Assentamentos Florestais”. A comissão
conta com representantes do MDA, do MMA, da Embrapa e de governos
estaduais da região.
A criação dessa comissão foi endossada no seminário Política
de Reforma Agrária para a Amazônia – Assentamento Florestal
e o Plano Plurianual (PPA) organizado pelo
Incra e pela Secretaria de Biodiversidade e Florestas do Ministério
de Meio Ambiente, em 3/7, que contou com a participação de
inúmeros outros órgãos de governo, de representantes de movimentos
sociais e de organizações da sociedade civil.
Para a concepção da nova proposta de reforma agrária para
a Amazônia - ou mesmo para outros biomas -, os participantes
do seminário recomendaram, entre outros itens, que sejam consideradas
as duas experiências piloto de assentamentos “sustentáveis”
- “Projeto de Assentamento Extrativista (PAE)” e “Projeto
de Desenvolvimento Sustentável (PDS)” - do governo anterior
que já estão sendo implementadas, assim como as Reservas Extrativistas
(Resex) e Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS). O
MDA pretende inserir as populações das Resex no Programa Nacional
de Reforma Agrária como beneficiárias de créditos especiais
para agricultura familiar.
Ainda em maio, foi realizado em Manaus (AM) o I Encontro
de Superintendentes do Incra da Amazônia Legal, que resultou
na assinatura pelos participantes da Carta
da Amazônia. O documento afirma que o novo modelo
de reforma agrária tem como objetivo beneficiar as populações
tradicionais e permitir manejos apropriados, que assegurem
o desenvolvimento com sustentabilidade.
O Ministério de Desenvolvimento Agrário também criou um GT
Meio Ambiente composto por integrantes das Secretarias de
Desenvolvimento Territorial, Reestruturação Agrária e de Agricultura
Familiar, além do Incra, com a intenção de inserir a temática
ambiental nos diferentes esforços para fomentar a reforma
agrária e agricultura familiar em bases sustentáveis. Além
disso, representantes do órgão estiveram envolvidos na elaboração
do Programa de
Desenvolvimento Sustentável para a Amazônia e anunciaram
que participarão do desenvolvimento dos zoneamentos
Ecológico-Econômico nos estados.
Quem e onde? Diagnóstico da demanda social
por terras
Um levantamento quantitativo e qualitativo consistente sobre
a demanda por terras e sobre as populações tradicionais da
Amazônia é fundamental para o planejamento e a implementação
deste novo modelo. No caso amazônico, é de se supor que a
nova proposta privilegie populações locais com situação fundiária
indefinida e sem acesso à infra-estrutura, crédito agrícola
ou assistência técnica.
Segundo o Censo
Demográfico 2000 do IBGE , que não abrange as áreas mais
fechadas da Amazônia, cerca de 4 milhões de habitantes, entre
ribeirinhos, extrativistas, indígenas, quilombolas e agricultores
familiares, habitam as áreas rurais da região, excluindo-se
o interior do Maranhão e do Mato Grosso , número considerado
subestimado por especialistas.
Em maio, o Incra criou por meio da Portaria nº 471,
de 2/5, um Grupo de Trabalho para identificar e cadastrar
famílias acampadas em todo país, para colher subsídios para
o planejamento da reforma agrária. Esse trabalho é essencial
para que se possa construir um modelo sustentável de reforma
agrária, que considere a diversidade regional e social. Levantamento
elaborado durante o governo anterior por meio de uma ficha
enviada por correio aponta para uma demanda de cerca de 700
mil famílias, segundo artigo do ex-ministro Raul Jungman,
publicado no jornal Folha de São Paulo de 15/7.
Necessidade de dados fundiários confiáveis
Outro obstáculo a ser superado para que um novo modelo de
reforma agrária funcione na Amazônia - ou em outros biomas
- é o fato de o Incra ou mesmo dos órgãos estaduais de terras
não possuírem um diagnóstico confiável das terras públicas
e privadas do país. Somente a partir do cruzamento do mapa
de áreas públicas e privadas com o de áreas
prioritárias para conservação e uso sustentável da biodiversidade
brasileira será possível realizar um planejamento consistente
e adequado para “assentamentos florestais”.
Neste sentido, o Incra anunciou recentemente uma parceria
com o Banco Mundial para o desenvolvimento de um banco de
dados georreferenciado das propriedades privadas e terras
públicas, uma ferramenta de gestão para o início da implementação
do Cadastro
Nacional de Imóveis Rurais (CNIR).
Esse cadastro permitirá o controle da legitimidade dos títulos
de terras na região e a gestão integrada do território não
somente pelo Incra, mas pelos demais órgãos que atuam na região,
principalmente o Ibama, a Funai e a Secretaria da Receita
Federal. Nenhum Estado da Amazônia Legal, entretanto, está
incluído na fase piloto de implementação do CNIR, o que poderá
comprometer colocar em prática as políticas necessárias
para a contenção dos desflorestamento no chamado Arco do Desmatamento,
já que sem um cadastro de imóveis confiável fica mais difícil
o controle e o monitoramento dos desmatamentos nas propriedades
rurais privadas. O CNIR foi uma das medidas formuladas pelo
Incra para o PPA 2004-2007
Ainda em julho, o presidente do Incra, Marcelo Resende, anunciou
que divulgará a relação de terras da União que podem ser destinadas
à reforma agrária. De acordo com a Superintendência Nacional
de Desenvolvimento Agrário, foi produzido um mapa de áreas
prioritárias para a reforma agrária, que contempla critérios
como o acesso ao mercado consumidor, solos e clima aptos à
agricultura e áreas com conflitos por terra.
Movimentos sociais demonstraram descontentamento com a idéia
das áreas prioritárias, que corre o risco de não coincidir
com as demandas dos que lutam por terra. De acordo com os
movimentos sociais, acampamentos maiores e mais antigos podem
ser preteridos por estarem mais distantes de centros consumidores
ou por não possuírem infra-estrutura necessária.
Falta política sustentável em outros biomas
As bem-vindas iniciativas em gestação neste primeiro semestre
com vistas à mudança de paradigma no modelo de reforma agrária
destinam-se a princípio somente à Amazônia Legal, não havendo
nenhuma proposta especial de alteração no modelo anunciada
aos outros biomas.
Para a Mata Atlântica, por exemplo, onde a lógica da exploração
florestal madeireira não é apropriada poderia ser discutido
um modelo de assentamento florestal visando a geração de emprego
e renda por meio da recuperação da floresta já degradada em
cerca de 94 % de sua extensão original. O chamado Pronaf
(Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar)-Florestal,
implementado apenas em algumas regiões piloto durante o final
do governo anterior, poderia ser reorientado e adequado para
essa finalidade.
Já para o Cerrado, principalmente no Centro-Oeste, onde a
concentração de terras é crescente em face das políticas de
incentivo à produção em escala para exportação, não há nenhuma
proposta de política específica relacionada à reforma agrária
que considere a fragilidade e a importância do bioma e a necessidade
de apoiar as populações tradicionais ou a agricultura familiar.
O MDA anunciou que irá expandir o Pronaf- Florestal para outros
biomas, assim como fortalecer o Pronaf Agroecologia, Pronaf
Pesca e Pronaf Turismo Rural na Amazônia. Aguardemos.
No plano do crédito rural diferenciado, o MMA e o MDA devem
implementar na Amazônia um modelo baseado na remuneração dos
serviços ambientais prestados pelas pequenas propriedades
à sociedade. Trata-se do Proambiente,
fortemente apoiado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores
na Agricultura (Contag) e por organizações indígenas e ambientalistas.
Entretanto, essa iniciativa, que deverá ser incluída no PPA
2004-2007, está voltada apenas para a Amazônia Legal.
Licenciamento ambiental de assentamentos
O licenciamento ambiental para os assentamentos de reforma
agrária é outro ponto fundamental sobre o tema. Começou a
ser discutido pela Procuradoria Geral do Incra, mas deverá
ser aprofundado em articulação com o Ibama e o Conselho Nacional
de Meio Ambiente (Conama).
A atual legislação, Resolução
Conama 289/01, não agrada aos órgãos
ambientais estaduais, que não conseguem implementá-la em face
da carência de recursos humanos e orçamentária; aos movimentos
sociais de luta pela terra, pois burocratiza e torna lenta
(podendo até mesmo inviabilizar) a aquisição de terras e a
implementação dos assentamentos; e tampouco aos ambientalistas,
para uns porque é considerada muito flexível e para outros
porque não está sendo implementada.
A revisão da legislação é necessária para que se crie um
modelo especial que considere a peculiaridade dos projetos
de reforma agrária, que não crie obstáculos à aquisição e
distribuição de terras e que garanta a sustentabilidade dos
assentamentos com a conservação dos ecossistemas, da biodiversidade
e dos recursos hídricos. O novo modelo de assentamento pode
alavancar a discussão de um modelo específico de licenciamento
ambiental.
Função socioambiental versus produtividade
Em reuniões e seminários organizados pela Procuradoria Geral,
o Incra iniciou neste ano um debate sobre a aplicação dos
dispositivos da Constituição Federal de 1988 que tratam da
função social e ambiental da propriedade rural e seu reflexo
na possibilidade de aquisição de novas terras para reforma
agrária, para analisar propostas para um novo marco legal
no Brasil.
A conservação ambiental e o uso adequado dos recursos naturais
são requisitos fundamentais para o cumprimento da função social
da propriedade, conforme dispõe o artigo 186 da Constituição
de 1988. Entretanto, mesmo que uma propriedade não cumpra
sua função social, caso seja produtiva economicamente, não
vem sendo objeto de desapropriação de reforma agrária. Isso
reflete um contra-senso entre os artigos 184 e 185 da Constituição,
que tratam de política agrária e fundiária e da reforma agrária,
e o artigo 186, que devem ser objeto de interpretação harmônica.
Neste sentido, o Incra iniciou um debate para inserir critérios
ambientais como indicadores de produtividade e sobre
como descontar o passivo referente à necessária recuperação
ambiental para a desapropriação de propriedades improdutivas
e que não cumpram a sua função socioambiental em face de danos
ambientais expressivos, como degradação de recursos hídricos
e de ecossistemas nativos.
Por outro lado, o recente acordo judicial entre o Incra e
a Confederação Nacional da Agricultura (CNA),
no âmbito da ação cautelar número 2002.34.00.040786-8, flexibilizou
os índices de produtividade rural, seguindo em direção oposta
à iniciativa da Procuradoria Geral do Incra de aprimorar os
índices estabelecidos pela Lei
8.629/93, para que indicadores socioambientais sejam incorporados
de forma consistente na aferição da função social e da produtividade
das propriedades rurais.
Considerando a legítima demanda que vem sendo apresentada
pelos movimentos de luta pela terra - o MST pede o assentamento
de 1 milhão de famílias durante este governo, 120 mil já neste
ano -, ou o próprio compromisso assumido pelo presidente Lula
- assentar ainda este ano cerca de 60 mil famílias, diante
de um orçamento suficiente para assentar não mais do que 20
mil famílias - fica difícil acreditar que o modelo de reforma
agrária implementado durante o governo anterior seja superado
e revisto em benefício de projetos social e economicamente
produtivos e ambientalmente sustentáveis ainda neste ano,
a despeito de louváveis medidas que já vêm sendo implementadas.
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