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| Marina Silva na posse: uma das prioridades
é a transversalidade |
Marina Silva assumiu o Ministério do
Meio Ambiente (MMA) formando uma equipe de secretários
mais homogênea e comprometida com a questão ambiental
e colocando no comando de diversas instâncias ligadas
à sua pasta pessoas com ampla trajetória em
organizações civis e nas mobilizações
políticas deste campo. Marcus Barros, um importante
pesquisador e militante político do Amazonas, por exemplo,
foi escolhido para a Presidência do Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama). Da mesma forma, reuniu uma equipe de diretores que
traz novas idéias e metodologias para áreas
fundamentais como licenciamento ambiental e gestão
de Unidades de Conservação. Para a opinião
pública, traz a esperança de que o órgão
supere o seu estigma associado ao corporativismo e à
corrupção, assumindo o papel de articulador
central da execução da política ambiental
pelo Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama).
No entanto, a equipe do novo governo perdeu a oportunidade
de reformar a estrutura do MMA que, como a de outros ministérios,
é esquizofrênica, contempla sobreposições
de competências entre secretarias de corte temático
ou regional e não dispõe de programas
estruturados que dêem conta dos vários biomas
e frentes de atuação da política ambiental.
Ao nomear os seus auxiliares segundo a estrutura instituída,
permitiu que a referida esquizofrenia passasse a fomentar
divergências entre eles. Até agora não
se sabe a quem compete o tratamento de determinados temas,
como o desmatamento na Amazônia ou as mudanças
climáticas globais.
A proposta da transversalidade
Em
seu discurso de posse, Marina Silva afirmou que um dos
eixos principais da estratégia de seu ministério
seria o da "transversalidade interna e externa na construção
das políticas públicas de governo". Para
isso, ela está dedicada a retirar o Ministério
do Meio Ambiente de seu tradicional isolamento por meio do
desenvolvimento de trabalhos com Ministérios como o
da Agricultura, dos Transportes, do Desenvolvimento Agrário,
das Minas e Energia e da Integração Nacional,
cujas ações e investimentos impactam diretamente
o meio ambiente.
Logo no início de sua gestão, a ministra do
Meio Ambiente enfrentou desafios de grande proporção,
como a liberação da safra de soja transgênica,
incêndios em Roraima que colocaram diversos municípios
do Estado em estado de calamidade pública, a proposta
de expansão da área de florestas plantadas
e a maior catástrofe ambiental do país - o derramamento
de cerca de 20 milhões de litros de resíduos
tóxicos nos Rios Pomba e Paraíba do Sul pela
Indústria Cataguases de Papel, em Minas Gerais.
O MMA tem tentado resolver essas situações
indo além das medidas de praxe para a mitigação
dos danos socioambientais. Em resposta ao acidente provocado
pela indústria de papel, por exemplo, foi anunciada
a criação de um Sistema de Resposta Rápida
a Emergências Ambientais, como deslizamentos, desabamentos,
enchentes ou inundações, incêndios florestais,
vazamentos de produtos tóxicos. O sistema deverá
se articular com outros similares já existentes no
país e inclui a criação de uma base de
dados sobre riscos ambientais nos municípios brasileiros.
Obstáculos à
transversalidade
Entretanto, no caso da liberação da safra de
soja contaminada por transgênicos, Marina esbarrou pela
primeira vez nas contradições do novo governo
em relação ao rumo do modelo de desenvolvimento
do país, questão central para implementação
da transversalidade da questão ambiental nas políticas
públicas.
A Medida
Provisória 113, que estabelece normas para a comercialização
da safra contaminada, foi publicada no dia 26 de março,
sob forte crítica de ONGs que trabalham com o tema.
As principais críticas em relação à
medida foram: falta de discussão prévia democrática
com a sociedade civil; êxito da pressão exercida
pelos infratores sem qualquer restrição, como
o cadastramento de seus nomes e necessidade de comprometimento
para as próximas safras; desrespeito à decisão
judicial que proíbe o plantio e a comercialização
de transgênicos no Brasil; e opção pela
liberação para o mercado interno sem conhecimento
real sobre a quantidade de soja contaminada existente.
Liberar a soja transgênica é rasgar a Constituição
foi o título da nota elaborada pelo Instituto Brasileiro
de Defesa do Consumidor (Idec), na qual define a medida como
um dos mais graves ataques à Justiça, ao Código
de Defesa do Consumidor e à legislação
ambiental. O Idec também é uma das organizações
que integram a campanha Por Um Brasil Livre de Transgênicos,
responsável por uma carta,
distribuída à imprensa, sociedade civil e políticos
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| Roberto Rodrigues, da Agricultura: pela
liberação do plantio da soja transgênica
na próxima safra |
detalhando os desdobramentos negativos da decisão.
Dias depois da publicação da MP 113, o ministro
da Agricultura, Roberto Rodrigues, declarou à Agência
Brasil que a liberação do plantio de
soja transgênica no Brasil é uma questão
que seria resolvida em breve pelo Congresso Nacional, podendo
até mesmo ocorrer a partir da próxima safra.
Rotulagem de produtos transgênicos
Atendendo a uma das principais reivindicações
da sociedade civil organizada, especialmente do movimento
de consumidores, Lula editou no dia 25/4 o Decreto 4.680,
que dispõe sobre a rotulagem de alimentos e ingredientes
transgênicos, revogando o Decreto 3.871, de 17/7/01.
O novo decreto estabelece que todo e qualquer alimento e
ingrediente que contenha a presença acima de 1% de
organismo geneticamente modificado em sua composição
deverá trazer a informação no rótulo,
o que representa um avanço significativo em relação
ao decreto anterior.
| Decreto 3.871/01 (FHC) |
Decreto 4.680/03 (Lula) |
| exigia rotulagem apenas para alimentos
contendo mais de 4% de transgênico |
exige rotulagem apenas para alimentos
contendo acima de 1% de transgênico |
| exigia rotulagem apenas para alimentos
embalados |
exige rotulagem para todos os alimentos
(embalados, a granel, in natura) |
| excluía alimentos de origem
animal alimentados com ração contendo transgênicos |
exige rotulagem de alimentos de origem
animal alimentados com transgênicos |
| não exigia identificação
da espécie doadora do gene |
exige a identificação
da espécie doadora do gene |
Em comparação com leis de outros países,
também é inegável que o decreto brasileiro
em vigor é positivo. Nos Estados Unidos e na Argentina,
por exemplo, não existe a necessidade de rotular alimentos
transgênicos. No Japão, o limite chega a ser
de 5%. Apenas a União Européia tem uma norma
mais rigorosa, recentemente aprovada na Comissão Européia,
que garante a obrigatoriedade da rotulagem a partir da presença
de 0,9% de ingrediente transgênico, além de exigir
a rastreabilidade, ou seja, controle da origem do produto.
Apesar do indiscutível avanço, dois aspectos
do decreto ainda violam os direitos dos consumidores. O primeiro
deles é que produtos altamente processados, como biscoitos,
bolos, massas, chocolates, óleos, margarinas e os derivados,
não serão rotulados, pelo simples fato de o
processamento ter destruído a possibilidade do organismo
geneticamente modificado ser detectado. O outro é a
limitação de 1%, pois, segundo testes já
realizados no Brasil pelo Idec e pelo Greenpeace, muitos alimentos
contêm menos deste percentual e, nestes casos, o consumidor
ficará sem a informação.
Protocolo de Biossegurança
Outra medida do novo governo em relação ao
assunto a ser destacada foi o encaminhamento ao Congresso
Nacional do projeto solicitando a ratificação
do Protocolo
de Biossegurança pelo presidente Lula no dia 22/5.
Há uma grande expectativa e pressão das organizações
não-governamentais que acompanham o tema para que o
Brasil ratifique o acordo, firmado, em 29 de janeiro de 2000
e também conhecido como Protocolo de Cartagena, que
estabelece normais internacionais para o transporte, manuseio
e uso de organismos geneticamente modificados, principalmente
para o cultivo comercial de alimentos transgênicos.
Construção de um PL sobre o tema
Na mesma data da publicação da MP 113, diversos
deputados anunciaram o comprometimento do governo federal
em enviar um projeto de lei (PL) ao Congresso Nacional para
definição do assunto em caráter de urgência.
O governo está elaborando uma proposta da qual não
se tem a mais vaga idéia do seu teor pelo menos
não as organizações ambientais, de consumidores
e de agricultores críticos à liberação
dos transgênicos. Após muita insistência,
algumas audiências entre a sociedade civil e alguns
dos ministérios envolvidos foram realizadas em junho,
sem que no entanto ficasse claro nessas ocasiões quais
serão as diretrizes do PL.
Diversas entidades, entre as quais o Idec, o Greenpeace e
o ISA, assinam documento
encaminhado ao presidente Lula no dia 12/6 solicitando que
o PL contemple seis pontos, entre os quais: estudo de impacto
ambiental (EIA) previamente à liberação
de qualquer espécie transgênica no meio ambiente;
avaliação de riscos à saúde pela
Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa); reformulação da composição
da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança
(CTNBio) para que constem cientistas de outras áreas,
como toxicologia e ética, além de representantes
de outros segmentos da sociedade excluídos da atual
Comissão; e instituição da responsabilidade
objetiva daquele que decidir plantar espécie geneticamente
modificada pela não contaminação das
propriedades vizinhas.
Mais recentemente, o governo decidiu abrir um diálogo
aparentemente melhor com os segmentos envolvidos, convocando
três seminários, o último deles promovido
pela Casa Civil em conjunto com o Ministério do Meio
Ambiente e o Ministério da Saúde no dia 18/7.
Neste encontro, várias entidades solicitaram que o
governo federal, antes de encaminhar o PL ao Congresso Nacional,
apresente a proposta para os participantes do seminário,
que incluíram ONGs como o Idec e o Greenpeace.
Desmatamento e avanço
da soja na Amazônia
 |
| Área recém-desmatada para
plantio de soja no entorno do Parque do Xingu, do lado
leste |
As estimativas divulgadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento
na Amazônia Legal, 25.476 km2 entre agosto de 2001
e agosto de 2002, o segundo maior índice desde o início
do monitoramento anual da região há 15 anos,
foi outro problema que se mostrou igualmente preocupante e
desafiador. Se este número for confirmado, indicará
que mais de 300 milhões de toneladas de carbono foram
emitidas para a atmosfera apenas naquele período, contribuindo
fortemente para o agravamento do efeito estufa. E, ainda,
há indicações de grandes desmatamentos
já realizados que impactarão os índices
de 2003.
O avanço da agropecuária, especialmente a monocultura
da soja é apontado como um dos principais vetores para
a abertura de novas áreas de expansão do desmatamento,
principalmente no Sul do Amazonas e na região de Santarém
(PA).
O grão é um produto do chamado agronegócio
responsável pelo diferencial da balança comercial
brasileira, cujas exportações atingiram recorde
histórico no primeiro semestre deste ano, totalizando
US$ 16,2 bilhões, segundo dados divulgados pelo Ministério
da Agricultura, Pecuária e Abastecimento em 5/8. Como
consequência, o produto modelo exportação,
cujo principal destino é servir de ração
animal na Europa, seduz fortemente integrantes do novo governo,
que pretendem estimular o país a ultrapassar as toneladas
geradas nos Estados Unidos, atualmente o principal produtor
mundial. Em entrevista à revista Isto
É, o ministro do Planejamento, Guido Mantega, reproduziu
as palavras recorde e histórico para definir o Plano
Safra, um volume de financiamento de R$ 32,5 bilhões
para viabilizar a produção de grãos na
safra 2003/2004, lançado recentemente. Para a agricultura
familiar, o plano concedeu R$ 5,4 bilhões.
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| Preparo do solo para cultivo de soja;
ao fundo, floresta remanescente |
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma
produção recorde de soja de 50,3 milhões
de toneladas para a safra 2002/2003, cerca de 20% acima do
total produzido no período anterior. O Mato Grosso,
que detém um dos índices mais críticos
de desmatamento, é o principal produtor do grão
na Amazônia. Edeon Vaz Ferreira, presidente da Associação
dos Produtores de Sementes de Mato Grosso (Aprosmat) e vice-presidente
da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes
(Abrasem), afirmou ao suplemento
agrícola do jornal O Estado de S.Paulo
que a área plantada com soja no Estado deve
aumentar de 4,3 milhões para 4,8 milhões de
hectares, sem no entanto especificar quais locais abrigariam
esta expansão.
Durante participação em uma mesa-redonda em
meados de julho, o presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes,
declarou que o país precisa se questionar a respeito
da sustentabilidade deste modelo de produção
agrícola, que avança sobre o Cerrado e a Amazônia
e é voltado para o mercado internacional, uma vez que
também está envolvido com o projeto de erradicação
da fome dos brasileiros. "Esta é uma contradição
para a qual devemos estar atentos."
Divulgação dos dados envolve sociedade civil
Tradicionalmente, a divulgação dos dados de
desmatamento colocava o Ministério do Meio Ambiente
como alvo da opinião pública nacional e internacional.
Anunciados no meio do ano, quando o período de queimadas
já está em curso, os índices impunham
ao órgão a necessidade do estabelecimento de
medidas coercitivas impopulares e, não raro, ineficientes,
por não envolverem outras áreas de governo cujas
políticas são, em última instância,
as que estimulam a derrubada da floresta.
Este ano, pela primeira vez, os dados do Inpe foram disponibilizados
graficamente e com antecedência, para que as dinâmicas
e as principais causas do desmatamento fossem analisadas e
qualificadas. Para isso, foi formado um grupo de trabalho
com representantes de diversos órgãos governamentais
- Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (Ibama), Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa), Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária (Incra) e Sistema de Proteção
da Amazônia (Sipam) -, institutos de pesquisa - Museu
Paraense Emílio Goeldi e Instituto Nacional de Pesquisa
da Amazônia (Inpa) -, e organizações não-governamentais
com competência técnica na área de geoprocessamento
- Instituto Socioambiental (ISA), Instituto de Pesquisa Ambiental
da Amazônia (Ipam) e Instituto do Homem e do Meio Ambiente
da Amazônia (Imazon).
Responsável por direcionar as ações
do governo em relação ao assunto, a análise
dos dados foi apresentada no dia 1/7, durante um seminário
promovido pela Casa Civil da Presidência da República
e pelos Ministérios do Meio Ambiente e da Ciência
e Tecnologia.
As análises realizadas pelo ISA revelam que as Terras
Indígenas (TIs) e as Unidades de Conservação
(UCs) exercem um papel fundamental na contenção
do desmatamento. Levantamento dos dados do Inpe entre 1997
e 2000 aponta que do total desflorestado no período
(16,83%), o percentual em TIs correspondeu a apenas 1,1%,
nas UCs Federais a 1,52%, e nas UCs estaduais a 8,96%. Fora
de áreas protegidas o desmatamento foi de 23,58%.
No Mato Grosso, Rondônia e Pará o desmatamento
em TIs não passa de 1% e nas UCs Federais correspondem
a 2,15%. Já as áreas de floresta não-protegidas
por UCs ou TIs nesses três Estados estão já
desmatadas em níveis acima do permitido pelo Código
Florestal. (Veja tabela abaixo ou clique
aqui para acessar apresentação completa do ISA)
DESMATAMENTO NAS ÁREAS FLORESTADAS DA AMAZÔNIA BRASILEIRA
ATÉ 2001
(fonte: INPE/Prodes) área em hectares |
| estados |
Área Protegida |
Área
Protegida |
Fora
de Área Protegida |
%
mapeada
do estado |
| TI |
UCE |
|
UCF |
|
| Uso Sustentável |
Proteção Integral |
Uso Sustentável |
Proteção Integral |
| ACRE |
19.013 |
2.171 |
|
37.596 |
12.272 |
71.052 |
1.533.078 |
98,38 |
| 0,92% |
3,75% |
|
1,40% |
1,49% |
1,26% |
16,57% |
| AMAZONAS |
215.177 |
27.036 |
15.468 |
11.188 |
6.203 |
275.072 |
2.022.460 |
94,09 |
| 0,61% |
0,92% |
3,71% |
0,30% |
0,13% |
0,58% |
2,29% |
| AMAPÁ |
2.314 |
1.563 |
|
8.417 |
243 |
12.536 |
85.082 |
47,81 |
| 0,54% |
1,10% |
|
1,61% |
0,02% |
0,56% |
3,20% |
| MARANHÃO |
169.793 |
284.050 |
|
19.937 |
52.244 |
526.023 |
7.189.534 |
54,70 |
| 9,45% |
52,11% |
|
98,66% |
18,65% |
18,86% |
48,43% |
| MATO GROSSO |
232.139 |
64.720 |
59.148 |
556 |
6.885 |
363.448 |
15.587.513 |
98,74 |
| 1,88% |
8,17% |
3,78% |
0,21% |
4,62% |
2,40% |
21,60% |
| PARÁ |
232.087 |
270.648 |
2.817 |
124.858 |
10.012 |
640.422 |
19.695.683 |
96,38 |
| 0,91% |
6,53% |
7,99% |
2,96% |
0,72% |
1,81% |
26,54% |
| RONDÔNIA |
87.895 |
382.986 |
25.797 |
33.240 |
1.578 |
531.496 |
6.543.707 |
100,00 |
| 1,78% |
11,78% |
2,91% |
3,75% |
0,20% |
4,93% |
50,87% |
| RORAIMA |
36.557 |
|
|
1.773 |
2.347 |
40.677 |
576.094 |
71,22 |
| 0,76% |
|
|
5,74% |
0,24% |
0,70% |
6,40% |
| TOCANTINS |
20.485 |
40.146 |
2.219 |
7.891 |
184 |
70.926 |
2.924.539 |
62,66 |
| 0,87% |
2,26% |
1,89% |
59,82% |
0,10% |
1,59% |
22,78% |
| AMAZÔNIA |
1.015.458 |
1.073.321 |
105.449 |
245.455 |
91.969 |
2.531.652 |
56.157.690 |
90,59 |
| 1,14% |
7,87% |
3,33% |
1,99% |
0,86% |
1,96% |
18,96% |
obs:
- porcentagem calculada sobre a área de floresta efetivamente avaliada (não
considera as áreas de "não-floresta", as com nuvem e os corpos
d'água) |
| fontes: dados de desmatamento:
PRODES/INPE, 2003 Terras Indígenas e Unidades de Conservação: ISA/2003 |
Arco do Desenvolvimento Sustentável
Diversas ONGs apresentaram proposições para
reprimir e reverter a destruição da Floresta
Amazônica. O Museu Paraense Emílio Goeldi e a
Conservation International (CI) definiram um conjunto de iniciativas
para que o Arco do Desmatamento seja transformado no Arco
do Desenvolvimento Sustentável, relacionadas a
cinco eixos temáticos: controle e fiscalização,
Unidades de Conservação e Terras Indígenas,
Ciência e Tecnologia, Consolidação de
Assentamentos Rurais e Recuperação de Áreas
Degradadas.
Cinco também foi o número de sugestões
elaboradas pelo Fundo
Mundial para a Natureza (WWF-Brasil), entre as quais a
finalização do Zoneamento Ecológico-Econômico
(ZEE) dos estados da Amazônia, a adoção
da agricultura sustentável em áreas degradadas
e a criação de Unidades de Conservação
para erguer barreiras junto ao Arco do Desmatamento. Já
o Greenpeace propôs "desmatamento
zero", elencando uma série de propostas para
reduzir a zero o desmatamento da cobertura florestal em 10
anos.
O pacote de medidas de controle e prevenção
do desmatamento na Amazônia foi anunciado pelo governo
no dia 2/7, após uma reunião no Palácio
do Planalto que, além da ministra do Meio Ambiente,
Marina Silva, e outros integrantes da sua equipe, envolveu
o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes,
do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, e o ministro
interino da Ciência e Tecnologia, Raymundo de Souza.
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| Reunião interministerial com
Marina Silva (Meio Ambiente), Ciro Gomes (Integração
Nacional), José Dirceu (Casa Civil), Miguel Rossetto
(Desenvolvimento Agrário) para discutir formas
de conter o desmatamento na Amazônia |
Além das ações emergenciais, que incluem
operações de fiscalização na região
mais crítica, conhecida como Arco do Desmatamento,
que envolve cerca de 60 municípios localizados no Pará,
Mato Grosso e Rondônia, as medidas incluíram
o estabelecimento de critérios ambientais para a concessão
de créditos agrícolas e incentivos fiscais para
atividades produtivas e licenciamento de obras de infra-estrutura
na região, a adoção de assentamentos
agroecológicos, a criação de um Sistema
Único de Licenciamento Ambiental, cruzando dados do
Ibama, do Incra, da Receita Federal e de órgãos
ambientais, para verificar o cumprimento das determinações
legais.
Também foi anunciada a composição de
um Grupo de Trabalho (GT) interministerial, formado por integrantes
da Casa Civil e dos ministérios do Meio Ambiente, Agricultura,
Ciência e Tecnologia, Desenvolvimento Agrário,
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior,
Integração Nacional, Justiça, Minas e
Energia, Trabalho e Emprego e Transportes, responsável
por propor em 30 dias um plano de ação mais
elaborado para conter o desmatamento na região. Até
o momento, não foram anunciados os resultados desse
trabalho.
O ordenamento fundiário dos municípios que
compõem o Arco do Desmatamento, a geração
de emprego e renda em atividades de recuperação
em áreas alteradas, a incorporação ao
processo produtivo de áreas abertas e abandonadas e
manejo de áreas florestais e o estabelecimento de uma
zona especial de gestão territorial na área
de influência da BR-163, que liga Cuiabá a Santarém,
estavam entre os instrumentos previstos para o trabalho do
GT.
Entretanto, o decreto que instituiu o GT foi reeditado dias
depois, excluindo a zona especial de gestão territorial
na área de influência da BR-163. A rodovia e
seu entorno, que já foram foco da exploração
madeireira, representam agora uma das principais rotas de
migração de produtores de soja.
Aonde a BR-163 vai chegar?
A exclusão
da zona especial de gestão territorial da BR-163
atende às expectativas dos que apostam no avanço
da produção da soja na Amazônia e coloca
em dúvida as perspectivas de suspensão significativa
do desflorestamento no entorno da rodovia, hoje entre as áreas
de expansão do desmatamento.
Asfaltada, à exceção de um pequeno trecho,
até Guarantã do Norte (MT), a BR-163, também
conhecida como Rodovia Cuiabá-Santarém, conta
agora com um forte lobby e um consórcio privado já
formado para a pavimentação de mais 756 quilômetros
da estrada até o porto de Mirituba (PA), o que facilitaria
o escoamento da produção do grão para
mercados externos, assim como a produção do
Pólo Industrial de Manaus para os grandes centros consumidores.
No site
do Governo do Mato Grosso, o governador Blairo Maggi afirma
que a obra será um marco para o país, e que
a história do desenvolvimento regional poderá
ser contada com o antes e o depois da conclusão da
BR-163.
Maggi, considerado o maior sojicultor individual de todo
mundo, também foi responsável por estimular
a participação de empresários ligados
à Zona Franca de Manaus no consórcio privado,
que é formado por trades de soja, empresas rodofluviais,
Petrobras e empreiteiras. No dia 10/7, estabeleceram a Sociedade
de Propósito Específico, que concorrerá
à privatização da construção,
manutenção e exploração da rodovia,
segundo nota publicada no pela
agência de notícias Mídia News.
O chefe de gabinete do Ministério da Integração
Nacional, Pedro Brito Nascimento, esteve presente à
reunião e reiterou o compromisso do ministro Ciro Gomes
de viabilizar o financiamento da obra, calculada em US$ 175
milhões, por meio, entre outros, do Fundo Constitucional
do Norte (FNO). O início da obra está previsto
para o começo de 2004, após o período
das chuvas.
Plano de Desenvolvimento Sustentável
para a Amazônia
 |
| Terra do Meio no Pará: pouco
conhecida, é um dos últimos redutos preservados
da Amazônia Oriental |
Segundo informações da Assessoria de Comunicação
do Ministério do Meio Ambiente, o plano de ação
para o controle e prevenção do desmatamento
da Amazônia a ser anunciado em agosto pelo GT Interministerial,
assim como as medidas já divulgadas, deverão
estar articulados com o Programa de Desenvolvimento Sustentável
para a Amazônia, cujo termo de cooperação
para sua elaboração e implementação
foi firmado entre o governo federal e os governadores do Acre,
Amapá, Amazonas, Rondônia, Roraima e Pará
no dia 9/5, em Rio Branco (AC), com a presença do presidente
Lula.
Ironicamente, "gestão ambiental e ordenamento territorial"
é um dos cinco eixos temáticos do programa,
que contempla ainda produção sustentável
com tecnologia; inclusão social e cidadania; infra-estrutura
para o desenvolvimento e um novo padrão de financiamento.
A ministra Marina Silva e o ministro da Integração
Nacional, Ciro Gomes, responsável pela coordenação
do programa, apresentaram no dia 17/6 aos governadores da
Amazônia a proposta metodológica e um documento-base
com subsídios para sua elaboração.
No documento, a Rodovia Cuiabá-Santarém é
destacada: "atenção especial deve ser dada às
áreas mais críticas, como no eixo de expansão
do desmatamento, ao longo da BR-163, e na área conhecida
como Terra do Meio". Um outro trecho do material afirma
que as políticas públicas a serem implementadas
em conjunto com investimentos em obras de infra-estrutura
devem se articular com estratégias de ordenamento territorial
em bases sustentáveis.
De acordo com a cronologia estabelecida pelo Ministério
da Integração Nacional, a versão final
do programa deverá ser enviada ao presidente Lula no
dia 9/8. Antes disso, entretanto, estaria previsto um debate
com a sociedade civil sobre as propostas encaminhadas pelos
governadores, sem, no entanto, ter sido definida até
o momento uma agenda.
Ainda não está claro qual será a sua
relação com os programas já existentes,
embora, em recente reunião com os doadores do PPG-7,
a secretária de Coordenação da Amazônia,
Mary Allegretti, tenha informado que a sua segunda fase deve
consistir na "criação de um instituto de estudos
e pesquisas para subsidiar o programa de desenvolvimento sustentável
a Amazônia".
Também não há como saber por enquanto
se o programa representa uma oportunidade ou um risco. Oportunidade
porque poderia abrir a possibilidade da variável ambiental
integrar as políticas de desenvolvimento para a região,
incorporando a transversalidade defendida inúmeras
vezes pela ministra Marina Silva. E risco porque, ao contrário,
o Ministério do Meio Ambiente poderia vir a ter que
sucumbir a propostas insustentáveis que são
defendidas por outras áreas do governo federal e pelos
governos estaduais, como a perspectiva de expansão
da produção de soja na Amazônia e a conseqüente
instalação de infra-estrutura de transporte
compatível com a atividade, pautadas pelos Ministérios
da Agricultura e dos Transportes; bem como os projetos de
grande porte para geração de energia elétrica,
como a Usina Hidrelétrica de Belo Monte (PA).
Plano Plurianual e participação
da sociedade civil
O Plano Plurianual (PPA) é o instrumento de planejamento
que define os gastos orçamentários do Governo
Federal. Neste momento, o governo Lula está finalizando
a elaboração do PPA 2004-2007 , que deverá
ser enviado para ser avaliado pelo Congresso Nacional até
o dia 29 de agosto.
O Plano Plurianual (PPA 2004-2007) está sendo
construído para mudar o Brasil. Vai inaugurar um modelo
de desenvolvimento de longo prazo, para muito além
de 2007, destinado a promover profundas transformações
estruturais na sociedade brasileira, afirma o documento
intitulado Um Novo Brasil é Possível,
que sintetiza a orientação estratégica
do governo para o PPA. As mudanças estruturais na sociedade
brasileira geradas pelo PPA 2004-2007, também denominado
Plano
Brasil de Todos, só poderão ser avaliadas
daqui a alguns anos. O que pode ser dito até o momento
é sobre o ineditismo de sua elaboração,
que pela primeira vez está buscando incluir a participação
da sociedade civil.
Convidadas pela Secretaria Geral da Presidência da
República a Associação
Brasileira das Organizações Não-Governamentais
(Abong) e a Inter Redes articularam a participação
nos fóruns de debate sobre o PPA em todos os Estados
e no Distrito Federal. A efetiva participação
da sociedade civil na elaboração do PPA, entretanto,
está limitada aos princípios norteadores do
novo Plano Plurianual - inclusão social e desconcentração
da renda com crescimento do produto e do emprego; crescimento
ambientalmente sustentável, redutor das disparidades
regionais, dinamizado pelo mercado de consumo de massa, por
investimentos e pela elevação da produtividade;
e redução da vulnerabilidade externa por meio
da expansão de atividades competitivas que viabilizem
esse crescimento sustentado. A abertura para discussão
dos programas ficou a critério de cada ministério.
No caso do Ministério do Meio Ambiente, entidades do
Grupo de Trabalho Florestas do Fórum Brasileiro de
ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e Desenvolvimento
foram chamadas a discutir a inserção do Programa
Nacional de Florestas no PPA.
Além disso, diversas organizações participaram
e promoveram diferentes inciativas para a formatação
e o encaminhamento de propostas socioambientais para serem
incluídas no PPA 2004-2007. Representantes do Instituto
Socioambiental (ISA), da SOS Mata Atlântica, do Fundo
Mundial para a Natureza- WWF, do Greenpeace e da Amigos da
Terra Amazônia Brasil reuniram-se no dia 16/4
com o subsecretário geral da Presidência da República,
César Alvarez, ocasião em que apresentaram diversas
sugestões para o processo de consulta do PPA 2004-2007,
entre as quais a criação de um mecanismo de
consulta a respeito de obras do PPA anterior não iniciadas
ou paralisadas em decorrência de passivos ambientais
ou pendências legais, com a participação
do Ministério Público, comunidades locais e
entidades ambientalistas, que possam ser inseridos no próximo
Plano Plurianual.
As sugestões foram depois resumidas e reunidas em
uma carta
enviada ao subsecretário no início de maio.
Parte dela reproduz uma parcela do documento A
Amazônia e o Novo PPA Como Aprender com as Lições
do Avança Brasil, elaborado pela ONG Amigos
da Terra Amazônia Brasil no início deste
ano. Em 12 páginas, o material analisa, entre outros
temas, as principais razões do atraso e/ou falta de
implementação de projetos e ações
de infra-estrutura com impactos socioambientais previstos
pelo PPA 2000-2003, especialmente as obras de infra-estrutura
previstas na Amazônia. Sobre esses empreendimentos,
o Grupo de Assessoria Internacional (IAG) do Programa Piloto
de Proteção das Florestas Tropicais do Brasil
(PPG-7) produziu um relatório
divulgado no dia 1/8, recomendando a reavaliação
dessas obras, sendo necessário considerar a viabilidade
econômica e a internalização de custos
socioambientais.
Em relação à participação
no PPA, as expectativas da sociedade civil estendem-se aos
processos de avaliação e adequação
anuais, anunciados pelo governo como uma das inovações
do planejamento.
E qual será o rumo
da política energética?
A política energética a ser adotada pelo presidente
Lula é outro tema que tem preocupado bastante os ambientalistas.
Assim como o restante da população, também
estavam cheios de esperança os que apostavam que havia
chegado a hora de serem iniciados no país investimentos
efetivos em fontes renováveis de energia, especialmente
eólica e solar, em detrimento dos megaprojetos, como
a construção de usinas hidrelétricas
na Amazônia, como Belo
Monte, ou a Usina Nuclear Angra 3 (RJ).
Em
relação à usina hidrelétrica,
o caderno temático O
Lugar da Amazônia no Desenvolvimento do Brasil,
parte do Programa do Governo do presidente eleito, alertava:
"Dois projetos vêm sendo objetos de intensos debates:
a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará,
e o de Gás de Urucu, no Amazonas. Além desses
também preocupam as 18 barragens propostas na Bacia
do Rio Araguaia e Tocantins. A matriz energética brasileira,
que se apóia basicamente na hidroeletricidade, com
megaobras de represamento de rios, tem afetado a Bacia Amazônica.
Considerando as especificidades da Amazônia, o conhecimento
fragmentado e insuficiente que se acumulou sobre as diversas
formas de reação da natureza em relação
ao represamento em suas bacias, não é recomendável
a reprodução cega da receita de barragens que
vem sendo colocada em prática pela Eletronorte."
Ainda em janeiro, declarações do novo presidente
da Eletrobrás (Centrais Elétricas do Brasil
S.A), Luiz Pinguelli Rosa, sinalizavam que não existiam
motivos para tamanha expectativa de mudança. Em entrevista
à imprensa, Pinguelli, ex-coordenador de Programas
de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos coordenadores do
programa de energia do PT, anunciou à imprensa que
o projeto voltaria a ser discutido.
Durante sua participação no
I Seminário de Infra-estrutura e Desenvolvimento Sustentável,
promovido pela Fundação Perseu Abramo em Brasília
entre 25 e 27/7, Pinguelli apresentou Belo Monte, assim como
uma outra usina hidrelétrica prevista para ser construída
no Rio Madeira (RO), como uma obra certa dentro deste novo
governo, afirmando que estarão incluídas no
Plano Plurianual (PPA) 2004-2007, em elaboração
neste momento.
Por outro lado, o diretor de Licenciamento Ambiental do Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama), Nilvo Luiz Alves da Silva, anunciou no fim de junho
que uma nova sistemática de licenciamento para hidrelétricas
no Brasil está sendo proposta. A intenção
é que os impactos socioambientais sejam considerados
e avaliados antes da licitação dos empreendimentos,
que fica sob a responsabilidade da Agência Nacional
de Energia Elétrica (Aneel). As declarações
foram feitas durante participação no Seminário
de Avaliação de Impactos Ambientais Decorrentes
da Implantação de Barragens, realizado em
Porto Alegre.
Antes disso, o Grupo de Trabalho (GT) Energia do Fórum
Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente
e o Desenvolvimento havia se reunido entre 23 e 25/4 com integrantes
dos Ministérios das Minas e Energia (MME), da Ciência
e Tecnologia (MCT) e da Agência Nacional de Águas
(ANA), para discutir, entre outros temas, o destino de Angra
3, a construção de hidrelétricas da Amazônia
e o investimento em fontes de energias renováveis.
Embora obtendo respostas ambíguas em relação
à Usina Hidrelétrica de Belo Monte, o GT ouviu
declarações favoráveis à construção
de Angra 3 do secretário-executivo do Ministério
da Ciência e Tecnologia, Wanderlei de Souza. De acordo
com reportagem publicada no site da EcoAgência
de Notícias, Souza afirmou que "a posição
do ministério é a de que a energia nuclear não
deveria se restringir ao abastecimento elétrico, mas
contemplar também aplicações científicas".
Apesar de ter deixado Brasília sem vislumbrar mudanças
significativas no rumo da política energética
do país, o grupo ainda teve disposição
para formular uma série de propostas para o PPA 2004-2007.
As reivindicações incluem a otimização
do potencial de geração e transmissão
instalado e recuperação do potencial das usinas
hidrelétricas existentes, incentivos a programas de
produção de energia renovável, a auditoria
dos programas de geração de energia com passivos
socioambientais e a criação de um fundo para
compensar os atingidos por esses empreendimentos.
Em relação à Angra 3, o Greenpeace
e a Fundação SOS Mata Atlântica estão
coletando adesões para um abaixo-assinado pedindo que
a usina nuclear não seja construída e solicitando
também que lideranças políticas e a sociedade
civil organizada manifestem publicamente o seu repúdio
à obra.
Apesar dos impasses, há
ganhos
No meio desse contexto de indefinições, o Programa
de Desenvolvimento Socioambiental da Produção
Familiar Agrícola (Proambiente) desponta como algo
bastante promissor. Considerado inovador por ter sido uma
proposta de política pública elaborada pelo
movimento social da Amazônia, o programa vinha sendo
estruturado nos últimos três anos e desenvolvido
como experiência piloto em 12 pólos na Amazônia.
Aliando conservação ambiental ao incremento
da renda da produção familiar agrícola,
o Proambiente envolve a constituição de um fundo
socioambiental destinado a remunenar os produtores rurais
pelos serviços ambientais prestados pela manutenção
da floresta em pé, da conservação da
água e do solo, entre outros, que deverá estar
vinculado ao sistema de crédito à agricultura
familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Em uma cerimônia
realizada na Câmara dos Deputados em abril representantes
de produtores familiares entregaram a proposta do Proambiente
a integrantes dos ministérios do Meio Ambiente, do
Desenvolvimento Agrário, da Agricultura e da Embrapa.
Um Grupo de Trabalho (GT) do MMA e outro ministerial têm
como missão definir como o programa vai ser institucionalizado
como programa do governo federal, devendo para isso ser incluído
no Orçamento da União e no Plano Plurianual
(PPA) 2004-2007.
Doação de mogno
e novas regras
 |
| Às margens do Rio Xingu, toras
de mogno apreendidas por extração ilegal
aguardam solução |
A doação
de cerca de seis mil toras de mogno exploradas ilegalmente
e apreendidas pelo Ibama em Altamira (PA) para a Federação
de Órgãos para Assistência Social e Educacional
(Fase) é outra medida que renova a relação
do poder público com a sociedade civil, tendo sida
bastante elogiada pelos ambientalistas. A organização
foi escolhida a partir da indicação de movimentos
sociais locais para gerenciar um fundo a ser criado com os
recursos obtidos com a venda da madeira e destinado para o
financiamento de projetos socioambientais na região.
A decisão foi anunciada por Lula no Dia Mundial do
Meio Ambiente (5/6), com uma extensa explicação
no encerramento do seu discurso: "...A partir de uma radiografia
feita pelo governo sobre o comércio ilegal de mogno
- que gerou perdas de US$ 4 bilhões ao Brasil nos últimos
30 anos - nós decidimos que os estoques apreendidos,
e que há anos se deterioram em portos e armazéns,
sendo alvo de roubos e desvios, serão destinados a
organizações sociais e ecológicas das
áreas prejudicadas. De agora em diante será
assim, podem ter certeza disso. O primeiro lote beneficiará
a região de Altamira (PA). Um volume de 14,5 mil metros
cúbicos de madeira, cuja exportação dará
uma receita líquida de US$ 2 milhões, cujo valor
será administrado pelas comunidades afetadas pela extração
ilegal. Essa utilização será feita com
acompanhamento do Ministério Público. E irá
financiar projetos de manejo sustentável da espécie,
bem como medidas de controle e fiscalização
para que a destruição dessa riqueza não
prossiga".
Lula também assinou na data o Decreto
4.722/03, que permite a extração da espécie,
atividade que estava suspensa desde outubro de 2001, por meio
de Planos de Manejo Florestal Sustentável (PMFS) que
sejam adequados às exigências da Convenção
sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas
(Cites), da qual o Brasil é signatário.
As medidas são resultado do trabalho de uma comissão
formada em fevereiro por integrantes do MMA e do Ministério
da Agricultura, que tinham entre suas tarefas definir o destino
do mogno apreendido pelo Ibama, implementar as regras da Cites,
estabelecer novas diretrizes para o manejo sustentável
da espécie e definir a forma de controle e fiscalização
desta atividade.
Governo e ONGs fiscalizam
Mata Atlântica
Outra iniciativa que merece destaque é a intenção
do Ibama de estabelecer novas medidas de combate aos crimes
ambientais na Mata Atlântica que envolvam a participacão
da sociedade civil.
Para discutir o assunto, foi realizado entre 8/7 e 11/7 no
Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros
do Litoral Nordeste (Cepene), em Tamandaré (PE), onde
estiveram presentes cerca de 60 integrantes da Rede de ONGs
da Mata Atlântica e diversos gerentes regionais, chefes
de fiscalização e técnicos do Ibama e
do Ministério do Meio Ambiente.
Carta
de Tamandaré é o nome do documento que
reúne as recomendações elaboradas pelos
participantes do evento, entre as quais a instalação
de mecanismos de gestão com a participação
da sociedade civil, especialmente câmaras técnicas,
em todas as gerências executivas localizadas na Mata
Atlântica; a disponibilização ao público,
preferencialmente via internet, informações
atualizadas sobre a fiscalização do bioma; e
a promoção de ações de fiscalização
envolvendo diferentes instituições, como o Ibama,
as secretarias estaduais de Meio Ambiente, órgãos
municipais, as Forças Armadas, o Ministério
Público, o Poder Judiciário e a sociedade civil.
O material encontra-se agora nas mãos do Grupo de
Trabalho (GT) Mata Atlântica, instituído pela
ministra Marina Silva, em 9/5, com o prazo de um ano para
estudar e propor ações, políticas e programas
para a proteção do bioma. É formado entre
outros por integrantes dos Ministérios do Meio Ambiente,
da Agricultura e da Ciência e Tecnologia, da Rede de
ONGs da Mata Atlântica, do Ibama, da comunidade científica,
do setor empresarial, de organizações indígenas
e de comunidades de pescadores artesanais.
UCs: pouca novidade e alguma
polêmica
A Mata Atlântica, aliás, abriga a maior parte
das Unidades de Conservação (UCs) criadas no
primeiro semestre do novo governo. Foram estabelecidas apenas
quatro UCs, uma de proteção integral, a Reserva
Biológica da Mata Escura (MG), com 50,8 mil hectares;
e três de uso sustentável, a Reserva Particular
do Patrimônio Natural de Ararauna (BA), com 39 hectares;
a Reserva Particular do Patrimônio Natural Rizzieri
(SP), com 12,82 hectares; e a Reserva Extrativista do Batoque
(CE), com 601,5 hectares, única localizada fora do
bioma, na Zona Costeira.
Também foi promovida uma considerável ampliação
da Estação
Ecológica do Taim (RS), que passou de 10,7 mil
para 88,3 mil hectares. Bastante criticada por proprietários
de terra na região, a medida, vislumbrada há
um certo tempo e na verdade já pronta para
ser canetada por FHC, dividiu os ambientalistas locais.
De acordo com nota
de Ney Gastal, presidente da Associação Brasileira
de Proteção Ambiental (Abrapa), publicada na
Ecoagência de Notícias, a situação
fundiária da UC ainda não está totalmente
regularizada, o Ibama não consegue realizar o trabalho
de controle e fiscalização em caráter
permanente e a estrada que atravessa a Estação
Ecológica está em vias de desmoronar. Ele ressaltou
ainda que o conselho consultivo da Unidade de Conservação
não foi envolvido no processo decisório da ampliação,
e colocou se não seria mais justo a Estação
Ecológica ter sido ampliada como Parque Nacional, o
que possibilitaria o aproveitamento econômico das belezas
cênicas da região para turismo ecológico.
Já Kathia Vasconcellos, coordenadora executiva do
Núcleo Amigos da Terra/Brasil, definiu a ação
como corajosa e pioneira, não só pela importância
ambiental como pelos benefícios fiscais que os municípios
terão a partir da regulamentação do ICMS
ecológico.
Conferência Nacional
do Meio Ambiente
Marina Silva está apostando boa parte das suas fichas
na realização da I Conferência Nacional
de Meio Ambiente e Desenvolvimento, que ocorrerá em
Brasília entre 28 e 30/11, e inclui a promoção
da Conferência Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente. Com
o slogan Vamos Cuidar do Brasil, o evento envolve ainda
a realização prévia de 27 conferências
estaduais.
Lançada oficialmente no Dia Mundial do Meio Ambiente
(5/6), a conferência foi defendida pela ministra em
seu discurso de posse como um instrumento de articulação,
sistematização e consolidação
da participação social no estabelecimento das
grandes diretrizes de políticas ambientais do governo.
De acordo com informações da Assessoria de
Comunicação do MMA, dois documentos com diretrizes
e propostas deverão ser aprovados durante a Conferência,
a serem encaminhados posteriormente para apreciação
do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).
Muito antes da Conferência, as diretrizes ambientais
do atual governo, que ainda permanecem um tanto turvas, deverão
estar bem claras, com a definição do Plano Plurianual
2004-2007 pela equipe do governo até o fim de agosto.
Esperamos que seu desenho final favoreça a implementação
da tão desejada e anunciada transversalidade das questões
ambientais, tão necessária para alterar o modelo
de desenvolvimento vigente no país, cuja herança
bem conhecemos, mas alguns não cansam de querer reprisar.
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