| Políticas públicas e transversalidade
A expansão da soja no entorno do Parque Indígena do Xingu
é mais um capítulo do modelo de desenvolvimento e ocupação
da Amazônia e do Cerrado, que durante quase 40 anos gerou
intensa degradação ambiental e exclusão social. O que não
se sabe, é se o governo
atual manterá esse modelo em detrimento dos impactos que
ele gera, uma vez que as políticas públicas adotadas foram
e continuam sendo fatores essenciais para sua manutenção.
Incrementar e expandir o cultivo da soja exige altos investimentos
em obras de infra-estrutura - para armazenagem e escoamento
da produção tanto internamente quanto para exportação -, que
resultam em grande impacto ambiental. Para se ter uma idéia,
o orçamento federal do programa Brasil em Ação para
1996/1999 (depois renomeado Avança Brasil) na
gestão Fernando Henrique Cardoso previa investimentos
de R$ 8 bilhões em obras de infra-estrutura, que beneficiavam
diretamente a soja, entre outros setores. Já o Plano Plurianual
(PPA) de 2000-2003, destinava, só no ano 2000, R$ 110 milhões
para investimento em sistemas de transporte ligados às zonas
de escoamento de soja. No último dia 3 de setembro, o governo
Lula divulgou o PPA 2004-2007, que está em tramitação no Congresso
Nacional.
Conforme notícia
publicada pelo ISA, do R$ 1,85 trilhão previsto para investimentos,
R$ 189,1 bilhões serão destinados a obras de infra-estrutura,
R$ 58,6 bilhões à exportação, e para o meio ambiente sobram
modestos R$ 6, 4 bilhões.
Entre os projetos de infra-estrutura previstos na região
do entorno do Parque Indígena do Xingu, que ameaçam os recursos
naturais, os rios e a sobrevivência das populações locais,
estão a Hidrovia Araguaia-Tocantins, o término do asfaltamento
da Rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163), a conexão entre
a Cuiabá-Santarém e a BR 158, a leste
do parque, e o asfaltamento da BR 242, que corta alguns formadores
do Rio Xingu e é conhecida como Rodovia da Soja.
Recentemente, o Grupo de Assessoria Internacional (IAG) do
Programa Piloto de Proteção às Florestas Tropicais Brasileiras
(PPG-7), propôs a revisão
das obras de infra-estrutura na Amazônia, uma vez que grande
parte delas não leva em conta a questão da viabilidade econômica
e a internalização dos custos socioambientais que implicam,
e sua liberação acaba condicionada apenas a decisões políticas.
Não bastasse isso, os investimentos do governo poderiam ser
reorientados no sentido de estimular alternativas econômicas
na Amazônia e no Cerrado, como o uso sustentável da biodiversidade
dessas regiões. Como exemplo, vale citar que a vegetação do
Cerrado abriga inúmeras espécies associadas ao uso medicinal.
Segundo a ecóloga Nurit Bensusan, do Instituto Socioambiental,
o mercado dos fitoterápicos, que são remédios derivados diretamente
de plantas, correspondia em 2002 a cerca de US$ 700 milhões
ou 7% do mercado de medicamentos do Brasil. Apostar nisso
significa não só estimular a preservação dos recursos naturais,
como também valorizar os conhecimentos tradicionais, especialmente
se se levar em conta que, segundo dados do Instituto Nacional
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama),
o mercado ilegal de biopirataria gera anualmente US$ 60 bilhões.
O planejamento integrado e a adoção da transversalidade com
parâmetros socioambientais para a elaboração das políticas
de desenvolvimento serão essenciais para mitigar impactos
e evitar ações governamentais contraditórias. Do contrário,
o quadro que está colocado no caso da soja continuará o mesmo:
de um lado, o estímulo fortíssimo à expansão do cultivo e
seus impactos; de outro, a adoção de políticas governamentais
para a conservação ambiental de áreas muitas vezes ameaçadas
pela própria produção agrícola.

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