O Vale do Ribeira que dá certo
Durante os debates sobre os benefícios e prejuízos que seriam provocados pela construção de barragens no rio Ribeira de Iguape, alguns defensores dos empreendimentos afirmam que sua construção é a única maneira de estimular o desenvolvimento do Vale do Ribeira e de gerar emprego e renda para sua população. Não é verdade. Hoje na região há uma série de projetos e ações de geração de renda e manejo sustentável de recursos naturais colhendo resultados positivos. Um bom exemplo é o turismo, que gera empregos tanto em Iguape e Ilha Comprida, no litoral, como em Iporanga e Apiaí, no Alto Vale. O investimento público em parques, estradas e roteiros, por sinal, comprova que o ecoturismo é uma aposta firme dos governos estadual e federal para toda a região.
Todo esse trabalho mostra que é, sim, possível aliar a geração de renda para as famílias com a conservação da natureza, estimulando o desenvolvimento local e aumentando as oportunidades para um número cada vez maior de pessoas.
Turismo
Navegar pelo Mar de Dentro de Cananéia para ver, fotografar e admirar botos, pássaros e a vegetação exuberante é apenas uma das opções turísiticas que o Vale do Ribeira oferece. Das praias da Ilha Comprida e Ilha do Cardoso, passando pelas cidades históricas de Iguape e Cananéia, até o turismo cultural nas comunidades quilombolas e a visita às mais belas cavernas do País, localizadas no Parque Estadual do Alto Ribeira (Petar), existem alternativas para todos os gostos e idades. “O potencial turístico do Vale do Ribeira ainda pode crescer muito, principalmente pela diversidade de opções”, avalia Anna Carolina Oliveira, assessora da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Regional do governo de São Paulo.
O turismo parece estar em uma rota firme de crescimento, após alguns anos de estagnação. A presença de turistas estrangeiros que visitam os parque da região para observar pássaros aumenta a cada ano. “Em 2002 alcançamos 48 mil visitantes, foi nosso auge. Depois veio uma queda, por falta de estrutura, estrada ruim, e pela concorrência de locais mais preparados”, afirma Vamir dos Santos, secretário de turismo de Iporanga. “Nossa esperança é o potencial da região, só no município temos quase 300 cavernas, sendo que apenas 16 são conhecidas e abertas a visitação”.
A prefeitura estima que de cada cinco moradores de Iporanga, um viva do turismo. Há 4 meses a prefeitura abriu uma casa de artesanato para atender os turistas que se hospedam na cidade. Com isso, aumentou o trabalho das oito artesãs do grupo Jangada, que produzem peças com a fibra do bambu taquara faz 4 anos. “Temos demanda fixa de São Paulo também”, diz a artesã Roseli dos Santos. “Por isso estamos precisando de mais gente para dar conta dos pedidos”.
Outros negócios se beneficiam do aumento do turismo. A venda de orquídeas e bromélias é um bom exemplo. “Nosso mercado é basicamente o turista que passa na estrada e visita nossa loja. Muitos compram 20, 30 plantas de uma tacada só, diz Eloi Cerchiari, proprietário de um orquidário na beira da BR-101, na altura de Registro.
Uma notícia positiva foi dada em novembro do ano passado, quando o governo do Estado de São Paulo conseguiu um empréstimo de U$ 9 milhões – o equivalente a R$ 20 milhões – com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para investimento exclusivo no setor. Como contrapartida o governo paulista se comprometeu a investir US$ 6 milhões em estratégias voltadas para o crescimento do turismo na região e para a preservação do meio ambiente. O contrato foi assinado no final de fevereiro passado. De acordo com consultores do banco, o desenvolvimento atual das atividades de ecoturismo, o grau de organização local, a riqueza do patrimônio da área e o potencial para contribuir com a melhoria da situação socioeconômica da região foram os fatores principais para que o empréstimo fosse feito.
Manejo Agroflorestal
Seu Olímpio Rosa da Silva passou mais de 30 anos extraindo palmito juçara das matas ao redor de sua casa, no bairro do Rio Preto, zona rural de Sete Barras. Era a forma que encontrava para arranjar algum dinheiro e sustentar a família. Hoje, aos 71 anos, Seu Olímpio é um dos maiores responsáveis pelo reflorestasmento desta espécie ameaçada de extinção nos arredores do parque Carlos Botelho, uma das principais áreas de preservação do Vale do Ribeira. É também o atual presidente da associação de moradores do bairro Rio Preto, entidade cadastrada na Fundação Florestal do Estado de São Paulo para a produção e comercialização de mudas e sementes de variedade florestais da Mata Atlântica.
O manejo do juçara também tem dado bons resultados em um projeto desenvolvido pela ONG Amainan Brasil e pela Kazita, empresa que já maneja adequadamente a palmeira há mais de 10 anos. A proposta é fazer o manejo das frutas desta árvore, produzindo um suco de alto valor energético e bastante similar ao já conhecido Açaí. A produção do suco é uma alternativa ao corte da palmeira, pois a renda obtida com o suco é maior. O projeto iniciou-se em Sete Barras, e realiza atividades também em Tapiraí, outro município do entorno do parque Carlos Botelho.
Seu Olímpio explica que a idéia de plantar juçara se deu por necessidade. “A gente se mantinha com a venda da banana, mas como a fruta caiu muito de preço, vimos que valia a pena recuperar bananal velho com reflorestamento de juçara. Nossa mata é muito crescedora.” Isso foi em 1997. De lá para cá o negócio cresceu e hoje a comunidade trabalha também com mudas de cerca de 30 espécies de madeiras nobres, como caixeta, ingá, umbaúba e cedro. O trabalho consiste na coleta das sementes na mata e o plantio nos três viveiros da associação para o crescimento da muda. Os viveiros do Rio Preto têm estoque de cerca de 50 mil mudas e o preço de cada uma varia de 50 centavos a 1 real, dependendo da espécie. O dinheiro arrecadado é dividido entre os associados e uma quantia fica reservada à manutenção da própria associação.
O melhor negócio feito pela associação do Rio Preto ocorreu em 2003, quando fez uma venda recorde de 36 mil mudas para uma empresa concessionária de estradas. “Todo mundo aqui reformou a casa e melhorou de vida”. Mas as oportunidades não pararam po aí. “Tem também muito fazendeiro que tem que pagar multa por desmatamento e compra nossas mudas”, diz Seu Olimpio. O líder comunitário diz que a demanda pelas mudas não pára de crescer. “A gente não tem como atender a todos, pois tem muita gente procurando muda, mesmo em bairros vizinhos, para reflorestar e vender”, afirma.
Maricultura
A geração de emprego e renda a partir da criação e venda de peixes, moluscos e crustáceos é um dos pontos mais fortes da economia da parte litorânea do Vale do Ribeira. A novidade é que as comunidades caiçaras estão conseguindo se organizar para que sua produção seja cada vez maior e cubra, além de suas necessidades de subsistência, as demandas do mercado regional e mesmo nacional.
O maior exemplo disso é a Cooperativa dos Produtores de Ostras de Cananéia (Cooperostra) que, no verão, comercializa em torno de 1.500 dúzias por semana. Neste período de intensa produção, cada um dos 35 cooperados chega a ganhar R$ 640 reais por semana. “Nossa grande conquista foi poder manter a produção durante o defeso da ostra, de dezembro a fevereiro”, diz Francisco Mandira, um dos administradores da cooperativa. “Pois é nessa época, quando a extração do mangue é proibida, que a demanda pelo produto chega ao máximo em razão dos turistas que vão para o litoral”.
Francisco explica que até meados dos anos 1990 os 140 coletores de ostra da região não realizavam nenhum tipo de manejo na extração. Não respeitavam o tamanho mínimo de coleta do molusco – 5 centímetros – nem o período de reprodução da espécie, o chamado defeso. Os caiçaras ainda vendiam as ostras em grande quantidade e com preço baixo para atravessadores, os únicos com acesso ao mercado consumidor.
Em 1994 a comunidade começou a discutir formas de mudar essa situação e, em parceria com a Fundação Florestal de São Paulo, fez o primeiro viveiro de engorda, na comunidade Mandira, em Cananéia. “Deu muito certo, pois as ostras ficaram maiores e com uma melhor aparência, agregando valor a produção. Logo outras comunidades caiçaras começaram a trabalhar com viveiros também”, lembra Francisco Mandira. Ele conta que em 1997 o grupo se reuniu e resolveu cortar a venda para os atravessadores e abrir uma cooperativa, onde todos os coletores seriam donos do negócio.
Hoje a Cooperostra tem uma unidade beneficiadora, onde as ostras passam por um processo de depuração em tanques com água esterilizada. Esse padrão de higiene possibilitou que a produção recebesse do Ministério da Agricultura o certificado do Serviço de Inspeção Federal (SIF), o que a qualifica a buscar os mercados mais exigentes do País, como São Paulo. Outro marco do sucesso da empreitada se deu em 2002, durante a Conferência Rio+10, em Joanesburgo, na África do Sul, quando a cooperativa ganhou reconhecimento internacional como iniciativa bem-sucedida de desenvolvimento sustentável e de combate à pobreza e um prêmio de U$ 30 mil oferecido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
O êxito na criação de ostra tem inspirado outras atividades na maricultura. A engorda de camarão-rosa, para a produção de isca-viva, de robalo e o manejo do siri-mole e do mexilhão também estão sendo feitos em projetos-piloto, principalmente em comunidades da Ilha Comprida e em Cananéia. A idéia dos projetos é conquistar uma produção constante dos frutos do mar para que a renda dos trabalhadores não caia durante o perído de defeso das espécies. “A pescaria tradicional não está mais sendo sufuciente para manter as famílias, então a saída vai ser cultivar a espécie em cativeiro”, diz Douglas Aguiar, que mantém um viveiro de engorda com 4 mil robalos em Ilha Comprida.
Comunidades quilombolas e agricultura familiar
As comunidades quilombolas do Vale do Ribeira estão buscando o crescimento econômico a partir da combinação de diversas ações que valorizem os recursos naturais de suas terras. O turismo, a pesca, a agricultura orgânica e o artesanato são bons exemplos de caminhos de geração de renda que já trazem resultados positivos.
A comunidade de Ivaporunduva, entre Eldorado e Iporanga, tem tido sucesso na produção e comercialização da banana orgânica e no reflorestamento de palmito juçara. No ano passado, a comunidade vendeu 44 toneladas para o Ceasa de Campinas e agora investe no processamento da fruta, com a construção de uma fábrica no quilombo para a feitura de banana-passa e doce de banana. A produção orgânica segue sendo a maior aposta da comunidade para atingir um mercado diferenciado. Já são 32 produtores orgânicos certificados. “Temos certeza que o mercado de alimentos orgânicos só vai crescer no Brasil e, além do mais, quem planta com agrotóxicos tem que desmatar, e isso nós não fazemos aqui”, diz Setembrino Marinho, coordenador da atividade na comunidade. Muito pelo contrário, o outro negócio que avança no quilombo é o reflorestamento de palmito juçara. Nos últimos 4 anos, 200 hectares do território receberam 4 mil quilos de sementes da espécie nativa. No ano passado, a comunidade quilombola de São Pedro também iniciou o reflorestamento, com o plantio em multirão de 800 quilos de semente.
A região do Alto Vale do Ribeira, que inclui os municípios do lado paranaense, também é marcada pelo fortalecimento da agricultura familiar. Em Cerro Azul, a principal cidade da região, a Cooperativa de Crédito Rural (Cresol) tem recebido um volume de recursos cada vez maior do Pronaf, o programa do governo federal para o setor. Segundo João Carlos Hilman, presidente da Cresol, quando a organização chegou ao município, em 2002, os recursos federais repassados aos agricultores da região eram inferiores a R$70 mil ao ano. Em 2005, mesmo com a criação de uma nova cooperativa na vizinha Adrianópolis, que retirou mais de cem associados de Cerro Azul, os repasses chegaram a cerca de R$ 1 milhão. Como essa capitalização, há recursos para ajudar no financiamento de novas casas nos bairros rurais: no ano passado foram construídas 48 e para esse ano estão previstas cerca de 220.
Outro projeto que vai ao encontro dos interesses de pequenos agricultores do vale está ocorrendo em Registro. Trata-se da reforma da Central da Agricultura Familiar, que vai otimizar o transporte e o escoamento da produção dos mais de 1.500 pequenos produtores. “Essa central vai ser uma prestadora de serviço, pois vai vender em maior quantidade e melhores preços”, diz Ana Rebeschini, diretora do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Vale do Ribeira (Sintravale). Ela prevê que a central esteja em funcionamento no segundo semestre deste ano.


