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Movimento dos Atingidos por
Barragens - MAB
Organização com abrangência nacional tem reivindicações que vão além das indenizações
Foi para lutar contra esse tipo de situação que se formou o Movimento dos Atingidos por Barragens. Atualmente, uma das principais reivindicações do MAB é a melhor utilização do potencial energético já existente, por meio da conversão de recursos para novas usinas em investimento para reformulação de empreendimentos antigos, sanando erros técnicos, de planejamento e falta de melhorias. Outro obstáculo é a perda de 35 a 40% na transmissão de energia, o que acontece devido ao sucateamento do sistema, segundo Hélio Meca. O MAB reivindica ainda o investimento em novas máquinas consumidoras, como forma de economizar energia, e o incentivo a outras formas de geração de energia, como a solar, geotérmica, as células de hidrogênio a energia eólica, entre outras.
Mas a denúncia mais grave é resumida nas palavras de Meca: "as barragens fazem parte de um processo faraônico de construção de obras, lavagem de dinheiro, corrupção e favorecimento de empresas nacionais e internacionais".
Para se ter uma idéia do interesse econômico que esse tipo de empreendimento gera, um dia de produção em Itá (RS), que é uma usina de 1.400 KW, gera R$ 800 mil. Enquanto o governo privatiza esta fatia do mercado, continua responsável pelos deficitários serviços de transmissão.
Um exemplo do tipo de atividade conduzida pelo MAB aconteceu no dia 20 de fevereiro, quando um grupo de 300 atingidos ocupou terras da Barragem de Machadinho, no Município de Maesa (RS), pois a empresa responsável não os reconhece como atingidos. Além disso, está sendo feito um levantamento sobre casos pendentes de resolução, como o da Serra da Mesa (GO), Itá (RS), Tucuruí (PA), Itaparica (BA), para chamar as empresas responsáveis e discutir o problema, além de servir de base para a discussão sobre novas barragens.
| Entrevista
com Sadi Baron do MAB |
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Entrevista
concedida pelo agricultor catarinense Sadi Baron, um dos
coordenadores do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) a
Marco Antonio Gonçalves (ISA-DF) no dia 14 de março,
detalhando as razões das manifestações no Brasil
e em 20 países do mundo.
ISA: Uma das reivindicações
do MAB é "a democratização da política
energética". O que significa democratizar a política
energética?
Sadi Baron:
A política energética no Brasil historicamente tem sido
implementada de forma autoritária, pois até hoje os atingidos
pelos projetos não têm participação no processo decisório.
Primeiro, se decide que vai se construir a barragem e depois é
que os atingidos ficam sabendo, depois que o cronograma e tudo
mais está decidido. Nada mudou, mesmo com a criação da Aneel
(Agência Nacional de Energia Elétrica), que diz ter um
processo mais democrático. É caso da UHE Foz de Chapecó (SC),
que já está em processo de licitação e até agora não tem
nenhuma segurança para os atingidos, mas as empresas têm todas
as seguranças garantidas pelo governo. Nós precisamos abrir
este processo. Uma das recomendações da própria Comissão
Mundial de Barragens (CMB), em que a próprio Banco Mundial e a
Eletrobras participam, é que tenha um processo de consulta
prévia às populações. É isso que exigimos do governo
brasileiro. O Banco Mundial, que é conservador, concorda com
esse processo, mas o governo brasileiro, não.
ISA: O que diz este relatório
da CMB?
Baron:
As recomendações deste relatório mostram que se deve inverter
essa lógica da construção de barragens. Primeiro, tem que se
discutir alternativas à energia hídrica, que não é uma
energia limpa, como dizem. Afirma que a questão social é
gritante, não só no Brasil. Devemos ter 30 mil famílias
pendentes, desde a década de 80, quando foram construídas
Itaparica (PE) e Tucuruí (PA), e até hoje aguardam pelas
indenizações. O relatório também diz que estas pendências
precisam ser resolvidas, e o MAB exige que antes que se
construam novas barragens que se resolva o problema destas
antigas.
ISA: Um documento do MAB afirma
que 1 milhão de pessoas foram desalojadas pela construção de
barragens nos últimos 30 anos no Brasil. Você informou que 30
mil famílias atingidas (cerca de 150 mil pessoas) aguardam
solução para seus problemas. O que aconteceu com as 850 mil
restantes? Foram assentadas?
Baron:
Sim, um milhão de pessoas já foram desalojadas de suas
propriedades ou de onde moravam, sejam indígenas sejam
agricultores, resultado do processo de construção de mais de
2.200 barragens já construídas no Brasil. São dados da Aneel
e tem algumas que não são para a produção de energia
elétrica, mas para irrigação. O que nos preocupa é que se as
494 barragens previstas no Plano 2015 da Eletrobras forem
construídas, poderemos desalojar mais 1 milhão de pessoas.
Isso nos preocupa.
ISA: Mas o que aconteceu com as
850 mil pessoas atingidas?
Baron:
A maioria delas foi para a periferia dos grandes centros
regionais. A lógica do governo é pagar a indenização em
dinheiro, o que aumenta o êxodo rural. Portanto, as barragens
estão contribuindo para o aumento dos sem-terra e do
desemprego. Isso é constatado. Na barragem de Itá (RS), onde
tivemos maiores avanços na área social, das três mil
famílias afetadas nós conseguimos reassentar em torno de 700
famílias. O restante, segundo pesquisas feitas pela
Universidade de Chapecó, foram para a periferia das cidades,
como Chapecó ou Concórdia. E aí, é o que sabemos:
criminalidade, aumento da violência...
ISA: O MAB teve um encontro com
o presidente Fernando Henrique em julho do ano passado. Qual o
resultado?
Baron:
A pauta é a mesma que estamos trazendo agora. Queremos que haja
uma intervenção do governo federal para que solucione as
pendências, pois é inaceitável que continuemos construindo
barragens sem resolver os casos pendentes. Uma outra questão é
que queremos rediscutir o planejamento energético. O Brasil é
o país da América Latina que tem mais barragens em
construção. Temos 42 barragens em construção. O presidente
da Aneel disse que tem mais 27 barragens para ser licitadas este
ano. Ou seja, são quase 60 usinas em construção ou para ser
licitadas. Estamos querendo rever este modelo, porque hoje quem
consome a energia no Brasil são as grandes indústrias, que
são responsáveis por praticamente 60% da energia consumida.
Por outro lado, só no Pará nós temos 98% da população do
meio rural sem energia elétrica, pois não há política para
levar energia a essas pessoas. Para os ricos, para as empresas,
tem energia. Para os pobres, não.
ISA: Aliás, Tucuruí, no Pará
foi construída para atender indústrias de alumínio,
eletrointensivas, voltadas para o mercado externo...
No norte de Tucuruí tem
energia sobrando, para a Alumar e a Alunorte, que transformam
energia em alumínio para exportação. Lá na região de
Tucuruí, as linhas de transmissão passam por cima das
populações, inclusive desalojadas pela barragem, que vivem às
escuras. Isso é inaceitável. É importante dizer: muitas das
grandes indústrias que consomem energia exportam sua
produção. Portanto, o Brasil é indiretamente um exportador de
energia. As grandes indústrias, que praticamente são proibidas
de se instalar nos países do Norte, estão vindo para o Brasil,
para a Colômbia, onde tem muitos rios para a construção de
grandes barragens, energia subsidiada e podendo poluir bastante.
Poluir, em dois sentidos: na industrialização, quando
transformam energia em produtos, e quando constroem a barragem,
pois os lagos contribuem com a emissão de gases de carbono. Há
estudos da CMB que mostram que Tucuruí emite um gás em maior
quantidade que a cidade de São Paulo. Ou seja, a energia
hídrica não é uma energia limpa, como todo mundo fala. Hoje,
temos várias fontes viáveis que poderiam ser exploradas em
todo o Brasil, não só no norte, como a energia solar e a
eólica, mas não tem investimentos aí. Em 1999 fechou a
última fábrica nacional de placas fotovoltáicas. Aí não tem
subsídio, mas o governo está subsidiando a importação de
turbinas (para hidrelétricas). E aí a gente vê claramente que
essa política do governo não é para desenvolver o país, mas
para contentar as grandes multinacionais.
ISA: Uma das reivindicações
que vocês pretendem apresentar aqui em Brasília é a criação
de uma legislação que trate dos direitos das populações
atingidas por esses empreendimentos. Como ocorre hoje?
Baron:
Hoje, a barragem é licitada, o empreendedor que vencer a
licitação vai discutir com a população as condições para
sua realocação, se vai reassentar, se vai pagar o valor das
terras. Isso não pode acontecer no meio rural de um país onde
a população tem um nível baixo de informação, com um
analfabetismo grande. Você joga essa população nas mãos de
uma multinacional que vem para explorar e ganhar dinheiro e que,
portanto, vai querer gastar o mínimo possível com isso. Isso
não pode acontecer. O governo tem que dar toda a segurança
para que cidadãos brasileiros não sejam lesados.
ISA: Qual a proposta para essa
questão?
Baron:
Nós temos uma proposta mínima, de critérios nacionais, onde
se prevê que, primeiro, qualquer barragem para ser construída
tem que ter o consentimento prévio da população a ser
atingida. Segundo, se for construída, deve haver um acordo
prévio com essa população, com um cronograma de todo o
processo de realocação, se vai ter reassentamento e em que
condições, questões relacionadas ao crédito, às
benfeitorias, que as populações possam escolher os locais para
onde vão. Estes critérios já foram elaborados e, inclusive,
entregamos um documento para a Casa Civil, para a Aneel e para o
Ministério das Minas e Energia no dia 20 de fevereiro.
Conversamos também com deputados, mas é uma lei complexa, que
pega interesses de vários ministérios. Não sei se seria uma
lei, mas critérios internos do Ministério das Minas e Energia.
Quando uma empresa entra numa licitação, quer ter todas as
garantias de que não vai perder seu investimento, e o governo
dá estas garantias. Mas para a população atingida, não tem
garantia nenhuma. O governo tem que dar estas garantias para
nós.
ISA: A fase em que o Estado era
o empreendedor praticamente se foi. Agora, quem vai construir as
hidrelétricas são as empresas. Para os atingidos, é pior
negociar com o Estado ou com a iniciativa privada?
Baron:
O Estado tem o papel de fazer uma barragem para o bem público,
para atender a população...
ISA: Mas isso é teoria, vide
Tucuruí...
Baron:
É, é a teoria que eles usam. Nós preferimos mil vezes
negociar com o governo porque tem uma flexibilidade. A empresa
privada tem um escritório lá em Washington que manda
representantes aqui para encaminhar as questões e é difícil
negociar com os caras. E aí usam o aparato do Estado para
conseguir implementar o projeto deles para ganhar dinheiro. Essa
é a lógica. Preferimos negociar com o governo, com o que é
nosso, até porque a energia elétrica é uma questão
estratégica, que não pode ser privatizada, tem que ficar com o
governo, inclusive como meio de conseguir dinheiro para atender
outras demandas sociais. Em 1999, o lucro da Eletrobras foi de
quase R$ bilhões de reais. É um setor altamente lucrativo. E o
interessante é que as obras de menor risco não estão sendo
construídas pela iniciativa privada. Belo Monte
(ex-hidrelétrica de Cararaô, planejada para o rio Xingu, no
Pará) é uma obra de alto risco, o Estado vai tem que bancar,
vai gastar bilhões de dólares e depois vende por menos para a
iniciativa privada. Foi o que aconteceu com Porto Primavera (no
rio Paraná, que foi rebatizada Sergio Motta): o custo dela
chegou a quase R$ 10 bilhões e hoje estão querendo vender por
R$ 1,5 bilhão. Esta é a forma que o Estado está usando para
transferir dinheiro público para a iniciativa privada.
ISA: Vocês mencionam em um
documento que a mobilização dos atingidos por barragens tem
conseguido conquistas, como cancelamento de projetos, pagamento
de indenizações mais justas etc. Cite exemplos.
Baron:
Cancelamento, uma é Belo Monte, no Pará, que agora estão
querendo retomar em outros moldes. Tivemos também em Machadinho
(no rio Uruguai) a mudança de eixo, diminuindo a população
atingida de quase cinco mil famílias para a metade disso. Em
Minas, teve a UHE Pilar, construída pela Fiat, que foi suspensa
porque o EIA-Rima não foi aprovado. E tem a UHE Foz de
Chapecó, que está parada já faz três anos por pressão da
população. Em São Paulo, temos a UHE Tijuco Alto, no Vale do
Ribeira (sul do Estado), que era um complexo para ser
construído e nenhuma saiu do papel por causa da resistência da
população.
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