Ao longo de seus 2,3 mil km, o Rio Xingu atravessa a parte leste do Estado do Mato Grosso e corta o Estado do Pará até desembocar no Rio Amazonas, na cidade de Porto de Moz, formando uma bacia hidrográfica de 51,1 milhões de hectares (equivalente à área de dois estados de São Paulo). A Bacia do Xingu, da qual fazem parte 35 municípios, é habitada secularmente por povos indígenas. São dez mil índios de 20 etnias diferentes - 14 delas no parque - que fizeram do rio a base de suas atividades tradicionais, ritos e intercâmbio cultural entre si. Além deles, a região concentra cerca de 450 mil não-índios, e as nascentes ou cabeceiras do Xingu se localizam em meio a um dos maiores pólos agropecuários do país, exatamente no leste matogrossense.
A
formação
dessa região produtora remete aos anos
1960, quando o governo federal estimulou os primeiros grandes
empreendimentos de pecuária na região através da
Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia).
Uma etapa paralela dessa estratégia de ocupação
não-indígena foram os projetos estatais e privados de
colonização, que trouxeram consigo a produção
de arroz na década de 1970 e, a partir dos anos 1980, a da
soja. Com a forte valorização do cultivo nos anos 1990,
a soja rapidamente conquistou a preferência dos produtores da
região, e intensificou o desmatamento - que hoje corresponde
a 1/3 de toda a cobertura vegetal original – através da
expansão da fronteira agrícola para o cerrado, para a
floresta de transição dentro do bioma amazônico e
até para antigas áreas de pastagens (veja item
Desmatamento
abaixo)
 Floresta de transição na região do Xingu (maio de 2003)
 Nascente degradada do Rio Manitissauá-Miçú a oeste do Parque (maio de 2003)
 Área de Cerrado no limite sul do Parque Indígena do Xingu, no município de Gaúcha do Norte (maio de 2003)
Tudo
isso aconteceu sem planejamento ambiental, tendo como resultado a
supressão de vastas extensões de
mata ciliar
(veja o item Glossário no menu à esquerda).
A eliminação da vegetação fez com que as
chuvas depositassem grande quantidade de sedimentos nos rios,
provocando assoreamento, e a destruição das matas
ciliares das nascentes causou o desaparecimento de muitas delas. A
situação tem gerado preocupação para os
povos indígenas, em especial os que habitam o Parque do Xingu,
que têm sua sobrevivência e sua vida cultural diretamente
ligadas ao rio e seus afluentes.
Desmatamento
O ISA vem monitorando regularmente o desmatamento na Bacia do Xingu por meio de seu laboratório de geoprocessamento. O mais
recente estudo sobre o assunto, lançado em março de 2006, é a nova versão do mapa Cabeceiras do Rio Xingu. Para o período entre 2003 e 2005, a publicação registra mais 1.259.022 hectares desmatados em área de floresta (ou 7,08% do total) e cerca de 266 mil hectares (1,5%) em áreas que já sofriam algum tipo de alteração. Em relação a áreas que permanecem desmatadas desde o ano 2003, o mapa revela um total de mais de 4 milhões de hectares.
 Área do assentamento Martins I, do Incra, localizado na região das nascentes do Rio Culuene (maio de 2003)

Desmatamento próximo de área alagadiça (julho de 2003)
Esse ritmo de desmatamento está fortemente ligado à expansão
do cultivo da soja na região. Até 1994, a área
desmatada na região era de 2 milhões de hectares, o
equivalente ao Estado de Alagoas. Daquele ano até 2003, o
desmatamento foi o dobro disso. Esse período coincide com a
expansão do cultivo da soja, que trouxe desenvolvimento
econômico, sem nenhum planejamento ambiental.
Rios importantes como o Curisevo, o Culuene e o Suyá-Miçu – na porção leste/sudeste da Bacia do Xingu - já
apresentam problemas graves de diminuição do volume
hídrico, conforme constatado pelas expedições
realizadas pela Associação Terra Indígena do
Xingu (Atix) e pela equipe do Programa Xingu do ISA às áreas
de entorno do Parque do Xingu. No lado oeste, a situação
não é diferente. Só no município de
Cláudia, sete nascentes do rio secaram, conforme levantamento
feito pelo Grupo Agroflorestal de Proteção Ambiental
(Gapa).
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