A partir do final do século XIX, os grupos de seringueiros foram aos poucos ocupando a região de acordo com a localização dos seringais. Diversas comunidades se formaram em vários pontos ao redor dos principais barracões onde era comercializado o látex. Durante o período áureo da borracha, havia uma numerosa população vivendo ao longo dos rios da Terra do Meio. Não há levantamentos precisos sobre essa população à época, mas sabe-se que chegava à casa dos milhares, número muito superior ao atual. Nos anos 1940, a região do Riozinho do Anfrísio, por exemplo, chegou a contar com cerca de 200 famílias.
Em épocas diferentes, o povoamento não-indígena da Terra do Meio também esteve associado às medidas emergenciais do governo de realocação das vítimas das secas no Nordeste. Estima-se que cerca de 500 mil migrantes nordestinos tenham se deslocado para a região Norte do País desde meados do século XIX. Durante a II Grande Guerra, o Estado brasileiro estimulou e organizou a migração para aumentar a produção da borracha e atender a demanda gerada pelo conflito mundial. Os “soldados da borracha”, como ficaram conhecidos esses trabalhadores, e suas famílias foram deixados na floresta em condições de vida precaríssimas e sem nenhum tipo de proteção social.
A migração favoreceu o surgimento de uma população cabocla, descendente de índios e não-índios. A adaptação dessa comunidade ao meio ambiente – com o aprendizado, o acúmulo e a reprodução de um conjunto de conhecimentos e práticas de manejo dos recursos naturais – deve muito à miscigenação.
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| Os beiradeiros mantém até hoje o modo de vida baseado no extrativismo. Moradora beneficia a andiroba para produção de óleo.
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A exploração e comercialização da seringa eram feitas por um contrato de arrendamento entre o governo e os seringalistas ou “patrões” da seringa. No contrato, eram concedidos o uso e a exploração da terra, que se mantinha propriedade do Estado. O seringalista pagava o governo com sua produção. A relação entre o seringueiro (extrativista), patrões e comerciantes locais se dava por meio do sistema de aviamento: o seringalista ou um comerciante, dono dos barracões (aviador), fornecia mercadorias e crédito aos seringueiros. Nesses locais, os trabalhadores trocavam sua produção por roupas, equipamentos e outras mercadorias com preços inflacionados. O resultado era uma dívida permanente dos seringueiros para com os arrendatários dos seringais, que, por sua vez, tinham dívidas com o fornecedor de mercadorias da cidade mais próxima e responsável pelo envio da borracha às casas exportadoras em Belém ou Manaus.
Decadência
Entre os anos 1950 e 1960, com a criação de materiais sintéticos substitutos à borracha a economia baseada nos seringais entrou em decadência e a população local diminuiu bastante. Com a saída de cena dos grandes seringalistas, uma parte da população de extrativistas permaneceu exercendo a posse dos locais onde morava.
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| Casas também continuam sendo bem simples, de pau-a-pique, algumas revestidas com o barro branco, e recobertas de palha de babaçu.
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Após a década de 1970 e até os anos 1980, a ocupação foi influenciada pelas atividades de garimpo e pela abertura das rodovias Transamazônica (BR-230) e Cuiabá-Santarém (BR-163). A nova leva de migrantes chegou com a exploração do ouro e foi numericamente inferior àquelas dos ciclos da borracha, mas encontrou um terreno já em parte esvaziado pelo êxodo rural, o que deixou muitos espaços vazios para ocupação. Alguns integrantes desta população flutuante dos garimpos podem ser encontrados hoje morando ao longo dos rios Iriri e Curuá, vivendo da mesma maneira que a população originalmente vinculada à exploração da borracha. Uma parte da população tradicional ribeirinha também se engajou na atividade garimpeira temporariamente, retornando aos seus locais e costumes antigos com o arrefecimento da atividade, no final dos anos 1980.
Extrativismo
A quase totalidade dos “beiradeiros”, como são conhecidos os ribeirinhos, mantém até hoje o modo de vida baseado no extrativismo, na pesca, um pouco de caça e na agricultura de subsistência da mandioca, arroz, feijão, milho e abóbora. São plantados ainda a laranja, o café, o caju e a pimenta-do-reino. Suas casas, em geral, também continuam sendo bem simples, de pau-a-pique, algumas revestidas com o barro branco, e recobertas de palha de babaçu. Há mais de 30 anos não existe escola, posto de saúde ou qualquer tipo de infra-estrutura básica na região.
As relações de dependência econômica estabelecidas com alguns empresários continuam fazendo parte do dia-a-dia dos beiradeiros. A diferença é que, antes, as dívidas impagáveis eram firmadas com o seringalista e, hoje, os credores são os chamados “regatões”, comerciantes que cruzam os rios da região trocando a produção local de castanha, peixe e óleos de andiroba e copaíba por produtos de primeira necessidade a preços escorchantes. Por sua vez, os regatões também estão submetidos aos preços impostos pelos grandes exportadores de matérias-primas de Altamira e de Belém.
Para se ter uma idéia da exploração econômica sofrida pelos ribeirinhos, basta dizer que eles são obrigados a comprar uma barra de sabão em pedra, um quilo de açúcar ou um litro de óleo por R$ 5,00, o que corresponde a uma caixa de castanhas (entre 25 e 30 quilos). Em média, uma família consegue coletar de 150 a 300 caixas por ano.
Mas os beiradeiros não dependem do regatão apenas para compras básicas. Na maior parte das vezes, o único meio de transporte da comunidade continua sendo a canoa ou a rabêta, uma espécie rudimentar de motor de popa. Por isso, os moradores têm de contar com boa vontade dos comerciantes ambulantes para transportar pessoas doentes e até falecidas em viagens que podem durar até cinco ou seis dias até Altamira, a cidade mais próxima por via fluvial.
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| A canoa continua sendo o meio de transporte principal na Terra do Meio.
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