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Intercâmbio Xingu e Vale do Javari: o drama dos Matis
O intercâmbio entre professores indígenas Ikpeng, do Parque Indígena do Xingu, e Matis, do Vale do Javari, superou as expectativas. Povos tão distantes geograficamente, possivelmente teriam poucas chances de se conhecerem, se não fosse o apoio e incentivo da instituição Terre des Hommes – a TDH - que financia projetos no Brasil que beneficiam crianças e adolescentes .
Apesar das trocas intensas e permeadas de muita emoção, o desfecho do intercâmbio desembocou numa triste realidade que assola os povos do Vale do Javari, em especial o povo Matis. Presenciamos a morte dramática e angustiante, de uma mulher jovem, grávida de 7 meses, acometida pela Hepatite B, malária e apresentando sintomas de SFIHA (síndrome febril íctero-hemorrágica aguda).
Nossa viagem teve início no dia 9/9/2006 quando saímos da aldeia Moygu, única aldeia Ikpeng localizada no Médio Xingu, próximo ao Posto Indígena Pavuru. Partimos eu, Rosana Gasparini, Maiua Txicão, professor da Escola Indígena Estadual Central Ikpeng e Tawarero Ikpeng, aluno de 6a etapa e uma das lideranças jovens Ikpeng.
Saímos de Canarana no dia 13, passando por Brasília e Manaus, chegando nas cidades de referência para a entrada no Vale do Javari, Tabatinga do lado brasileiro e Letícia do lado colombiano, no dia 14/09.
Iniciamos a viagem para o Vale no dia 16/09, num percurso que duraria 3 dias e 2 noites e meia em canoa dos índios Matis, realizando poucas paradas para banho e banheiro. A embarcação é uma canoa tradicional de aproximadamente 12 metros e é movida pelo motor de rabeta 13 HP, também conhecido por peque-peque.
O início do percurso se dá pelo rio Solimões, saindo pela cidade de Tabatinga em divisa com a Colômbia e o Peru. O combustível para as embarcações é comprado em balsas flutuantes localizadas na extensão das margens do rio, que se tornam extremamente poluídas por óleos e dejetos domésticos lançados a revelia. No mesmo local se vê a população indígena que se encontra na cidade utilizando a água para banho e para cozinhar e a saída de grandes embarcações de turismo, que levam turistas estrangeiros em sua maioria..
Entrando no rio Javari passamos pelas cidades de Benjamin Constant e Atalaia do Norte, ainda no primeiro dia e por um longo percurso na divisa com o Peru, pudemos observar atividade intensa de extração de madeira. As toras ficam na água até serem recolhidas pelas serrarias.
Durante a madrugada alcançamos a confluência dos rios Itacoaí com o Ituí, localidade próxima da Terra Indígena do Vale do Javari, onde está instalada a Frente de Proteção Etno-Ambiental, um programa de parceria ente Funai e CTI para proteção e fiscalização da região. A Terra Indígena do Vale do Javari ocupa uma extensão de terra de 8.544.480 hectares e é ocupada pelos povos Kanamari, Kulina, Marubo, Matsé, Matis, Korubo, Tsohom Djapá e pelo menos 6 povos isolados.
Logo após um breve controle do pessoal que trabalha na Frente, para vistoria das bagagens e apresentação da autorização da Funai para a entrada na área, seguimos pelo rio Ituí, no sentido de sua nascente. Neste eixo localizam-se as aldeias dos povos Korubo, Matis, e Marubo à montante.
No segundo dia de viagem encontramos uma embarcação, um pouco maior que a nossa, também com motor peque-peque, que levava uma enfermeira e uma auxiliar de enfermagem, vindas de Atalaia do Norte, para visita e atendimento às aldeias Matis e Marubo.
Nossa primeira aportagem, no terceiro dia de viagem, foi na aldeia Beija-Flor, formada de uma divisão entre o povo Matis, há mais ou menos dois anos. Esta aldeia dista 8 horas de viagem da aldeia Aurélio, a principal e mais populosa aldeia Matis.
Fomos recebidos no centro da chubu (maloca), onde realizamos apresentações e expusemos a intenção de nossa visita, assim como compartilhamos a refeição que nos foi oferecida, no círculo principal, ocupado apenas pelos homens. Foi também o encontro com Rafael Pessoa, antropólogo do CTI, que está assessorando o trabalho de educação escolar indígena e que iria nos acompanhar durante os próximos dias. Fomos informados de um grave caso de saúde de uma moça, gestante, portadora da hepatite B e que contraíra malária. Sua remoção já havia sido solicitada pelo agente indígena de saúde, porém aguardavam a visita da enfermeira para confirmação e autorização da remoção.
Durante o tempo em que ficamos na aldeia, o professor Aldenilson Yõpa, que nos acompanhava desde Tabatinga, fez uma lâmina na UBS e constatou que estava com malária, assim como Conrado, assessor do CTI, durante outra viagem de intercâmbio que realizaram juntos.
Seguimos para a aldeia Aurélio, chegando à meia noite no porto, onde fomos recebidos por quase toda a comunidade que nos aguardava com grande expectativa. Ficamos nessa aldeia três dias, como combinado, concretizando enfim nossa expectativa de trocas, que foram intensas e permeadas de muita emoção.
O grande destaque foi o orgulho que os Matis sentiram pela desenvoltura do professor Maiua em retratar a realidade do Xingu e as conquistas que vêm alcançando frente aos novos desafios que a relação com a sociedade envolvente lhes coloca. Seu discurso teve o enfoque na participação da política educacional, na discussão das questões ambientais e principalmente na gestão da saúde.
No último dia de nossa estadia na aldeia (21/09), depois de vários relatos sobre a grave situação de saúde das aldeias Matis, chegaram enfim a enfermeira e a auxiliar, sendo que a primeira retornaria para a aldeia Beija-Flor para acompanhar o caso da moça que estava se agravando e a remoção enfim havia sido solicitada.
O discurso final, de despedida, do cacique Txëma, foi de resignação e incerteza sobre o futuro de seu povo, disse “estamos felizes por conhecer vocês e por terem nos falado muitas coisas sobre a vida de vocês, mas estou preocupado, pois não sei o que vai acontecer com meu povo, diga isso a seu povo para que possam nos ajudar”.
Seguindo para a aldeia Beija-Flor, na manhã do dia 22, encontramos o barco que levava a enfermeira, parado no rio, pois a falta de informação levou o piloto e agente indígena de saúde a fazer a mistura entre gasolina e óleo 2T de forma errada, prejudicando e paralisando o motor 25HP, que havia sido emprestado da aldeia dos Marubo, para essa situação de emergência. Levamos a enfermeira em nossa canoa.
A chegada em Beija-Flor foi desoladora, ninguém veio nos receber, sinal de que algo não estava bem. Já na aldeia, pouca conversa e nenhum acolhimento, percebia-se uma apreensão no ar, até que o cacique veio nos levar a uma casa, onde seríamos alojados. No final da tarde fomos chamados para o centro da maloca e a conversa fluiu, numa aparente serenidade. Uma matxon (mulher mais velha) entoava um canto triste e repetitivo, que era para acalmar e proteger as crianças.
Na madrugada, por volta de 3 horas, fomos informados que a moça estava vomitando sangue. Ninguém mais pode dormir só acompanhar o desenrolar dos fatos. As 6h25 a moça morreu depois de grave crise de hemorragia pela boca e pela vagina, segundo descrição traumática de Binã, seu parente.
O enfermeiro que veio numa viagem de três dias, pois seu barco parou para reparos, chegou para a remoção exatamente no momento do último suspiro da moça e foi quem constatou o óbito. Saiu apressadamente, após 15 minutos de permanência na aldeia, provavelmente com medo da reação da comunidade. Foram dez dias entre o pedido de remoção pelo agente indígena de saúde, a visita da enfermeira e a chegada de fato à aldeia, não houve nenhuma comunicação ou acompanhamento por parte de médicos durante esse período.
A finalização de nosso intercâmbio foi um misto de tristeza e indignação, pois ficamos sabendo que óbitos desse tipo são recorrentes e têm afetado grande parte da população jovem entre 15 e 20 anos. A constatação da presença de hepatite B e da SFIHA (síndrome febril íctero-hemorrágica aguda) na população Matis, ocorreu em 2001, quando realizaram exames sorológicos específicos, porém de lá para cá nada foi feito para o controle e prevenção, que se agrava ainda mais com a falta de controle sobre a malária que é um dos fatores de potencialização dessa doença, pois afetam o mesmo órgão, o fígado. É comum uma pessoa ter de 3 a 5 malárias ao ano.
O CTI elaborou um dossiê anexando vários documentos e informações e já encaminhou ações junto ao Ministério Público. Os Matis, que já tiveram seus piores momentos na época do contato, veêm-se hoje num retrocesso a esses tempos e assistem ao extermínio físico e cultural de seu povo, pois os velhos, assolados pela tristeza estão deixando de repassar o que sabem de seus ancestrais, não estão se enfeitando mais e nem realizando os rituais tradicionais, enquanto os jovens ficam relegados à maior aproximação da “atraente” cultura dos nawa (brancos).
Depois do retorno de nossa viagem soubemos que Rafael também havia saído da área com febre alta. O intercâmbio foi uma iniciativa da Terre des Hommes da Holanda, financiadora dos projetos de educação escolar indígena junto aos povos do Xingu, do Vale do Javari e os Yanomami, assessorados pelas Ongs ISA, CTI e SECOYA, respectivamente. Os Yanomami visitaram o Xingu em 18 de agosto de 2006, os Xinguanos visitaram os Matis em 15/09 e os Mayoruna visitaram os Yanomami também em 15/09.
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