O evento de formatura dos 23 alunos de seis comunidades, sendo quatro no Brasil e duas no lado colombiano, reuniu durante três dias, 11, 12 e 13 de maio, mais de 150 pessoas entre professores, alunos e familiares do Brasil e da Colômbia, além de representantes das organizações parceiras - ISA (Instituto Socioambiental), Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), Secretaria Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira - e da Câmara Municipal de Vereadores de São Gabriel da Cachoeira.
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| Os formandos da segunda turma do Ensino Fundamental da Escola Tuyuka
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No primeiro dia, os formandos apresentaram seus trabalhos de conclusão de curso (TCC), desenvolvidos por meio de pesquisas sobre diversos temas (tipos de pássaros utilizados na confecção de ornamentos cerimoniais, contagem dos velhos, Casas de Transformação e Origem do povo Tuyuka, cobras venenosas, entre outros) realizadas na escola e em suas comunidades de origem, aliando conhecimentos e metodologia de pesquisa modernas ao saber tradicional e valorizando o conhecimento dos anciões.
Jogos e brincadeiras tradicionais como o tiro de zarabatana e o peão de tucumã entre outras, marcaram o segundo dia, que se encerrou com uma missa no final da tarde, celebrada pelo padre indígena do Distrito de Pari-Cachoeira, o tukano Josimar Marinho.
Na manhã do 3º dia, na cerimônia de entrega do certificado de conclusão, emitido pela escola e reconhecido pela Secretaria Municipal de Educação, o professor e presidente da Associação da Escola Indígena Tuyuka Utapinopona (AEITU), Higino Pimentel Tenório, relembrou a importância da valorização da cultura tradicional para o fortalecimento do povo tuyuka. “Os velhos detém conhecimentos que nenhuma universidade pode dar aos jovens. Eles são as bibliotecas do povo tuyuka, e os jovens têm a oportunidade, por meio desta experiência de ensino de acessar este conhecimento que a Escola está também registrando dentro de uma política de fortalecimento da língua e de divulgação para a sociedade envolvente”.
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| Os Tuyuka dançam a dança do lagarto em frente à maloca
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Higino Tenório ressaltou ainda que só por meio da união dos povos tuyuka com os outros povos indígenas do Brasil se pode construir um futuro promissor às culturas que foram oprimidas desde a chegada dos europeus ao continente, pela tecnologia bélica e pela desvalorização daquilo que era dos indígenas. Após a entrega dos certificados os alunos e professores apresentaram dramatizações de passagens da mitologia e história tuyuka e cantos sobre a filosofia educacional da Escola Tuyuka.
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| Dentro da maloca, homens dançam a dança do chocalho (Kamokã Basa)
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À tarde se iniciaram as comemorações cerimoniais tuyuka na maloca com as mulheres fazendo pintura corporal nos participantes, e os homens conduzindo os cantos e danças (Kamokã Basa- dança do chocalho e Hiã Basa- dança do lagarto - que marcam esta época do ano no calendário ecológico tuyuka), que se estenderam até ao dia seguinte, quando os convidados partiram.
Valorização cultural e o fortalecimento do modo de vida
A Escola Utapinopona Tuyuka, que conta com o apoio da Fundação Rainforest da Noruega, adota metodologia de ensino por meio da pesquisa e tem se pautado pelo princípio de buscar o fortalecimento da cultura tuyuka. Assim o ensino se dá prioritariamente na língua tuyuka e os alunos são incentivados a pesquisar os conhecimentos de sua própria cultura a partir de conversas com os mais velhos e fazendo pesquisas bibliográficas. A gestão do território, através dos conhecimentos tradicionais de manejo ambiental, consiste em temática central na escola.
A língua portuguesa e os conhecimentos técnico-científicos não-indígenas são abordados de acordo com as necessidades e o interesse das comunidades. Nesta perspectiva a escola desenvolve atividades voltadas para a sustentabilidade, que visam contribuir para a contínua melhoria da qualidade de vida na comunidade como o manejo agro-florestal, reprodução e criação de peixes, avicultura, produção de artesanato e meliponicultura.
Por meio das pesquisas alunos, professores e integrantes das comunidades vêm realizando um trabalho de documentação dos conhecimentos tuyuka, além das publicações de livros sobre mitologia tuyuka, matemática, contos, manejo tradicional do meio ambiente, cerimônias tuyuka, animais do ar e animais da terra e um CD duplo de músicas tradicionais, resultado da documentação em áudio das cerimônias rituais, danças, cantos e mitos.
A escola, que se tornou referência na educação diferenciada indígena, e agora serve de modelo para a reformulação da educação escolar no município de São Gabriel da Cachoeira, conta também com uma turma de Ensino Médio desde agosto de 2005, permitindo ao povo tuyuka completar a formação de seus jovens para que eles possam permanecer em suas comunidades e nelas desenvolverem suas atividades dando continuidade ao seu processo de valorização cultural. Em julho deste ano os alunos que se formaram no Ensino Fundamental estarão ingressando no Ensino Médio.