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COSMOLOGIA   
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COSMOLOGIA

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São os mais velhos que detêm o saber tradicional, embora seu número seja proporcionalmente cada vez menor dentro do quadro populacional. Entre eles os mais renomados e, ao mesmo tempo temidos, são os xamãs, os quais desenvolvem um saber especializado e esotérico que lhes permite a comunicação entre o mundo social e o mundo espiritual.

Um breve resumo do saber cosmológico é apresentado a seguir. Lembramos que, por razões de pesquisa, os termos apresentados são de língua aparai, acrescidos quando possível de seus correspondentes em língua wayana. Vale salientar que nem sempre tais correspondências de sentido são possíveis, havendo vocábulos de uma língua que não possuem correlatos na outra, o que vem a reforçar a diferenciação lingüística (e étnica) entre os grupos.

A origem do mundo

Para os Wayana e Aparai as relações estabelecidas com os habitantes da mata ou dos rios são muito mais próximas do que aquelas travadas com os seres do céu ou do mundo subterrâneo. A terra é concebida como uma espécie de ilha redonda, cercada por água, que termina onde o sol se põe, num lugar habitado por algumas entidades que sustentam o céu nas costas. No passado, o céu e a terra encontravam-se conectados por uma montanha ou por uma liana.

A origem de todos os povos tem um local determinado, ao norte do rio Paru de Leste, na região próxima à serra do Tumucumaque e que, curiosamente, separa geograficamente os três atuais grupos territoriais. Entre a cabeceira deste rio e os formadores do rio Parumo, braço do rio Tapanahoni, Suriname (onde até há pouco tempo havia parentes residindo), os índios mencionam a existência de uma serra que separa os dois rios e que parece corresponder à montanha que liga os dois céus.

Existem dois céus sobrepostos: o mais baixo, kapumereru, a região dos cirros, onde moram os jorokó e os kurumu (urubus), residência do herói criador Mopó; e o mais acima, kapu, morada de Ikujuri e outras entidades sobrenaturais, onde estão as estrelas, o Sol e a Lua. Além deste céu, há um platô que se liga à terra, habitado por seres "parecidos com gente", Aparai com pele marrom escura; embaixo da terra, há uma outra camada onde vivem seres que não se parecem com gente, de pele parecida com os Aparai, com o corpo coberto de pêlos. Este mundo tem seu próprio sol.

Os seres que povoam o céu inferior, os jorokó e kurumu (urubus), ocupam um lugar de destaque na cosmografia. Os urubus são como “gente no céu”, vivendo em aldeias como os homens. Os Aparai e Wayana distinguem várias espécies de urubus, localizando-as em "aldeias" no espaço, para alguns, dispostas também em camadas. Há um mito muito conhecido por eles que explica a forte ligação cinegética que os liga aos urubus: graças às suas penas, obtidas através de um sistema de troca, os homens conseguem caçar melhor. Estes, por sua vez, devem deixar para os urubus os restos das carnes que não aproveitam. Já com relação aos jorokó, tanto seu conhecimento quanto toponímia são difusos e é com relação a eles que os Aparai e os Wayana estão sempre vigilantes e mais temerosos.

Princípio criador/transformador do universo: ikujuri

Como para muitos grupos da Güiana, prevalece a crença num poder supremo impessoal, que não exerce uma influência direta na vida dos Aparai e Wayana, e antecede a origem dos heróis criadores. Existem dois grandes heróis criadores: Mopó e Ikujuri e (ou Kujuli, em wayana). Ambos são responsáveis pela criação dos seres e elementos da natureza e pela atual configuração do Cosmos. Uma vez concluída a criação das coisas e cansados da desobediência dos seres por eles criados, estes heróis vão para o céu superior, perdendo definitivamente contato com os homens.

Os Aparai associam o "pai do céu", ou o grande chefe que habita os céus a Mopó, enquanto os Wayana a Kujuli. Os relatos míticos atribuem a Mopó a criação não só dos seres e elementos da natureza, mas também dos primeiros artefatos (feitos inicialmente do barro), pelas tecnologias que passaram a facilitar a vida dos homens e também o poder xamanístico. No entanto, em virtude de seu caráter ambivalente, nem sempre suas intenções benéficas são compreendidas, e nos mitos eles muitas vezes aparecem mentindo ou trapaceando. Distinto de Ikujuri, que no mito é chamado por termos de parentesco consangüíneo ("pai", "avô", "irmão"), Mopó é chamado sempre pelo termo afim, kono, que significa "cunhado". Vale lembrar que, no plano das relações sociais, esta é uma relação tensa que exige uma troca recíproca de favores. Poderíamos levantar a hipótese de que aí estaria sugerido que o princípio da criação/transformação, agindo sobre o mundo natural (sem a participação do homem), não cria uma situação de tensão ou conflito, enquanto que ao atuar no plano das relações humanas (Mopó cria os instrumentos para os homens e os ensina como transformar a natureza), engendra estados de conflito ou de competitividade. Note-se também que, em todos os momentos nos quais se estabelece uma troca recíproca entre homens e seres do universo, o tratamento entre eles se dá por categorias relativas à consangüinidade, o que poderia confirmar o modelo de relações sociais vigente nas Güianas onde o par afinidade/consanguinidade se expressa por relações de tensão/reciprocidade.

O termo Ikujuri aparece muitas vezes não como substantivo próprio, mas como uma forma adjetivante ("aquele também era ikujuri" ou "ele sabia ser ikujuri”), levando-nos a concluir que Ikujuri seria mais do que um “herói criador”, mas uma qualidade ou princípio "criador e transformador" atribuída a alguns seres (ou mesmo um princípio presente no mundo). Na realidade, parece ter existido mais de um herói criador, mais do que um Mopó, Ikujuri, ou seus descendentes que continuaram sua obra. A existência de Ikujuri no mundo permitiu que os elementos que dele fazem parte fossem criados e constantemente transformados (rios, plantas, animais etc.), o que explica a presença do uso do poder xamanístico nos mitos onde ele aparece. Se hoje a humanidade não participa mais diretamente desta transformação, o mundo continua passando por transformações: os jorokó apropriam-se de formas de animais para atacar, os xamãs poderosos transformam-se em onças, os seres que habitam as profundezas dos rios se antropomorfoseam etc.

Princípio vital: uzenu

Os humanos são dotados de uma tripla estrutura: o corpo, punu, seu princípio vital, uzenu e akuarihpo, que após a morte se desprende do corpo. O punu modela a imagem perceptível não apenas dos homens como dos animais, podendo ser entendida como o invólucro do princípio vital, que faz parte da constituição de todo ser orgânico (vegetal ou animal). A sombra, omore (omole, em wayana), é a projeção material de uzenu. Este tem a característica de ser "volátil", podendo facilmente desprender-se do corpo.

Há quatro formas do uzenu se ausentar do corpo: durante o sono, por agressão de um jorokó que voluntariamente ou por ordem de um xamã lhe rouba do corpo; por ocasião de um susto que a vítima sofra; ou em caso de morte. Apenas o xamã tem a capacidade de liberar seu uzenu de modo voluntário, durante o sono, numa sessão de cura ou ainda quando deseja agredir alguém. Seu uzenu provoca muito temor, pois é capaz de ser controlado e matar.

As crianças pequenas são as mais vulneráveis à perda de seu uzenu, pois o crescimento corporal está associado ao amadurecimento e fortalecimento deste princípio. Quando a pessoa vem ao mundo, esta energia vital está ainda em desenvolvimento, encontrando-se em formação até cerca dos três anos, coincidindo com o domínio motor da criança. Até essa idade, o uzenu ainda não está bem fixado ao corpo, sendo dependente do uzenu dos pais, o que explica toda uma série de cuidados que estes devam obedecer durante a gravidez, pós-parto, nos primeiros anos de vida da criança e quando esta fica enferma. É muito comum assistirmos às mães reproduzirem um mesmo gesto com as mãos, acompanhado de um sopro, sobre o corpo de seus filhos pequenos toda a vez que eles caem. Elas também se afligem muito com a possibilidade de levarem sustos e grande parte da fitoterapia abarca o universo infantil, apesar de hoje o consumo de medicamentos ocidentais integrar os cuidados com a pessoa.

Na morte, o uzenu se desprende completamente do corpo, atravessa as cordas da rede e sobe até o céu, perdendo definitivamente o contato com os homens. Alguns mencionam que após a morte, uzenu pode ir para xipahtai, descrito como um rio celeste, localizado numa serra muito alta no oriente. Referem-se a ele como o centro do mundo, a terra boa na nascente do sol. Nela ninguém precisa trabalhar, as casas não precisam ser refeitas, não é preciso plantar, pois, há de tudo e ninguém envelhece.

O contato com os seres da mata e do rio

Diferente dos joroko, inacessíveis, existem na natureza, nos domínio da água e da mata, seres visíveis, cujo simples contato pode ser fatal. Alguns têm correspondência com a nossa classificação zoológica e outros não. Os seres "imaginários" são postos no mesmo plano daqueles que existem realmente. Recorrer aos seres fantásticos é prova tangível de que o intelecto humano pode se abster de referentes empíricos e as operações mentais podem pré-existir aos dados zoológicos. Os animais mais temidos são as onças, como a kaokakoxi (onça de duas cabeça), cobras e lagartas. Entre os seres da mata são estes os considerados mais perigosos, pois nunca morrem ou não podem ser mortos, sob pena de provocar algum tipo de malefício: kaokokoxi ("lagarta/onça de duas cabeças"); kumepepyimo ("centopeia"); kutekute ("onça preta parecida com filhote de cão, quando se mexe com ela, aumenta de tamanho e nunca morre"); kaikuxi tymeremy ("onça pintada"); kaikuxi kapauimano ("onça vermelha"); maracajá ("onça pequena"); maxipurimo ("anta grande"); iou ("onça grande"); merimo ("onça que fica em cima da árvore"); turupereimo ("lagarta/cobra grande que existe na serra, a cor de sua língua é como a pena da arara").

Mas o que diferencia os seres "perigosos" dos demais? Em primeiro lugar, seu aspecto físico: cada um é, ou pode assumir a forma monstruosa de sua espécie, indicada pelo sufixo imo, como: arãtareimo (macaco guariba grande), mekuimo (macaco prego grande), maxipurimo (anta grande), etuimo (pica-pau grande), kapauimo (veado grande que carrega em sua garganta mel de caba) etc. Em segundo lugar, todos eles são "comedores de gente" ou canibais e, em terceiro, transitam pelos locais por onde circulam também os homens, na mata e no rio. Embora mencionem a existência de pássaros temidos, possuídos de jorokó, não existem seres celestes canibais. Como dizem, “antigamente pássaros e peixes eram como gente. Quando a gente vê um pássaro flechado é porque não se pode matar pois tudo ficaria escuro. Pássaro flechado tem dono”.

É, no entanto, o mundo aquático que ocupa um lugar privilegiado na vida do grupo, sendo um saber bastante disseminado e descrito com muitos detalhes. Nos locais mais fundos do rio, moram, em cada poço, zue, vários "bichos d'água", cada qual com "dono", que a todo momento podem atacar os humanos. Isto explica a evitação da navegação ou prática de banhos próximo aos locais mais profundos que todo indivíduo sabe identificar perto de sua aldeia e nas proximidades. O aspecto físico e o tamanho desses seres são muito variados, pois eles podem assumir a aparência animal, humana ou lembrar a forma de um objeto. São chamados de ihpory (ou ipo, em wayana), e cada um é também identificado pelo sufixo imo, que confere um aspecto exacerbado e monstruoso a sua espécie – tal como ocorre com alguns seres da mata considerados perigosos. Assim, maxipurimo refere-se a uma anta (maxipuri) grande, que mora numa das partes profundas do rio. Os ihpory somente se ausentam à noite de seus poços, que se escondem atrás das serras, vivendo em aldeias no fundo da água como na sociedade Wayana-Aparai.

Vale a pena observar que enquanto os ihpory, espacialmente detectáveis, não trazem doenças mas matam, os jorokó, cuja moradia é difusa, inversamente provocam doenças mas cujas conseqüências podem ser reparadas, curando ou evitando a morte. Isso cria uma situação de perpétua vulnerabilidade da humanidade diante do ataque de entidades maléficas. No caso das doenças e infortúnios provocados pelos jorokó, eles podem ser reparados ou "negociados", sendo os seus responsáveis os mesmos que auxiliarão na sua eliminação. Já o encontro com os ihpory e outros seres canibais, habitantes da mata, é sempre fatal.

A morte de alguns ihpory serviu de inspiração para nomear vários assentamentos, cujos "poços" servem hoje como espécies de marcos geográficos. A origem dos rituais e de toda a parafernália a eles associada é atribuída tanto a seres da mata quanto da água. Porém, são os seres da água, cuja toponímia é conhecida por todos, que exercem uma influência mais direta na vida cotidiana. A este fato devemos associar a importância que os rios exercem na dinâmica da vida do grupo: do ponto de vista da ocupação territorial e da exploração econômica, funcionando como canal de comunicação com os assentamentos e com os demais grupos territoriais e etnias. Isto explica porque o mundo aquático serve de grande paradigma sócio-simbólico.

O princípio controlador e a relação entre os seres

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O mundo não é pensado hierarquicamente e, como já foi dito, inexiste a idéia de um ser supremo atuando diretamente na vida dos humanos. Os princípios da natureza com os quais os homens têm contato não se colocam em oposição à sobrenatureza, mas a conflitos mútuos intermitentes. Se não existe a idéia de um ser supremo e se todas as formas de vida têm o mesmo livre arbítrio para provocar malefícios, é preciso que exista algum princípio no universo que proteja os seres da extinção. A natureza tem seus controladores que se relacionam com os homens, mas estes são de natureza distinta. Assim, existe um princípio controlador para cada domínio e espécie da natureza, que por ela zela e a controla. Com relação aos domínios da natureza, às plantas comestíveis e às caças, referem-se ao seu "pai", zumy. Fala-se de ituzumy, o "pai do mato", tunazumy, o "pai da água", kanazumy, "pai dos peixes", ywizumy, "pai da mandioca" (querendo se referir às plantas comestíveis) e tonsezumy, "pai da caça". Atribui-se a cada espécie um "chefe" ou tamuru. Deste modo, para os animais (onyky), referem-se aos onykyry tamuru ou kaikuxi tamuru. Kaikuxi, na língua aparai, significa "onça", que dentre todos os animais é o mais temido, o que poderia explicar a apropriação deste termo para designar também os "donos" dos animais.

O "tempo dos antigos", ou “mítico”, é caracterizado pelo tempo da ausência da diferenciação, quando todos seres se comunicavam entre si. Homens e animais possuíam os mesmos atributos e a metamorfose animal-humano era uma constante para resolver situações de crise, desobediência, abuso, excesso ou carência, provocadas, em última instância, pela conduta dos seres e dos heróis criadores. Porém, um dia, Ikujuri, cansado de tais abusos, decide romper essa situação de identidade, instaurando a alteridade: a diferenciação entre as espécies, entre os homens (étnica e lingüística) e entre vivos e mortos. A partir desse momento, a relação entre homens e animais se modifica: os homens passam a precisar caçar, pescar e a aprender a plantar para sobreviver. Algumas espécies do reino animal passam a ter um "dono" e, graças a eles, os homens conseguem mais facilmente caçar e pescar por meio de um "tratado" de concessões. Antes, a água era céu, os pássaros eram peixes e todos brigavam entre si. Hoje em dia, quando um peixe fica próximo à superfície da água, tornando possível pescá-lo, significa que seu dono está ausente, ou seja, que não está zelando por seus -poetory, ou aqueles que obedecem ao dono daquela espécie. Assim, dizem: “quando se vê muitos peixes é porque eles estão dançando”. Entretanto, se na época das secas há abundância de peixes, a pesca não pode ser feita sem restrição, pois isso provocaria a ira dos donos de cada espécie, resultando em doenças. No mato, igualmente conseguir caçar um animal significa que o dono daquela espécie o liberou. Explicam: “na mata, todos ipoetory andam juntos de seu dono”.

As plantas comestíveis são associadas aos "donos da mandioca", com quem se aprende a plantar e a preparar os alimentos. Não se pode esquecer que a mandioca é a base da dieta alimentar. Quanto às demais plantas úteis, como aquelas empregadas para fins medicinais, não existe uma entidade que as controle, como "donos", "mestres", "chefes" ou "mães", muito comum na etnografia de outros grupos indígenas. Entre os remédios tradicionais, 90 % são feitos a partir das plantas e todos são controlados por jorokó.

Há muito tempo atrás, para resolver a constante ameaça de ataques de determinados animais, os humanos contraíam relações de afinidade que imediatamente depois eram "consangüinizadas": os animais se transformavam em maridos, esposas, pais ou avôs. Assim conta um mito que certo dia um homem Aparai casou-se, sem saber, com uma onça, cujo "povo" costumava atacá-los. O casamento pôs fim a este conflito e a filha que nasceu desta relação deu origem ao povo kaikuxiana (kaikuxi, onça), considerado um dos antepassados dos Aparai.

Além de resolverem questões bélicas através de casamentos, os animais são fontes de saber. Com alguns deles, os homens aprenderam os cantos, as danças, os motivos gráficos, as tecnologias dos objetos, como curar, caçar etc. Interessante é que é em situações de isolamento do convívio social que os homens aprendem e apreendem tais conhecimentos. Assim é na narrativa sobre a origem do maior ritual, a festa de Okomo, que os Wayana e Aparai aprendem com o pássaro japim (jakakua): enquanto o homem está perdido na floresta, ele escuta e vê tal festa e, enquanto está na mata, relaciona-se com os animais, comendo, tendo relações sexuais etc.

Assim, no tempo "mítico", o convívio entre homens e animais é marcado ora por relações amistosas, ora por conflitos; ora por reciprocidade, ora por concorrência. O que o distingue este tempo do momento presente é o tipo de comunicação. Antes todos os seres e elementos do cosmos se comunicavam entre si e foi essa comunicação que permitiu a transmissão cultural, que entre os Wayana e Aparai se realiza privilegiadamente com os animais e é sobre isso que mais eles apreciam narrar.

Muitos mitos também relatam aventuras bélicas contra os seres que "pareciam como gente, mas que eram bichos". Apesar de alguns destes serem pacíficos para com os humanos, deseja-se assim mesmo sua morte. Tais relatos referem-se ao momento em que a indiferenciação entre os seres foi rompida e substituída pela relação de alteridade, levando a uma situação de permanente vigília contra possíveis conflitos. Ocorrida esta cisão, alguns seres foram dotados da capacidade de viver em sociedade enquanto outros não, recebendo definitivamente a forma de animal ou planta. Do mesmo modo, somente alguns humanos foram dotados da capacidade de ver e de se deslocar para outros mundos, a fim de solicitar ajuda para os problemas deste mundo (doenças, infortúnios econômicos, desordens sociais etc.) cujos responsáveis pertencem àqueles mundos. Rompida a comunicação direta entre humanos e animais, a relação de reciprocidade cede à de "negociação", mediada pelo xamã. Matam-se os animais porque são "bichos", não humanos, e porque é preciso se alimentar. E no momento em que os animais se tornam comida para os homens se instaura uma relação de predação recíproca entre eles, na medida em que doenças e infortúnios resultam, em grande parte, dos ataques de tais seres.

Princípio destrutivo/reparatório: jorokó

Além do princípio criador/transformador, ikujuri, integra o universo o seu oposto: o jorokó, capaz de se materializar em animais e de se apropriar de outras formas orgânicas, agindo por conta própria ou sendo manipulado pelo homem. Tal como os princípios vitais, estão presentes em todos os domínios e se alimentam dos primeiros. Como mencionamos, ao morrer, além da liberação de uzenu, se desprende do corpo um outro espectro, akuari'po, ou "espectro ruim do espírito dos mortos", que "não presta" e permanece na terra, podendo causar malefícios aos humanos . Depois do uzenu ir para a aldeia dos mortos, os espíritos velhos ficam novos, sem doenças. Na Terra, em compensação, permanecem os akuarihpo, que podem causar doenças. Akuarihpo é, na realidade, um tipo de jorokó e, os Wayana e Aparai explicam que chegará um dia em que existirão tantos jorokó na terra que ela irá "cair" e o céu de cima desabará e assim consecutivamente. Porém, é preciso distinguir o akuarihpo dos homens e dos xamãs: o primeiro não é dotado de consciência e se mantém "vivo" motivado pelo desejo de se alimentar do princípio vital dos indivíduos, sem distinção; o segundo é dotado de consciência e vontade e atingiu o mesmo nível superior que os demais jorokó. Na sua luta para controlar os espíritos, os xamãs tanto apelam para os jorokó quanto para os akuarihpo. Existem alguns jorokó imortais (como o Axiporiê, Wasaimo e outros), o que não acontece com o akuarihpo, que pode ser "dominado" pelos xamãs. Os aprendizes de xamã podem adquirir vários akuarihpo e admite-se que possam encarnar em certos animais que deve se evitar matar. A destruição de bens quando a pessoa morre certamente está associada ao fato de se querer eliminar qualquer vestígio material que lembre seu dono e possa atrair seu akuari'po.

Ao contrário dos animais, que podem integrar os jorokó na sua constituição, para os humanos, possuí-los leva à doença ou à morte. Alguns animais são portadores permanentes de jorokó, enquanto outros apenas receptores temporários. Só os xamãs, quando poderosos, sabem como armazená-los em seu corpo, pois "quem tem jorokó é bicho". Quando “alguém fala muito do outro”, "é muito de brigar", isto é, passa a ter um comportamento avesso às normas sociais, é porque está possuído por jorokó, "está sujo por dentro". Hoje os xamãs explicam que não são mais capazes de armazená-los em seu corpo, mas podem dominá-los, tornando-os seus "auxiliares" e criando cada qual um estoque particular. Os “bons” xamãs sabem onde moram e podem recorrer a eles quando necessitam, seja para curar, seja para agredir. Em suma, o jorokó é um princípio destruidor e, concomitantemente, reparatório, que faz parte da constituição do mundo. É capaz de se materializar temporariamente através dos vivos, manifestando-se na morte, na doença ou permanentemente. São seres que a todos causam temor: humanos ou animais que no "tempo antigo", por descuido ou transgressão às regras, transformaram-se definitivamente em jorokó, pássaros, bichos da mata e da água.

Assim, os homens vivem em perpétuo estado de vigilância e defesa, temendo o ataque de seres canibais, habitantes da mata ou do rio. Mas é com relação aos jorokó, cujo poder é difuso e invisível que guardam maior temor. Hoje, somente os xamãs conseguem se comunicar com eles e graças à sua habilidade em negociar, conseguem reparar os malefícios enviados e impedir que novos se reproduzam ad infinitum. No entanto, se as pessoas não conseguem mais enxergá-los são capazes de sentir sua presença, através de sensações físicas do meio ambiente – um vento forte, uma mudança brusca de clima ou qualquer acidente anormal da natureza –, através de doenças ou infortúnios econômicos, ecológicos ou desequilíbrios sociais (conflitos interpessoais, cisões de unidades políticas etc.).


01::Aparai fazendo um cocar. foto: Lúcia H. van Velthem, 1975.

02:: Confeccionando um bracelete feminino na aldeia Apalai. foto: Paula Morgado, 1989.

Gabriel Coutinho Barbosa
ggabrielbar@gmail.com
Antropólogo

Paula Morgado
lopes@usp.br
Antropóloga
LISA [Laboratório de Imagem e Som em Antropologia]. Depto. de Antropologia [FFLCH-USP]

Outubro de 2003

 
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