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A atual configuração e composição
dos Aparai e Wayana é resultado da integração
de vários outros grupos com os quais mantinham
relações estreitas, sobretudo a partir
do século XVIII. Os Wayana assimilaram os Upurui,
Kukuyana, Opagwana e Kumarawana, entre outros; ao passo
que os Aparai incorporaram os Apama, Pirixiyana e Arakaju.
Embora reconheçam essa diversidade primordial
e até mesmo apontem certos indivíduos
como descendentes "puros" de alguns desses
grupos, os Aparai e Wayana enfatizam, hoje em dia, que
todos estão "misturados". De fato,
não é possível saber se todos esses
nomes, mencionados tanto pelas fontes históricas
como pelos próprios grupos atualmente, referem-se
a povos distintos, correspondendo deste modo a etnônimos;
ou se eles designam unidades menores de uma mesma população,
referindo-se a subgrupos.
As primeiras referências aos intercasamentos
e à suposta "fusão" entre os
Aparai e Wayana são do século XVIII. A
partir de então, viajantes e pesquisadores têm
apontado uma situação avançada
de indiferenciação sociocultural em território
brasileiro, a despeito da sua distinção
lingüística. No final da década de
1970, o antropólogo suíço Daniel
Schoepf passa a nomeá-los "Wayana-Aparai",
designação rapidamente adotada pelos órgãos
públicos e oficiais até os dias de hoje.
Contudo, os Aparai e Wayana não reconhecem esta
denominação mais geral, afirmando em contextos
variados sua separação. Para tanto, eles
articulam vários elementos distintivos, como
diferenciação lingüística,
origens e trajetórias históricas distintas,
costumes e práticas diversos (narrativas míticas,
cantos, concepções cosmológicas
e valores estéticos). Por exemplo, os Wayana
dominariam um repertório mais amplo de motivos
gráficos decorativos, ao passo que os Aparai
teriam maior habilidade técnica para sua execução;
as cerâmicas aparai seriam pintadas, ao contrário
das cerâmicas wayana; os primeiros teriam o costume
de cremar seus mortos, enquanto os segundos preferem
enterrá-los e assim por diante. Em suma, à
amálgama social e cultural dessa população
não corresponde uma identidade única.
Os processos de aproximação e fusão
em curso são acompanhados por movimentos de distanciamento
e fissão em vários contextos.
Neste mesmo sentido, os indivíduos que
descendem de casamentos mistos costumam ser identificados
ora como "misturados" ou "cruzados",
ora de acordo com o grupo paterno, o que irá
depender de um jogo de forças políticas.
Apesar de bilíngües em sua maioria, eles
tendem a privilegiar o uso da língua falada em
sua aldeia. Cada aldeia é identificada a um ou
outro grupo, conforme a língua falada por seu
fundador. Disto não decorre, no entanto, uma
associação imediata entre a identidade
que se atribui à aldeia e a língua falada
cotidianamente por seus membros. No mais, há
ainda vários outros contextos nos quais a diferenciação
entre os Aparai e Wayana é (re)produzida. Disputas
entre famílias, brigas entre afins, assim como
toda sorte de desentendimento são, quando possível,
atribuídos e explicados pela participação
de indivíduos pertencentes a outro grupo qualquer.
Na aldeia Apalaí (também chamada Bona),
por exemplo, a presença e a disputa entre dois
líderes proeminentes, ambos nomeados por agentes
assistenciais, tende também a se apropriar dessa
distinção, cada qual reivindicando, com
base em suas origens, representar uma das 'etnias' diante
dos órgãos assistenciais.
Enfim, a construção e apropriação
das denominações étnicas "Aparai"
e "Wayana" por essa população
resultam do processo de interação com
o Estado, respondendo a exigências de novas formas
de representação diante da sociedade envolvente
não-indígena. Esses coletivos passaram
a regular muitas das relações entre os
grupos e os agentes de contato, mas não todas.
Todavia, fazem-no por meio do ocultamento da sua diversidade
interna e pela fixação de limites que,
na verdade, são fluidos. Com efeito, estes 'etnônimos'
referem-se a uma realidade múltipla, composta
por elementos complexos, variados e interdependentes,
agregando famílias, aldeias, (sub)grupos e várias
outras unidades sociopolíticas distintas.
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