::01 |
 |
Tradicionalmente, os Aparai e Wayana não reconhecem
uma organização política e/ou liderança que transcendam
os limites da aldeia. Cada aldeia é, em princípio, politicamente
autônoma, possuindo seu próprio chefe, chamado por pata
esemy ('chefe da aldeia'), typatakemy ('o
próprio chefe da aldeia') ou ainda pelo termo tuisa
(ou tamuxi em wayana). Todavia, em certos contextos,
é possível que um líder venha a desempenhar um papel
de destaque no âmbito de decisões que mobilizam a sociedade
aparai e wayana como um todo (entendida, aqui, como
o conjunto das aldeias e grupos locais em território
brasileiro). Quando isto ocorre, a influência deste
líder transcende os limites de sua aldeia até o seu
grupo local (o conjunto de aldeias próximas genealógica
e/ou geograficamente) e, às vezes, até outras aldeias
mais distantes.
A autoridade do chefe de aldeia sobre seus membros
é restrita, conforme as distâncias sociais entre estes,
o prestígio que ele conquista e sua capacidade de persuasão.
Grosso modo, cabe ao chefe de aldeia coordenar atividades
comunitárias (como a limpeza do pátio) e que ultrapassem
os limites desta, como questões de política exterior,
intra ou interétnica (festas, rituais, reuniões etc.).
Em aldeias de maior tamanho, que englobam mais do que
um único grupo doméstico, abre-se um espaço político
para aqueles homens que 'lideram' seu grupo doméstico
e acabam exercendo alguma influência em decisões políticas
na aldeia. Além disso, certas atividades que se dão
por meio de cooperação entre os indivíduos exigem a
constituição de uma liderança temporária para sua realização.
São elas as festas e a prestação de serviços em forma
de ‘mutirão’ (por exemplo: limpeza de roças, feitura
de canoas), que exige a contratação de vários empregados
ou, como dizem, muruku. Em ambos os casos, existe
um ‘chefe’ que organiza a respectiva atividade, chamado
aporesemy. Este vocábulo compartilha uma mesma
raiz lexical, emy, que denota uma posição
hierarquicamente superior de posse e de autoridade,
isto é, "chefe" e "dono", simultaneamente
– empregada também no caso do 'chefe de aldeia', pata
esemy ou typatakemy.
A posição recíproca à do chefe de aldeia é a
de seus subordinados e co-residentes, designados genericamente
por -poetory. Trata-se de uma 'relação-instituição'
amplamente difundida entre os povos falantes de línguas
Karib da região das Guianas, pensada e caracterizada
de maneiras distintas por cada um deles. Para muitos,
como entre os Aparai e Wayana, esta relação possui uma
forte conotação assimétrica, remetendo a posições consideradas
hierarquicamente inferiores, como as de genro (marido
da filha), 'empregado', 'servo', 'prisioneiro' ou 'escravo'(Rivière,
1969:81).
De um modo geral, o chefe de aldeia corresponde
a um 'pai-sogro' que reúne à sua volta seus filhos e
filhas solteiros, filhas casadas, genros e netos e,
ás vezes, filhos casados e noras. Além destes, ele pode
também reunir seus irmão(ã)s, cunhados (marido da irmã),
entre outros. A relação sogro/genro pressupõe uma série
de obrigações do segundo para com o primeiro assim que
a aliança é estabelecida, como a derrubada de uma roça,
a construção de uma casa, de uma canoa. Além disso,
ao longo da vida, o genro deve prestar serviços ao
sogro sempre que solicitado e ofertar-lhe presentes
por intermédio de sua esposa. De maneira análoga ao
que ocorre entre cônjuges, os bens industrializados
têm coexistido com as obrigações "tradicionais"
e até as "substituído". Todavia, estas formas
de obrigação não se excluem necessariamente, podendo
encontrar-se associadas de acordo com o poder do sogro
em questão.
Entre os critérios que avaliam a qualidade de
um futuro genro, a pertinência ou não do casamento,
está – além obviamente dos determinantes de distância
genealógica (terminológica) e geográfica – o fato de
este ser ou não "trabalhador". Ou seja, a
disposição e aptidão do pretenso genro para realizar
os serviços acima citados e, sobretudo, sua capacidade
em adquirir bens industrializados para sua esposa, sogro
e sogra, por meio da produção e comercialização de artesanato,
da prestação de serviços à FUNAI ou em garimpos vizinhos.
A intensidade dessas obrigações parece variar conforme
a proximidade/distância genealógica e/ou geográfica
entre o sogro e o genro. Assim, quando o genro é co-residente,
ele tem mais obrigações e condições para cumpri-las,
do que residindo em outra aldeia. Por outro lado, se
entre sogro e genro já existe algum vínculo genealógico
ou laço de afinidade entre suas famílias, as obrigações
também tendem a ser minimizadas.
A relação entre genro e sogro se estende sobre
o restante da família extensa, servindo, de modelo hiperbólico
de relação assimétrica e de poder. Graças a esta relação
mantêm-se coesos os grupos domésticos e configuram-se
os grupos locais.
Entretanto, se idealmente, em contrapartida
aos serviços prestados de seus membros, o chefe da aldeia
tem como obrigação organizar festas, ser um bom anfitrião
e, sobretudo, dividir e redistribuir os bens (valores
estes freqüentemente evocados em crítica aos atuais
líderes), o sogro não parece ter qualquer obrigação
para com seu genro.
Liderança e organização indígena
Como foi dito, entre os Aparai e Wayana, não
há tradicionalmente qualquer forma de liderança que
transcenda os limites da aldeia e, em última instância,
do grupo local. Porém, a partir de 1973, com o início
das atividades assistenciais por parte da FAB e da FUNAI,
impeliu-se a criação de uma liderança maior, um representante
de todas as aldeias, interlocutor diante do governo
e da sociedade envolvente. Progressivamente, as decisões
que atingem os Aparai e Wayana em geral passaram a depender
do consentimento deste líder único, acirrando e produzindo
tensões entre chefes de aldeias, aldeias e famílias.
Este modelo, embora implantado há mais de 30 anos, tem
ainda muita dificuldade de coexistir com a forma de
poder tradicional. Verifica-se uma enorme insatisfação
por parte de vários indivíduos (líderes ou não), que
acusam a liderança geral de beneficiar apenas seus parentes
e aliados próximos.
Em 1996, por meio de uma manobra política que
articulou os interesses de uma família aparai específica
com os da administração da Funai local, criou-se a Associação
dos Povos Indígenas do Tumucumaque (APITU). Em princípio,
esta associação representa os grupos indígenas que habitam
o Parque Indígena do Tumucumaque e a Terra Indígena
Rio Paru D'Este: Aparai, Wayana, Tiriyó e Kaxuyana,
entre outros. Todavia, a maior parte dos indivíduos
desconhecem o modo de funcionamento da APITU, que é
'controlada' e disputada por uma minoria mais familiarizada
com os códigos da sociedade envolvente, como novas formas
de organização, representação e atuação política.
Por fim, atenta-se que a autoridade do presidente
da associação indígena não se impõe, de modo algum,
à dos chefes de aldeia. Ao contrário, o presidente da
associação depende em certa medida do consentimento
de alguns chefes de aldeia mais influentes para tomar
algumas decisões.
|