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ORGANIZAÇÃO POLÍTICA   
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ORGANIZAÇÃO POLÍTICA

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Tradicionalmente, os Aparai e Wayana não reconhecem uma organização política e/ou liderança que transcendam os limites da aldeia. Cada aldeia é, em princípio, politicamente autônoma, possuindo seu próprio chefe, chamado por pata esemy ('chefe da aldeia'), typatakemy ('o próprio chefe da aldeia') ou ainda pelo termo tuisa (ou tamuxi em wayana). Todavia, em certos contextos, é possível que um líder venha a desempenhar um papel de destaque no âmbito de decisões que mobilizam a sociedade aparai e wayana como um todo (entendida, aqui, como o conjunto das aldeias e grupos locais em território brasileiro). Quando isto ocorre, a influência deste líder transcende os limites de sua aldeia até o seu grupo local (o conjunto de aldeias próximas genealógica e/ou geograficamente) e, às vezes, até outras aldeias mais distantes.

A autoridade do chefe de aldeia sobre seus membros é restrita, conforme as distâncias sociais entre estes, o prestígio que ele conquista e sua capacidade de persuasão. Grosso modo, cabe ao chefe de aldeia coordenar atividades comunitárias (como a limpeza do pátio) e que ultrapassem os limites desta, como questões de política exterior, intra ou interétnica (festas, rituais, reuniões etc.). Em aldeias de maior tamanho, que englobam mais do que um único grupo doméstico, abre-se um espaço político para aqueles homens que 'lideram' seu grupo doméstico e acabam exercendo alguma influência em decisões políticas na aldeia. Além disso, certas atividades que se dão por meio de cooperação entre os indivíduos exigem a constituição de uma liderança temporária para sua realização. São elas as festas e a prestação de serviços em forma de ‘mutirão’ (por exemplo: limpeza de roças, feitura de canoas), que exige a contratação de vários empregados ou, como dizem, muruku. Em ambos os casos, existe um ‘chefe’ que organiza a respectiva atividade, chamado aporesemy. Este vocábulo compartilha uma mesma raiz lexical, emy, que denota uma posição hierarquicamente superior de posse e de autoridade, isto é, "chefe" e "dono", simultaneamente – empregada também no caso do 'chefe de aldeia', pata esemy ou typatakemy.

A posição recíproca à do chefe de aldeia é a de seus subordinados e co-residentes, designados genericamente por -poetory. Trata-se de uma 'relação-instituição' amplamente difundida entre os povos falantes de línguas Karib da região das Guianas, pensada e caracterizada de maneiras distintas por cada um deles. Para muitos, como entre os Aparai e Wayana, esta relação possui uma forte conotação assimétrica, remetendo a posições consideradas hierarquicamente inferiores, como as de genro (marido da filha), 'empregado', 'servo', 'prisioneiro' ou 'escravo'(Rivière, 1969:81).

De um modo geral, o chefe de aldeia corresponde a um 'pai-sogro' que reúne à sua volta seus filhos e filhas solteiros, filhas casadas, genros e netos e, ás vezes, filhos casados e noras. Além destes, ele pode também reunir seus irmão(ã)s, cunhados (marido da irmã), entre outros. A relação sogro/genro pressupõe uma série de obrigações do segundo para com o primeiro assim que a aliança é estabelecida, como a derrubada de uma roça, a construção de uma casa, de uma canoa. Além disso, ao longo da vida, o genro deve prestar serviços ao sogro sempre que solicitado e ofertar-lhe presentes por intermédio de sua esposa. De maneira análoga ao que ocorre entre cônjuges, os bens industrializados têm coexistido com as obrigações "tradicionais" e até as "substituído". Todavia, estas formas de obrigação não se excluem necessariamente, podendo encontrar-se associadas de acordo com o poder do sogro em questão.

Entre os critérios que avaliam a qualidade de um futuro genro, a pertinência ou não do casamento, está – além obviamente dos determinantes de distância genealógica (terminológica) e geográfica – o fato de este ser ou não "trabalhador". Ou seja, a disposição e aptidão do pretenso genro para realizar os serviços acima citados e, sobretudo, sua capacidade em adquirir bens industrializados para sua esposa, sogro e sogra, por meio da produção e comercialização de artesanato, da prestação de serviços à FUNAI ou em garimpos vizinhos. A intensidade dessas obrigações parece variar conforme a proximidade/distância genealógica e/ou geográfica entre o sogro e o genro. Assim, quando o genro é co-residente, ele tem mais obrigações e condições para cumpri-las, do que residindo em outra aldeia. Por outro lado, se entre sogro e genro já existe algum vínculo genealógico ou laço de afinidade entre suas famílias, as obrigações também tendem a ser minimizadas.

A relação entre genro e sogro se estende sobre o restante da família extensa, servindo, de modelo hiperbólico de relação assimétrica e de poder. Graças a esta relação mantêm-se coesos os grupos domésticos e configuram-se os grupos locais.

Entretanto, se idealmente, em contrapartida aos serviços prestados de seus membros, o chefe da aldeia tem como obrigação organizar festas, ser um bom anfitrião e, sobretudo, dividir e redistribuir os bens (valores estes freqüentemente evocados em crítica aos atuais líderes), o sogro não parece ter qualquer obrigação para com seu genro.

Liderança e organização indígena

Como foi dito, entre os Aparai e Wayana, não há tradicionalmente qualquer forma de liderança que transcenda os limites da aldeia e, em última instância, do grupo local. Porém, a partir de 1973, com o início das atividades assistenciais por parte da FAB e da FUNAI, impeliu-se a criação de uma liderança maior, um representante de todas as aldeias, interlocutor diante do governo e da sociedade envolvente. Progressivamente, as decisões que atingem os Aparai e Wayana em geral passaram a depender do consentimento deste líder único, acirrando e produzindo tensões entre chefes de aldeias, aldeias e famílias. Este modelo, embora implantado há mais de 30 anos, tem ainda muita dificuldade de coexistir com a forma de poder tradicional. Verifica-se uma enorme insatisfação por parte de vários indivíduos (líderes ou não), que acusam a liderança geral de beneficiar apenas seus parentes e aliados próximos.

Em 1996, por meio de uma manobra política que articulou os interesses de uma família aparai específica com os da administração da Funai local, criou-se a Associação dos Povos Indígenas do Tumucumaque (APITU). Em princípio, esta associação representa os grupos indígenas que habitam o Parque Indígena do Tumucumaque e a Terra Indígena Rio Paru D'Este: Aparai, Wayana, Tiriyó e Kaxuyana, entre outros. Todavia, a maior parte dos indivíduos desconhecem o modo de funcionamento da APITU, que é 'controlada' e disputada por uma minoria mais familiarizada com os códigos da sociedade envolvente, como novas formas de organização, representação e atuação política.

Por fim, atenta-se que a autoridade do presidente da associação indígena não se impõe, de modo algum, à dos chefes de aldeia. Ao contrário, o presidente da associação depende em certa medida do consentimento de alguns chefes de aldeia mais influentes para tomar algumas decisões.


01:: Retrato de Dondon, então chefe wayana da aldeia Anapuaka. foto: Daniel Schoepf, 1972.

Gabriel Coutinho Barbosa
ggabrielbar@gmail.com
Antropólogo

Paula Morgado
lopes@usp.br
Antropóloga
LISA [Laboratório de Imagem e Som em Antropologia]. Depto. de Antropologia [FFLCH-USP]

Outubro de 2003

 
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