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HISTÓRIA E RELAÇÕES INTERÉTNICAS   
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HISTÓRIA E RELAÇÕES INTERÉTNICAS

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Nos primeiros relatos de cronistas e viajantes é possível encontrar comentários acerca de amplas redes de relações e circuitos de intercâmbios que, por toda a região das Guianas, interligavam num primeiro momento apenas os grupos indígenas da região, passando progressivamente a incorporar segmentos da sociedade envolvente não-indígena. Os grupos indígenas encontravam-se ligados uns aos outros por modalidades diversas de relação – guerras e agressões xamanísticas, trocas de bens, intercasamentos, fusões e fissões –, das quais destacam-se transações comerciais especializadas, nas quais era atribuído o monopólio de produção e/ou fornecimento de uma mercadoria a cada grupo, estabelecidas por meio de parcerias formais de troca individualizadas e exclusivas. Além disso, em função da grande quantidade de rotas de intercâmbio que atravessavam os territórios dos grupos, do padrão especializado de produção e fornecimento de mercadorias, e, principalmente, de uma estratégia maior em diversificar e garantir alianças, cada grupo encontrava-se ligado a vários outros ao mesmo tempo.

A atual configuração dos grupos Aparai e Wayana (ambos resultantes da fusão e integração de vários outros grupos menores), a estreita convivência e o alto grau de intercasamentos entre estes em território brasileiro, o fato de compartilharem um vasto léxico do qual vários vocábulos são de origem tupi apontam a intensidade dos contatos e inter-relacionamentos destes grupos entre si e com outros grupos da região.

Deve-se ainda considerar que as informações disponíveis sobre a participação dos Aparai e Wayana nestas redes de relações, como toda a historiografia destas redes, se confunde com a introdução crescente de mercadorias européias nestes sistemas de relações durante o período colonial, por meio das transações comerciais entre os europeus e os índios da costa, na região da Güiana Francesa e Suriname, sobretudo, nos séculos XVII e XVIII. Mercadorias européias e bens industrializados com os quais os Aparai e Wayana já se encontram familiarizados e dependentes há muito tempo.

Negros Marrons

No século XVIII, houve uma imigração maciça de ex-escravos das plantações de açúcar da então 'Güiana Holandesa' (atual Suriname) para as florestas no sul da Güiana Francesa. Estes escravos constituíram grandes organizações tribais, de acordo com seus antigos padrões africanos, dividindo-se em três etnias maiores e rivais: Boni, Djuka e Saramaká. Na literatura, estas etnias são designadas genericamente por Negros Marrons, em português (Bush Negroes, em inglês, e Noir Marrons em francês). Os Wayana e os Aparai chamam-nos por Meikoro, embora reconheçam suas diferenças.

A partir de então, beneficiando-se de sua localização geográfica privilegiada, ao longo dos principais rios e rotas de penetração no interior da Güiana Oriental, estas etnias de ex-escravos – os Meikoro – passaram a comercializar com os postos coloniais costeiros e com os grupos indígenas situados no interior, intermediando os fluxos de bens entre europeus (colonos) e índios. Os Meikoro forneciam as mercadorias européias aos grupos indígenas com os quais se relacionavam diretamente – particularmente, os Wayana e os Tiriyó –, que, por sua vez, repassavam-nas depois a outros grupos indígenas no interior (os Aparai e os Waiãpi, por exemplo), e assim por diante, constituindo uma longa cadeia de transações intermediadas. Além disso, as relações entre os fornecedores de artigos europeus e suas 'clientelas' eram formalmente idênticas ao longo dessas cadeias de negociação. A assimetria e os adiantamentos característicos das relações entre os Boni e os Wayana – nas quais os primeiros obtinham enormes lucros, pagando pouco pelos artigos indígenas que eram repassados a altos preços para os europeus – eram reproduzidos e transferidos para as transações entre os Wayana e os Waiãpi do Oiapoque, e entre estes últimos e os Waiãpi meridionais.

Por conseguinte, tanto os próprios Wayana quanto os Meikoro, e mesmo os demais grupos indígenas, procuravam adquirir e garantir posições privilegiadas de intermédio nestes sistemas de troca. Os grupos disputavam por boas posições nas redes de relações, procurando manter afastados seus 'fornecedores' de seus 'clientes', lançando mão, muitas vezes, de guerras uns contra os outros.

Até o final do século XIX, os Wayana e Aparai do Brasil se beneficiaram deste comércio e de sua posição, intermediando as transações entre os Meikoro com outros grupos indígenas (Tiriyó, Waiãpi do Oiapoque etc.) e controlando o acesso destes últimos aos bens manufaturados. Do mesmo modo, enquanto os Meikoro controlaram os fluxos de entrada de mercadorias européias nas redes de troca ameríndias da região, os contatos dos Aparai e Wayana com segmentos da sociedade envolvente (não-índios) foram esporádicos e indiretos, e a disponibilidade de bens industrializados relativamente limitada, o que permitiu aos Aparai e Wayana familiarizar-se gradativamente com estes bens, sem comprometer sua cultura e modos de vida.

Novas frentes econômicas

Foi somente no início do século XX, quando cresceu a exploração de castanha e balata nas bacias dos rios Jari, Paru de Leste, Maicuru e Curuá, que os contatos com caboclos da região se intensificaram. A extração de balata se estendeu até a década de 1950, atingindo seu ápice entre as décadas de 1920-40, quando representou a principal atividade econômica na região, responsável pelo surgimento e desenvolvimento de vários vilarejos e municípios, como Almeirim, Alenquer e Monte Alegre. Durante este período, os Aparai e Wayana ainda ocupavam o baixo e médio curso dos rios Maicuru e Paru de Leste, seu afluente Citaré e o médio Jari. A facilidade de acesso dos índios a estes centros de comercialização e dos balateiros às aldeias tornava os contatos e intercâmbios ainda mais freqüentes. Muitos Aparai e Wayana trabalharam para ou nestas frentes extrativistas, fornecendo alimentos, prestando serviços ou mesmo extraindo balata, em troca de mercadorias industrializadas (espingardas, ferramentas e bugigangas) ou dinheiro.

A proximidade e facilidade com que a maioria de bens industrializados passou a ser adquirida fez com que as transações comerciais com os Meikoro da Güiana decaíssem sensivelmente, já que exigiam grandes deslocamentos.

A partir da década de 1950, com o fim do ciclo da balata, a região passou a ser explorada por gateiros (caçadores de peles de onça) e garimpeiros que, até meados da década de 1970, mantinham intensas relações com os Aparai e os Wayana, circulando entre as aldeias, trocando alimentos e serviços indígenas por bens industrializados.

O aumento dos contatos com estas frentes econômicas resultou em graves epidemias que reduziram, em pouco tempo, a população aparai e wayana na região. Além disso, estas frentes foram responsáveis pelos recentes deslocamentos aparai e wayana que vieram a configurar paulatinamente o atual território aparai e wayana no Brasil. Isto é, o abandono dos assentamentos nos rios Jari, Maicuru e baixo Paru de Leste, concentrando-se no médio e alto curso deste último.

Atenta-se que, na maioria das vezes, as relações travadas entre os índios e os representantes destas frentes respeitou alguns padrões das relações tradicionais de parceria formal de troca. A saber, estabelecendo-se entre indivíduos (na forma de parcerias idealmente exclusivas) e por meio de reciprocidade diferida (adiantamentos e ‘créditos’). Dada sua natureza interindividual, os conflitos, quando ocorriam, não extrapolavam a unidade familiar, nem comprometiam as relações entre os Aparai e Wayana com os não-índios como um todo. A visão que os Wayana e os Aparai têm hoje deste passado é marcada por um certo saudosismo e pela idéia de que estes karaiwa (os balateiros, gateiros etc.) foram bons parceiros de troca, cumprindo com eficiência suas funções nas redes de relações, particularmente, como provedores de bens.

Missão, assistencialismo e assalariamento

A partir da década de 1960, os Aparai e Wayana passaram a ser assistidos pelos governos do Brasil e da Güiana Francesa, através de órgãos assistenciais oficiais ou de missões de fé. Estas instituições foram responsáveis pelo tipo de serviço de saúde e educação implantados e pelo crescimento demográfico destas populações nas últimas décadas. Não obstante, sua presença acarretou profundas transformações nas relações entre os grupos indígenas da região e entre estes e alguns segmentos da sociedade envolvente.

No Brasil, os Aparai e os Wayana passaram a ser assistidos a partir do início dos anos 1960, com o estabelecimento de uma pista de pouso e um destacamento da FAB às margens do rio Paru de Leste, na atual aldeia Apalaí.

A partir de 1962, missionários do SIL (Sociedade Internacional de Lingüística) passaram a viver junto com os índios até 1992, difundindo o Novo Testamento em língua aparai (traduzido em 1988) e formando pastores indígenas que se encarregam hoje da celebração dos cultos. A Funai criou o primeiro posto em 1973, passando a prestar assistência permanente na região até os dias de hoje, de uma maneira marcada pelo paternalismo por parte da agência oficial, promovendo a crescente dependência dos índios em relação a estas políticas e aos bens industrializados.

Com o intuito de integrar estas populações à sociedade nacional - porém, desinteressadas em fornecer meios que garantissem sua autonomia neste processo - as políticas indigenistas vigentes vêm trabalhando a favor da 'educação' e familiarização dos índios com a economia monetária e com a venda de mão-de-obra assalariada. O estímulo à produção e comercialização de artesanato, a instalação de 'cantinas' e postos de vendas de mercadorias industrializadas em algumas aldeias, a contratação de índios para prestação de serviços temporários ou definitivos são algumas das políticas implementadas neste sentido.

À medida que a possibilidade de adquirir bens industrializados dentro dos próprios territórios indígenas aumentou (através do trabalho assalariado e dos postos de venda de mercadorias), o interesse pelos bens produzidos por outros grupos indígenas tornou-se cada vez menor. As relações seguras com os órgãos assistenciais passaram a ser privilegiadas, em detrimento das relações com seus antigos parceiros e aliados: tanto os Meikoro quanto outros grupos indígenas (Tiriyó e, mormente, Wayana do Suriname e da Güiana Francesa). Os deslocamentos e as viagens diminuíram, uma vez que os grupos passaram a concentrar-se cada vez mais em torno dos postos assistenciais, 'confinados' em áreas restritas.

Nos últimos anos, entre os fatores que mais facilitam e contribuem para que os Aparai e os Wayana adquiram bens industrializados, destacam-se: o recebimento de aposentadorias pagas pelo Governo do Estado do Amapá (a partir de 1994); a contratação de índios para a prestação de serviços assalariados (a partir de fins dos anos 80), como agentes de saúde auxiliares e professores; e a comercialização de artesanato, mediada inicialmente pela Administração da Funai de Macapá (1980) e atualmente pela Associação dos Povos Indígenas do Tumucumaque (APITU).

Antigos parceiros

Contudo, os Aparai e os Wayana têm se esforçado em manter, pelo menos idealmente, o maior número possível de parceiros e aliados potenciais junto a outros grupos, indígenas ou não (garimpeiros, Meikoro, Tiriyó etc.).

Neste sentido, alguns indivíduos, sobretudo os das aldeias situadas próximo ao limite sul da área indígena, costumam ir trabalhar e prestar serviços nos garimpos vizinhos ‘Treze de Maio’, ‘Limão’ e 'Santa Clara'. A Funai tem se esforçado em combater tais atividades, por meio de ‘campanhas educacionais’ e ameaças, visto que os indivíduos costumam trazer dos garimpos, além de ouro e mercadorias, malária e outras doenças contagiosas. Apesar da pressão por parte da Funai, muitos indivíduos, particularmente, aqueles que têm maiores dificuldades para ir até as cidades de Macapá e Belém, continuam visitando os garimpos com relativa freqüência, em viagens que duram de um a seis meses. Os mais experientes chegam a trabalhar com o garimpo propriamente dito, porém, a maioria costuma prestar outros tipos de serviço, como pescar e vender peixe fresco aos garimpeiros em troca de ouro.

O ouro obtido nessas atividades costuma ser gasto na compra de bens nos ‘barracões' dos garimpos (desde munição até bolachas etc.) ou ser guardado para transações futuras nas aldeias ou cidades próximas. Pois, entre os índios mais familiarizados, o ouro serve de meio de troca na compra de bens industrializados diversos, como combustível etc. Alguns indivíduos já são conhecidos nestes garimpos, possuindo amizades e crédito junto aos garimpeiros.

Viagens ao Suriname

Apesar da longa distância e da instabilidade política no Suriname (ao que parece, repleto de conflitos e pequenas guerrilhas no seu interior), os Aparai e Wayana no Brasil ainda empreendem viagens ao Suriname, nas quais são trocados bens industriais e artefatos indígenas, e reiterados laços de parentesco e parcerias formais de troca (-epe e pawana). Há dois tipos de viagens. Uma é realizada por casais com ou sem filhos e é menos freqüente hoje em dia. A outra implica na organização de pequenas expedições com cerca de 15 a 20 indivíduos (a maioria rapazes solteiros) e tem como pretexto encontros ‘cristãos’ anuais, organizados nas aldeias Tiriyó do Suriname.

Estas reuniões, chamadas pelos próprios índios de "Conferências", reúnem diversos grupos indígenas (Tiriyó, Wayana, Aparai, Waiwai, Aruaque etc.) e não-índios (Meikoro, missionários norte-americanos e de outras nacionalidades). Nestas viagens, tão importantes quanto o tempo de duração e de permanência na 'Conferência' são os contatos estabelecidos ao longo do caminho. Do rio Paru de Leste, no Brasil, até o rio Tapanahoni, no Suriname (onde se encontram as aldeias Tiriyó naquele país), e Litani na Güiana Francesa, os Aparai e Wayana passam por assentamentos dos Meikoro. Aproveitam-se tais deslocamentos para ir a cidades na beira do rio Maroni, Maripasoula e Saint Laurent du Maroni, na Güiana Francesa, ou à capital do Suriname, Paramaribo. Além disso, existem rotas alternativas que passam pela 'Missão Tiriyó' no rio Paru de Oeste (Brasil).

Nessas visitas, aproveita-se para atualizar e trocar notícias, efetuar transações, fazer e receber encomendas oriundas desta tríplice fronteira. Todo e qualquer tipo de bem é trocado (rádios, espingardas, e bugigangas em geral). No entanto, existem bens especializados que possuem um status diferenciado (embora circulem nas mesmas esferas de troca). São eles os pratos e bacias de ágata, caçarolas e panelas de ferro (para produção de caxiri) provenientes do Suriname e altamente valorizados pelos Aparai e Wayana do Brasil; alguns adornos de cultura material (particularmente, os chocalhos para festa arukó/kawai) e os cães de caça levados do Brasil ao Suriname, onde também são muito valorizados. Por fim, os jovens aparai e wayana provenientes do Brasil procuram atualizar-se em modismos difundidos pelos Tiriyó e Wayana do Suriname, tal como cortes de cabelo, músicas evangélicas ou pop etc.

Outras viagens

Outros lugares nos quais os Aparai e Wayana procuram estabelecer alianças são as cidades de Macapá, Belém e os pequenos municípios e vilarejos próximos (como Almeirim). Alguns indivíduos vão com freqüência a essas cidades com propósitos diversos: comercializar artesanato, receber aposentadorias, tratamento médico etc. Nelas, os índios buscam diversificar parcerias, não se limitando às relações com o órgão assistencial. Procura-se estabelecer outros contatos para a venda de artesanato, tais como lojas e vendedores ambulantes (camelôs); igrejas evangélicas ou católicas; organizações não governamentais, órgãos dos governos municipais, estaduais e federais. Além disso, em virtude da estadia, mais ou menos freqüente, de alguns indivíduos nas cidades de Macapá e Belém, os Aparai e Wayana têm mantido relações com outros grupos, antigos inimigos (como os Waiãpi meridionais) ou desconhecidos (como os Gavião e os Kayapó). Nas 'Casas do Índio' dessas capitais, os intercâmbios são intensos, sem falar nos contatos sexuais entre os jovens.

01:: O frei entre os índios. foto: Protásio Friekel, 1955.

Gabriel Coutinho Barbosa
ggabrielbar@gmail.com
Antropólogo

Paula Morgado
lopes@usp.br
Antropóloga
LISA [Laboratório de Imagem e Som em Antropologia]. Depto. de Antropologia [FFLCH-USP]

Outubro de 2003

 
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