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Os ciclos da vida ou da natureza não são
necessariamente acompanhados de rituais coletivos, a
não ser na passagem para a puberdade, cujo ritual marca
a entrada na fase adulta (Okomo, em aparai).
Este ritual pode se repetir outras vezes na fase adulta
como uma espécie de confirmação e ato de bravura; porém,
desde o início da década de 1980, este costume vem cada
vez menos sendo praticado.
Não há classes de idade que sirvam de marcadores
de ritos de passagem, mas há manifestações festivas
de caráter social que assumem um lugar privilegiado
na transmissão de saber, mesmo se elas não estão ligadas
diretamente ao desenvolvimento das atividades de subsistência
ou das fases da vida individual, embora delas sofram
influências. As festas podem se dar apenas com membros
de uma única aldeia ou agregar parentes de outras aldeias,
de modo a marcar as fronteiras sociais, as teias de
relacionamento – com quem posso trocar, o
quê posso trocar, com quem mantenho maior distancia
social – de hostilidade ou de completa inimizade.
Além disso, nas festas, quando o consumo alcoólico é
bastante elevado, o ideal moderado de conduta cede lugar
a extravasamentos da emoção, sendo comum relações extra-maritais.
As festas, que duram em média de três a quatro dias,
terminam quando findam as bebidas.
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O período de maior festividade acontece entre
o término da maturação da mandioca e o início de um
novo ciclo, antes do próximo plantio, ou seja, no período
de entre-safras, quando dedicam maior tempo ao lazer.
Não há festa sem bebida, não há bebida sem boas safras,
já que a bebida consumida é a base de mandioca, particularmente
o caxiri e o sakurá. Os acontecimentos
considerados positivos na vida de uma pessoa – sucesso
nas caçadas, pescarias, compra da primeira espingarda,
viagem bem sucedida etc. – se transformam em motivos
para festejar. Por iniciativa de um membro da aldeia,
o chefe desta decide quando e como a festa será realizada.
A quantidade de bebida é vista como um marcador de hospitalidade
e generosidade: o chefe é considerado “bom” quando sabe
receber bem, isto é, quando na sua festa não falta bebida
e quando todos se divertem e não brigam – até há pouco
tempo, esta qualidade era medida também pela performance
musical, dos cantos e danças que passaram a se tornar
escassos. (Do lado da Guiana Francesa, no alto Maroni,
as festas desde fins da década de 80 são acompanhadas
de música eletrônica organizadas com grande sofisticação
pelos jovens). Tudo é medido e criteriosamente observado
por todos os participantes, como se a festa funcionasse
como uma espécie de regulador social. É um momento em
que os conhecimentos, tanto daqueles que organizam como
do público que participa, são postos à prova: os que
sabem terão seu status acrescido enquanto os
outros tratarão de se esforçar para aprender.
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As festas são chamadas pelo termo wãko,
que quer dizer dançar, diferenciando uma festa de uma
reunião. As danças, cada qual com um ritmo, expressam
variações de um mesmo gênero nas quais se faz presente
um grupo de tocadores e de dançarinos. As festas se
iniciam ao entardecer no pátio da aldeia, ao redor dos
bancos dos tocadores e dançarinos dispostos em semi-círculo,
e duram de três a quatro dias com pequenas interrupções.
Acompanham as festas instrumentos de sopro e de percussão:
flautas, chocalhos, bastão de ritmo, além dos cantos,
onde a combinação desses quatro elementos dependerá
de cada celebração. Cada festa recebe um nome, em geral
associado a um ser mítico, chamado em português de ‘encantado’.
Estes foram gerados pelo criador Ikujuri com
o propósito de ensinar aos homens; uma vez que estes
aprenderam, tais seres perderam contato direto com os
humanos. No repertório das festas, levantadas em duas
aldeias, uma aparai e outra mista wayana e aparai no
PI Tumucumaque, registraram-se 17 tipos de temas distintos
(os nomes foram coletados na língua aparai e entre parênteses
indicamos o correspondente em wayana para alguns deles):
Turekoka (Ture)- nome do animal encantado
e da flauta (festeja-se no Natal);
Tajaja - nome de um encantado e da musica
de flauta;
Tamoko (Tamok)- nome do encantado (não
sabem mais celebrar essa festa);
Arimikurerueny - festa acompanhada pela flauta
longa soprada c/ nariz ‘arimikurerueny (“bonita
flauta do macaco”);
Tãkoru - nome da flauta e do encantado;
Tajehna - flauta de jorokó e encantado;
Aikororueny - flauta de um sapo mítico, aikoro
(toca-se essa flauta na festa de Okomo);
Kãnkuerueny – flauta do tucano, kãnkue;
Okomo (caba) - grande festa;
Oropu - nome de um jorokó (flauta e canto /festeja
no Natal);
Tahsemyimo – nome de um encantado (canto;
festeja-se no Natal);
Aitakara – nome de um encantado (toca-se com
4 flautas; festeja-se no Natal);
Rueimo - nome da flauta;
Arekorueny - flauta de pã emplumada representando
o sapo encantado;
Purupoporueny (casco de tracajá), um encantado;
toca-se acompanhada de uma flauta de pã;
Piririwa (Pililiwa) - flauta e encantado;
kurumorueny – flauta do urubu.
Desde a década de 70 vem reduzindo-se em muito
o repertório das festas, permanecendo na memória alguns
nomes e vagas lembranças. Além disso muitas delas passaram
a ser praticadas na época do Natal, em virtude da convivência
com os funcionários do governo e missionários (que colaboraram
para a sua redução). Porém, apesar das transformações
sociais exercendo influência direta no repertório, periodicidade
e significado das festas, elas continuam a lembrar aos
indivíduos como seu mundo social está organizado, reiterando
os valores étnicos e morais, ensinando como agir e vir
a ser uma pessoa. |