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Como a maioria dos demais grupos indígenas
da região das Güianas, os Aparai e os Wayana praticam
uma economia de subsistência, baseada na caça, pesca,
coleta e cultivo de frutas e tubérculos. Estas atividades
econômicas são regidas por duas estações que dividem
o ano por toda a região Norte do país: O "verão",
ou estação seca, que se estende aproximadamente entre
os meses de julho a dezembro; e o "inverno",
a estação das chuvas, entre janeiro e junho. Este ciclo
anual orienta não só o calendário das atividades – particularmente
a abertura, derrubada, limpeza, coivara, plantio e colheita
das roças –, como determina as espécies de animais,
peixes e frutos disponíveis e, por conseguinte, a dieta
alimentar dos Aparai e Wayana.
Em termos gerais, no "inverno", durante
as chuvas, o consumo de tubérculos é reduzido de modo
a não faltar para o resto do ano, até que uma nova colheita
seja feita. A pesca diminui com o aumento do nível d'água
dos rios e igarapés, e, em contrapartida, a caça é privilegiada
com o surgimento de pequenas ilhas ao longo do rio,
onde ficam presos alguns animais. No "verão",
por sua vez, aproveita-se a maior parte do tempo no
preparo da terra para o cultivo das roças, sendo também
um período propício para a pesca, dada a concentração
de peixes em lagos e pequenos cursos d'água.
As tarefas são organizadas de acordo com uma
rígida divisão sexual do trabalho. Aos homens cabe exclusivamente
a caça, a pesca, a abertura (derrubada, queimada e limpeza)
de roças e de novos assentamentos, a construção de casas,
e também a produção de toda a parafernália doméstica
em cestaria (abanos, cestos e recipientes, tipiti etc.).
As mulheres são responsáveis pelo aprovisionamento da
água e do fogo, o preparo dos alimentos, o processamento
de tubérculos (na produção de farinha, beiju e, sobretudo,
bebidas fermentadas), e toda a produção em cerâmica
(panelas e fornos para torrar beiju e farinha) e em
algodão (redes, tipóias etc.). A ambos os sexos cabem
as atividades de coleta, o plantio e a colheita dos
produtos da roça, e as grandes pescarias realizadas
com timbó durante a estação seca.
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As unidades de produção básicas são a família
nuclear e o grupo doméstico, isto é, os casais, seus
filhos(as) solteiros e casados, cunhados, genros e noras
co-residentes. Cada casal possui entre uma e três roças,
em diferentes estágios de desenvolvimento. As roças
situam-se próximas à aldeia, em local escolhido ou aceito
pelo fundador ou chefe da aldeia, de acordo com critérios
como a qualidade do solo, o regime das chuvas (terrenos
não alagadiços), incidência de pragas (saúvas) e animais
(porcos do mato etc.). Quando os pais de um dos cônjuges
habitam uma outra aldeia, é comum que o casal abra uma
segunda ou terceira roça próxima a esta, visitando-os
com freqüência. Além disso, recém-casados podem compartilhar
a roça dos pais de um dos cônjuges até que possuam uma
roça própria.
Roça, caça, pesca e coleta
Nas roças são cultivadas várias espécies de
tubérculos (mais de 30 espécies de mandiocas, macaxeiras,
batatas-doces, carás etc.), cana de açúcar, frutas (banana,
melancia, abóbora, manga, maracujá, graviola, laranja
e limão), algodão, urucum e jenipapo. São também plantados
alguns frutos no entorno das aldeias.
Durante o ano todo, são realizadas incursões
na floresta para a caça e a coleta. A coleta é praticada
com a mesma intensidade, complementando a dieta alimentar.
Estas incursões mobilizam o casal ou, mais freqüentemente,
grupos de irmãos, cunhados, pai e filhos. Nelas são
obtidos: mel silvestre, açaí e bacaba, larvas de insetos,
ovos de tracajá (nas praias, durante a estação seca),
arumã para a confecção de cestaria, resinas vegetais,
barro e argilas para a produção de cerâmica e de tinturas
minerais etc.
Por meio da caça os Aparai e Wayana acrescentam
à sua dieta: tapires, cervídeos, roedores (paca e cutia,
por exemplo), macacos (cuatá e guariba entre outros),
porcos do mato (queixada e caititu), aves (mutum, jacamim,
tucano), jacaré e lagartos etc. As técnicas empregadas
variam conforme as espécies de animais e a época do
ano. Algumas vezes, sobretudo, no período que antecede
as festas, grupos de homens realizam incursões na floresta
que chegam a durar semanas, e nas quais são abatidas
grandes quantidades de animais. Cotidianamente, pratica-se,
no período de seca, pequenas incursões à floresta e
a "espera" (ou mutá) nas roças ou próximo
a árvores frutíferas; no período de chuvas, a "lanternagem"
(em que são abatidos animais na beira do rio à noite).
De qualquer maneira, os Aparai e Wayana utilizam espingardas,
com as quais estão familiarizados há mais de um século.
Embora sejam realizadas durante todo o ano, a época
privilegiada para as caçadas é a estação das chuvas,
quando alguns animais ficam 'ilhados' com o crescimento
do nível dos rios.
A pesca também se caracteriza pela diversidade
de pescados e técnicas empregadas: tucunaré, surubim,
pacu e piranha são algumas das espécies obtidas na região.
A pesca com linha e anzol industrializados predomina,
mas também são utilizadas redes "malhadeiras"
(sobretudo, durante a época das chuvas), o arco e flecha
e o timbó (na estação seca).
Tradicionalmente, os Aparai e os Wayana não
praticam a criação de animais para a alimentação. Além
de cachorros para caçar e comercializar com outros grupos
indígenas, são criados patos, galinhas e algumas espécies
silvestres (mutuns, jacamins, tucanos e araras, macacos
e caititus). Estes animais não costumam ser consumidos,
apenas os ovos de galinha e de pato, e, ainda assim,
em situações de escassez. Também não produzem excedentes
para comercializar, salvo pequenas quantidades de farinha
transportada em viagens, vendidas, antes, a trabalhadores
extrativistas da região durante as décadas de 1920 a
60, e, atualmente, em garimpos próximos à área indígena.
Bens industrializados
Com o passar do tempo e a intensificação das
relações com segmentos da sociedade envolvente, a quantidade,
o sortimento e a dependência de bens industrializados
se tornou cada vez maior. Antes, estas mercadorias eram
comparativamente pouco diversas, limitando-se a ferramentas
de metal, armas de fogo, panos, miçangas, malas e algumas
bugigangas. Hoje em dia, além destes mesmos itens, acrescentam-se
rádios toca-fitas portáteis, cosméticos, alimentos em
conserva, motores de popa e uma infinidade de outros
artigos.
Esta mudança no acesso, uso e dependência de
bens industrializados por parte dos Aparai e Wayana
vem sendo promovida desde a primeira metade deste século
XX por profundas transformações nas relações estabelecidas
com segmentos da sociedade envolvente. Como foi visto,
até o final do século XIX, os Aparai e Wayana dependeram
do intermédio dos Meikoro para adquirir bens
industrializados, negociando com estes por meio de parcerias
formais de troca, individualizadas e exclusivas, baseadas
no 'crédito' e em adiantamentos de mercadorias. A partir
de então e, particularmente, entre 1920-50, os Aparai
e Wayana passaram a privilegiar as relações com as frentes
extrativistas que se estabeleceram na região, fornecendo
alimentos e prestando serviços em troca de mercadorias
industrializadas (em quantidades e sortimento muito
maiores do que as adquiridas até então) e até mesmo
de dinheiro. Contudo, foi a partir da década de 1960,
com o início das atividades assistenciais por parte
da FAB, FUNAI e de missionários do SIL, que a aquisição
de bens industrializados passou por maiores transformações.
Tais transformações se deram não só no plano da quantidade
e variedade de artigos industrializados disponíveis,
mas em relação aos modos de aquisição.
As políticas indigenistas implementadas vêm
trabalhando a favor da 'educação' e familiarização dos
índios com a economia monetária e com a venda de mão-de-obra
assalariada. Entre estas políticas, destacam-se: o estímulo
à produção e comercialização de artesanato, a instalação
de 'cantinas' e postos de vendas de mercadorias industrializadas
em algumas aldeias, a contratação de índios para prestação
de serviços temporários ou definitivos.
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