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ORGANIZAÇÃO SOCIAL   
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ORGANIZAÇÃO SOCIAL

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Como para a maioria dos grupos indígenas da região das Güianas, a estrutura social dos Aparai e Wayana caracteriza-se pela ausência de unidades sociais permanentes (clãs, linhagens, classes de idade etc.), pela distribuição em aldeias pequenas (cuja população não costuma ultrapassar dois dígitos), dispersas e autônomas politicamente, mas interligadas em diferentes graus por laços de parentesco, intercâmbios matrimoniais, de bens e rituais.

Em território brasileiro, com uma população de aproximadamente 415 indivíduos, os Aparai e Wayana encontram-se distribuídos em 15 aldeias ao longo do rio Paru de Leste. As aldeias, pata, reproduzem um padrão formal de organização, composição e tamanho amplamente difundido entre os grupos indígenas da região (Tiriyó, Kaxuyana, Waiãpi, Waiwai etc.), ou seja, relativamente pequenas e dispersas, com cerca de 7 a 30 indivíduos cada, organizadas em torno de parentelas de até quatro gerações. Formalmente, as aldeias são constituídas por um casal, seus filhos e filhas solteiros, suas filhas casadas, genros e netos (às vezes, filhos casados e noras), coincidindo com um grupo doméstico.

A uxorilocalidade – regra segundo a qual o casal vai habitar com a família da moça após a união - não constitui entre os Aparai e Wayana (assim como por toda a Amazônia) uma regra categórica, mas uma tendência, sujeita à negociação entre os parentes dos cônjuges e a fatores como prestígio e poder políticos, distância social, preexistência de laços de afinidade etc.

Não há um termo na língua aparai ou na wayana para designar o grupo doméstico, embora este constitua o núcleo da organização social. Instala-se numa grande clareira junto a uma das margens do rio. Seus membros podem compartilhar um mesmo porto na beira do rio (onde realizam as atividades de higiene pessoal), uma casa para o processamento de mandioca e o mesmo 'fogo para cozinhar alimentos' apoto. Ao grupo doméstico corresponde um conjunto de residências tapyi (onde habitam famílias nucleares: um casal e seus filho(a)s solteiros), dispostas em torno de um pequeno pátio.

Casas

As residências, tapyi, são constituídas por várias 'casas': um casa dormitório, tapyi; uma cozinha ou "casa do fogo para cozinhar", apoto tapyiny; uma casa para a produção de beiju e farinha; em alguns casos, separada desta última, uma "casa de forno", orinató tapyiny; uma casa para realização de serviços domésticos, como a confecção de cestaria erohtopo tapyiny; uma casa para os cachorros. Em geral, a residência tapyi corresponde a uma família nuclear, mas, ela também pode abrigar uma avó viúva, acompanhada ou não por um de seus netos, ou ainda, ser compartilhada – sobretudo a cozinha – por parte do grupo doméstico (servindo a dois irmãos casados ou a sogro e genro, por exemplo).

Existem três tipos de casas tradicionais:

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tahkuekemy - casa de estrutura ovalada de um andar com assoalho e paredes de paxiúba ou achas de madeira, semi-aberta ou fechada, com teto coberto de folhas de ubim e bacaba.

tyrakamano - casa térrea de estrutura ovalada sem assoalho, fechada até o chão com paredes de paxiúba ou achas de madeira, e teto coberto com folhas de ubim e bacaba.

tymanakemy - casa de estrutura ovalada de dois andares c/ assoalho de paxiúba, semi-aberta ou fechada e teto coberto com folhas de ubim e bacaba.

 

Com a mudança dos assentamentos para as margens do rio Paru, além da redução do tamanho das casas e do estilo de construção, a forma de ocupação do território foi alterada, assim como algumas relações sociais. Além disso, existem hoje em dia casas cujo padrão arquitetônico está baseado nas casas de caboclos e ribeirinhos, de estrutura retangular, com assoalho e paredes de madeira, telhas de zinco, portas e fechaduras.

Além das residências de moradia fixa, podem ser construídas casas provisórias nas roças quando estas não se encontram próximas às aldeias. Cabe ao chefe da aldeia a escolha do local para edificação das casas assim como o consentimento para a abertura das roças.

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Na maioria das aldeias, há uma casa de reunião ou "prefeitura", poro'topo (aparai) /ou tukusipan (wayana), que se destaca das demais pela forma e localização. Disposta no 'centro' da aldeia, ela é visível a todos, possibilitando saber quem chegou, o que se está fazendo etc. Entretanto, se é um lugar de onde todos podem ser vistos, sua forma impede os que estão no seu interior de ver os demais. Tais construções se destinam em primeiro lugar a acolher os visitantes (de outras aldeias, outros índios e não-índios) e à realização de festas (onde se abrigam os adornos). Há menos de uma geração passou a ser um local para outras atividades 'comunitárias', tais como reuniões políticas e cultos cristãos.

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Aldeias

Se formalmente as aldeias tendem a coincidir com um grupo doméstico, na prática, algumas aldeias são constituídas por mais de um, unidos por laços de parentesco. De qualquer modo, a grande maioria reproduz o padrão acima descrito. A única exceção é a aldeia Apalaí (também conhecida por Bona), que integra mais de 150 indivíduos, distribuídos em quatro grupos domésticos principais. Fundada no início dos anos 1960 com a abertura de uma pista de pouso pela FAB (1969), a instalação de um pequeno destacamento (de 1973 a 1976) e de um Posto da FUNAI (em 1973), ela integrava uma política dos órgãos assistenciais de concentrar os índios numa única aldeia, de modo a facilitar sua assistência, entre outras coisas. Logo após a sua criação, esta aldeia chegou a concentrar 60% da população total aparai e wayana no Brasil.

Todavia, a localização da aldeia Apalaí não obedece aos critérios culturais indígenas – proximidade de água límpida e piscosa, de terras propícias para o cultivo (solo fértil e sem formigas), de matérias-primas e combustível (madeira, lenha, cipós etc.), distanciamento de antigas malocas (sobretudo aquelas que foram abandonadas após o falecimento de seu chefe), de poços e águas profundas —, mas privilegia a comodidade dos funcionários que ali atuam. Por conseguinte, após os primeiros anos de concentração populacional e sedentarização em torno do posto da Funai na aldeia Apalaí, o crescimento demográfico passou a ser acompanhado por uma retomada gradual do padrão tradicional de ocupação dispersa e descentralizada do território. Novas aldeias foram fundadas, ainda que no rio Paru de Leste e próximas aos postos de assistência existentes, de modo a conciliar o padrão tradicional de composição e dimensão das aldeias com o acesso a assistência, comunicação, bens de consumo e trabalho remunerado.

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As aldeias aparai e wayana estão intrinsecamente ligadas aos seus respectivos fundadores e chefes. Em geral, aquele que fundou uma aldeia é o seu chefe, pata esemy ou tamuxi. A existência da aldeia está subordinada à vida de seu chefe, à medida que a morte deste tende a resultar na dispersão de seus habitantes que fundam novas aldeias ou migram para as já existentes. No entanto, para se entender a existência e a reprodução das aldeias aparai e wayana, é preciso não só considerar as relações contraídas em seu interior (por seu chefe com os demais membros), mas também aquelas que ligam as aldeias entre si.

As aldeias aparai e wayana encontram-se interligadas por meio de laços de consangüinidade e/ou de afinidade (intercasamentos), redes de cooperação e solidariedade (prestação de serviços e ajudas mútuas), trocas de bens, rituais etc. Idealmente, a distância espacial entre os grupos domésticos e aldeias tende a coincidir com a distância social entre estes. Isto é, grupos domésticos co-residentes, assim como aldeias vizinhas, são mais próximos e suas relações mais intensas do que com grupos domésticos ou aldeias mais distantes. Aldeias mais próximas, portanto, intensamente relacionadas, constituem uma unidade social maior, que se pode chamar por grupo local. O grupo local não é, de modo algum, perene e totalizável em termos de território ou de parentesco. Ao contrário, sua natureza é transitória.

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A rede de sociabilidade que liga um grupo doméstico a outro não é tão estreita a ponto de se esgotar na população de uma aldeia pequena, tampouco é ampla o suficiente para abarcar toda a população aparai e wayana com o mesmo grau e intensidade de relações. Ou seja, os grupos locais são aglomerados onde há maior densidade de relações, onde tende a predominar uma certa endogamia, embora em seu interior seus grupos domésticos procurem diversificar e expandir suas alianças para além do grupo local. O grupo local pode ser identificado por meio de genealogias que revelem a existência de laços de parentesco consanguíneo e/ou afim, há mais de duas gerações, entre duas ou mais aldeias. Ele corresponde a um conjunto de duas ou mais aldeias vinculadas entre si por consangüinidade (particularmente, filiação ou germanidade) ou pela reiteração de laços de afinidade por mais de uma geração. É bem provável que a categoria aparai –ekyry, traduzida por "parente", designe os membros de um mesmo grupo local.

Entre si e entre outros

Em termos gerais, o sistema de parentesco aparai e wayana, como em grande parte da Amazônia, caracteriza-se pela ausência de grupos e regras de descendência e por repousar sobre a dicotomia básica consanguíneos/afins, expressa por uma regra de casamento entre primos cruzados bilaterais (preferencialmente, o rapaz casa com a filha do irmão da mãe e a moça com o filho da irmã do pai).

Num nível restrito às relações intra e interaldeias, opera a categoria -ekyry, traduzida pelos próprios índios como "parente", englobando algumas posições consanguíneas e afins, co-residentes e não co-residentes. O uso de expressões como -ekyry manory ou –ekyry poto rokene ("parentes falsos", "não muito parentes" ou "pouco parentes") indica a existência de gradações classificatórias no uso dessa categoria, que denotam proximidade/distância em termos genealógicos e/ou geográficos. Em certa medida, trata-se de uma classificação em grau e intensidade (“mais” ou “menos” parente) e não de natureza, remetendo a um gradiente de proximidade sociológica, irredutível a uma simples oposição diametral entre “parentes” e “não-parentes”.

Desempenhando um papel social importante estão as categorias -poetory (em aparai) e peito (em wayana), que se aplicam aos co-residentes e subordinados de um chefe de aldeia, sendo traduzidas como "parente", "povo" e ainda "empregado". Em primeiro lugar, trata-se da forma genérica para se referir a todos aqueles que habitam a mesma aldeia, encontrando-se subordinados a um chefe comum. Em segundo lugar, esta categoria representa uma 'relação-instituição' amplamente difundida entre os povos falantes de línguas Karib da região das Güianas. Em termos gerais, esses cognatos assinalam a incorporação de alguém à aldeia ou ao grupo local enquanto aliado potencial, seja um genro (marido da filha) ou cunhado (marido da irmã) atraído pela tendência à uxorilocalidade, seja ainda um cativo de guerra.

Aos grupos de "parentes" -ekyry e de "co-residentes" -poetory, opõem-se a categoria de alteridade pãna (ou pawana, em wayana). Tanto para os Aparai como os Wayana, essas categorias designam 'forasteiro', 'não parente', alguém que não se conhece ainda e/ou membros de outras etnias, índios e não índios (note-se que no alto Maroni, os turistas são chamados de pawana). Elas pertencem a um amplo conjunto de cognatos em línguas Karib, adquirindo sentidos pouco diferentes em cada lugar. Para a maioria dos grupos Karib, inclusive os Wayana, pawana e seus cognatos denotam a 'parceria formal de troca', estabelecida com indivíduos não aparentados. Porém, entre os Aparai, pãna refere-se apenas a indivíduos não aparentados e socialmente distantes, empregando-se outro termo para designar a 'parceria formal de troca', a saber, -epe.

De qualquer modo, a 'parceria (ou "amizade") formal de troca', -epe (pawana, em wayana), é estabelecida com alguém com o qual não se possui um laço de parentesco relevante, nem proximidade geográfica – em geral com um membro de outra etnia, índio ou não-índio (Tiriyó, Wayana do Suriname ou Güiana Francesa, Negros Marrons ou Meikoro e brasileiros). Trata-se de uma relação diádica específica de oferta de presentes, troca de bens e de hospitalidade, marcada pela exclusividade e lealdade. Entre tais parceiros de troca, um pedido não pode jamais ser recusado, um compromisso jamais esquecido, mesmo que ele se conclua após anos. Concebida como uma relação simétrica e duradoura, esta relação repousa numa forma de reciprocidade diferida, de longo prazo, baseada em adiantamentos e endividamentos mútuos.

Os Aparai e Wayana designam os demais grupos indígenas da região (Waiãpi, Tiriyó, Akurió, Hixkariyana, Galibi e Palikur, entre outros) por estes mesmos etnônimos, sem integrá-los numa categoria mais abrangente. Isso, entretanto, não exclui o fenômeno de ‘aparaização’ ou ´wayanização´, ou seja, todos os grupos indígenas próximos são englobados à sua etnia. Um traço comum aos grupos das Güianas consiste em conceber suas relações mais estreitas com outros grupos como um processo de "aculturação" e de "socialização": cada grupo se vê como agente da 'socialização' (nos seus padrões) de outro com o qual se relaciona. Os Wayana 'wayanizam', os Aparai 'aparaizam', os Waiwai 'waiwaizam' e assim por diante. Esta 'socialização' se dá por meio de trocas e intercasamentos, resultando, em última instância, em fusões como as que se deram no passado, constituindo os atuais Aparai e Wayana. Por 'socializar' entenda-se ensinar o ethos do próprio grupo aos demais (seus valores, normas de conduta etc.).

No entanto, o termo aparai ituakyry, traduzido literalmente por “habitante (ou gente) da floresta", designa para os Aparai e Wayana todos os grupos indígenas arredios e hostis não contatados, que habitam o interior da mata. Tais "índios bravos" se opõem aos grupos indígenas "amansados", que ocupam atualmente as margens dos rios (entre os quais, os Aparai e Wayana). Com a intensificação das relações com a sociedade envolvente e, por conseguinte, da dicotomia entre índios/não-índios, o vocábulo ituakyry adquiriu um novo sentido, mais inclusivo, vindo a designar genericamente todos os grupos indígenas, arredios ou não, "da floresta” ou "dos rios", "bravos" ou "amansados", inclusive os próprios Aparai e Wayana.

Entre os segmentos sociais e grupos não indígenas com os quais se relacionam, os Aparai e Wayana discriminam: os Boni, Djuka, Saramaká (etnias africanas de negros ex-escravos do Suriname), aos quais lhes é atribuída a categoria genérica meikoro. Os brasileiros são chamados de karaiwá, englobando sem distinção os antigos balateiros, gateiros, garimpeiros, oficiais da FAB, funcionários da FUNAI, pesquisadores etc. Os termos parassissi e urantê referem-se aos não-índios da Güiana Francesa e do Suriname, respectivamente.


01::Maruana, roda de madeira confeccionada para ser posta no teto da casa tukusipam.
foto: Paula Morgado, 1989.

02::Aldeia no alto curso do Rio Paru de Leste, no Pará. No centro, a tukusipan; à direita, o campo de pouso da FAB. foto: Daniel Schoepf, 1976.

03:: Vista parcial da aldeia Anapuaka no médio-alto Rio Paru de Leste. foto: Daniel Schoepf, 1975.

04:: Tukusipam na aldeia Twemke, na Guiana Francesa. Foto: Paula Morgado, 2001.

05::Aldeia Bona (antigo nome da aldeia Apalai), no Rio Paru. foto: Agência O Globo, 1981.

06::Vista parcial da aldeia Likirekiclepau, no rio Citaré. O local estava sendo abondonado depois da morte de seu chefe. foto: Daniel Schoepf, 1972.

07::Vista parcial da aldeia Bona (antigo nome da aldeia Apalai). Terreiro central, peloto, e casas familiares do tipo semi-tradicional. Ao fundo, o campo de pouso da FAB. foto: Daniel Schoepf, 1972.

Gabriel Coutinho Barbosa
ggabrielbar@gmail.com
Antropólogo

Paula Morgado
lopes@usp.br
Antropóloga
LISA [Laboratório de Imagem e Som em Antropologia]. Depto. de Antropologia [FFLCH-USP]

Outubro de 2003

 
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