A inserção dos Aranã
no movimento indígena e sua busca pela identificação
étnica é recente, datando do final da
década de 1990, após um grupo familiar
da etnia Pankararu, originário de Pernambuco,
ter migrado para a Fazenda Alagadiço, município
de Coronel Murta, ocupando terra doada pela Diocese
de Araçuaí, onde moram algumas famílias
aranã.
Até antes da chegada dos Pankararu,
o grupo indígena era conhecido pelas denominações
Índio e Caboclo do Jequitinhonha. O convívio
com os indígenas de Pernambuco, que participavam
do movimento e da luta pelos direitos indígenas,
estimularam o desejo antigo do grupo de investigação
sobre sua origem étnica. Particularmente, o convívio
com os Pankararu foi despertando nessas famílias
indígenas a reflexão sobre sua condição
social e histórica. Num processo crescente de
revalorização de sua identidade étnica,
esse grupo indígena buscou o apoio da organização
não governamental CEDEFES (Centro de Documentação
Eloy Ferreira da Silva) para desvelar sua origem e lutar
por seus direitos.
De acordo com Dona Rosa Índia, presidente
do CIAPS (Conselho Indígena Aranã Pedro
Sangê), o desejo de saber a qual povo étnico
pertencia sua família sempre existiu. Entretanto,
com a presença dos Pankararu e com o apoio da
indigenista Geralda Soares e da antropóloga Izabel
Mattos seu povo conseguiu o apoio necessário
para investigar e descobrir sua origem étnica.
O etnônimo Aranã
A historiografia oficial aponta para a extinção
do povo Aranã ainda no século XIX. Contudo,
o grupo Aranã contemporâneo remonta sua
história a partir de um ancestral -Manoel
Índio (também referido como
Manoel Caboclo), que foi, segundo a memória oral
de seus descendentes, um dos indígenas aldeados
em Itambacuri, região do Vale do Rio Mucuri,
Minas Gerais.
Em pesquisa nos arquivos do aldeamento capuchinho
de Nossa Senhora da Conceição de Itambacuri,
a antropóloga Izabel Missagia Mattos localizou
registro de Manoel Índio de Souza, identificado
como índio Aranã, subgrupo dos famosos
Botucudo.
De acordo com a pesquisa documental realizada
por Mattos, consta no Livro de Matrícula das
Alunas do Colégio Santa Clara, aldeamento de
Itambacuri, ano 1918, o registro da aluna Idalina Índia
dos Santos, filha de Manoel Índio de Souza, falecido
(Livro ano 1908/1927, p. 29). Ainda no mesmo livro de
matrícula, todavia em documento datado de 1923,
o registro de Idalina Índia dos Santos sofre
o acréscimo da sua identificação
étnica: Aranã. Estes dados sugerem a possibilidade
de o citado Manoel Índio de Souza ser o mesmo
Manoel presente na memória oral do grupo familiar
Índio.
Mattos (2002a), que compulsou sistematicamente
a documentação referente aos aldeados
de Itambacuri, informa não ter encontrado o sobrenome
Índio associado a quaisquer outras designações
étnicas que não Aranã. A relação
entre o patronímico Índio e o etnônimo
Aranã é reforçada por outra pesquisa
documental, realizada pelo professor e historiador José
Carlos Machado, na Paróquia de Capelinha. Consta
no Livro de Casamento nº 1 da referida Paróquia,
registro nº140, p. 203, que:
Aos vinte e um de outubro de mil oitocentos e oitenta
e seis, dispensados por mim das três denunciações
canônicas, servi de poderes delegados pelo Revmº
Sr. Bispo Diocesano, na Capela de Santo Antônio
do Surubim, em minha presença e das testemunhas
Santos Alves dos Santos e Lucas Pereira de Souza, se
receberam em matrimônio Manoel Miguel e Claudiana,
índios, ele filho de Miguel Índio, e natural
das matas do Surubim, tribo dos Aranã, e ela
filha de Joaquim Gomes, índio, e de Luzia, índia,
e natural das matas do Bonito. Dei-lhes as bênçãos
nupciais. Os nubentes reconheceram como seus filhos
Salvina e Delfina, os quais declarei legitimados pelo
matrimônio subseqüente. Para constar, faço
este assento. O Vigário João Antônio
Pimenta.
Apesar dos documentos acima citados apontarem
para a possível origem social do grupo em questão,
não há necessariamente uma "continuidade
histórica" direta entre os Aranã
de Itambacuri e os Aranã do Vale do Jequitinhonha.
Os Índio e Caboclo do Jequitinhonha
ou Aranã atuais, em processo de emergência
étnica, constituíram-se através
de um longo processo de aliança e hibridação
entre duas principais famílias de origem indígena,
na qual apenas uma delas remonta seu passado ao aldeamento
missionário de Itambacuri.
Contudo, a forte referência ao aldeamento
de Itambacuri e os dados de pesquisa sobre a possível
vinculação do sobrenome Índio com
o etnônimo Aranã fez com que o grupo, como
um todo, num processo dinâmico de busca de sua
origem étnica, se identificasse com a história
"oficial" do povo Aranã.
Ao remeterem a origem do grupo ao aldeamento
de Itambacuri e à ocupação indígena
na região do Vale do Jequitinhonha, a história
de constituição dos Aranã caracteriza-se
pela união entre grupos com origem indígena
que foram levados para cidades e fazendas da região
e que, ao longo do século XX, constituíram-se
como comunidade que traz consigo a consciência
da origem indígena.
Assim, mais do que uma identificação
genérica, as denominações "índio"
e "caboclo" configuram-se, no caso aranã,
como patronímico (sobrenome oficial), no caso
da família Índio, e como "patromínico
apelido" (Mattos, 2002b), no caso da família
Caboclo. Para as famílias aranã que possuem
o sobrenome Índio, este simboliza, para elas,
a "prova" da identidade indígena, a
marca da diferença. Já a denominação
Caboclo, que não se configura propriamente como
patronímico, está, entretanto, tão
fortemente presente na identificação intra
e extra grupal que podemos entendê-la como um
"patronímico apelido".
Os patriarcas
De acordo com sua memória oral, o principal
ancestral dos Aranã contemporâneos, Manoel
Índio ou Manoel Caboclo, teria sido "adquirido"
por um grande fazendeiro da região do médio
Jequitinhonha e residido na pequena cidade de Virgem
da Lapa, onde ficou conhecido por exercer a atividade
de tropeiro. Para os Aranã, Manoel estabelece
o elo de ligação histórica entre
a "vida no mato" e a "vida nas cidades"
do seu povo.
Segundo o Senhor Jumá Índio,
neto de Manoel, seu avô foi "pego no mato",
na região de Itambacuri, já adulto. A
imagem de Manoel Índio é associada, pelos
Aranã, à imagem de "índio
bravo", "índio do mato". Todavia,
capturado e levado para o aldeamento de Itambacuri e
depois para trabalhar para a família Murta, Manoel
teria vivido grande parte de sua vida distante de seu
povo e sob regime de trabalho escravo, na região
da cidade de Virgem da Lapa.
Vítima de um processo de desenraizamento
imposto, Manoel teria se casado com Isabel, que, segundo
a memória oral aranã, seria também
indígena de Itambacuri. Segundo o Senhor Jumá,
Manoel e Isabel teriam tido três filhos, sendo
o caçula, Pedro Inácio Figueiredo, o patriarca
dos atuais Aranã do Vale do Jequitinhonha. Jumá
diz não ter conhecido os irmãos de seu
pai, apesar de saber que eles viveram em Virgem da Lapa,
tornando-se conhecidos na região pelo apelido
de "Boquinha" ou "Boquim", expressão
advinda provavelmente da palavra caboclo, e pela qual
era conhecido inclusive Manoel.
Segundo informações dos Aranã
e breve pesquisa documental realizada pela equipe do
CEDEFES, ANAI (Associação Nacional de
Ação Indigenista) e PRMG (Procuradoria
da República em Minas Gerais) em Virgem da Lapa,
o patronímico Índio não se faz
presente no registro oficial dos descendentes de Manoel
Índio, que, ao que tudo indica, recebeu em seus
registros oficiais o sobrenome do patrão, prática
muito comum à época.
O herói cultural Pedro Sangê
Pedro Inácio Figueiredo, Pedro Inácio
Izidoro ou Pedro Sangê, como ficou conhecido na
região, provavelmente nasceu no ano de 1883,
na Fazenda Alagadiço, tendo falecido no final
da década de 1960. Pedro Sangê viveu a
maior parte de sua vida trabalhando para a tradicional
família Figueiredo Murta, que lhe possibilitou
o acesso à educação formal. Segundo
seus descendentes, Pedro nunca se dedicou ao trabalho
agrícola ou à pecuária. Casou-se
duas vezes e teve 13 filhos, todos com o sobrenome Índio.
A admiração por Pedro Sangê
é grande entre os Aranã. Seus filhos não
conseguem findar a lista de qualidades e apelidos do
pai reconhecidos pela população local.
Segundo sua filha caçula, Rosa, seu pai possuía
grande espiritualidade e religiosidade, o que foi responsável
por vários de seus apelidos, inclusive o de Pedro
Conselheiro. Referência também para a arte
de cozinhar e para confeccionar artesanato em couro,
ele era chamado por vários fazendeiros para prestar
serviços temporários.
O fato de ter sido alfabetizado e de desenvolver
atividades artesanais certamente fez com que Pedro Sangê
se destacasse no contexto da população
trabalhadora regional; bem como o seu forte vínculo
com a Igreja Católica e sua proximidade com os
padres. Estas características, somadas às
suas outras habilidades e à sua aparente negação
à realização de trabalhos agrícolas,
parecem lhe ter proporcionado, em sua juventude, uma
vida independente e errante pelas fazendas da região.
Contudo, após seu segundo casamento, os nascimentos
dos seus filhos, com limitações advindas
de problemas de saúde e idade, entre outros,
Pedro se fixou na Fazenda Campo. Lá ocupava,
provavelmente, uma função de administrador.
Contudo, uma de suas principais tarefas era a de ler
diariamente livros de literatura e jornais para seu
patrão, Senhor Miguel Izidoro Murta, que perdera
a visão aos 25 anos de idade. Atividade pouco
comum, essa responsabilidade Pedro Sangê só
deixou de exercer quando também perdeu a visão.
Sob diferentes alegações, os descendentes
de Pedro Sangê associam sua deficiência
visual à de seu patriarca.
Contudo, vale salientar que, apesar da deficiência
visual, Pedro Sangê continuou trabalhando na fazenda
e exercendo seu papel de líder, permanecendo
como uma referência para a vida de sua comunidade.
Capaz de agregar seus descendentes, ele se transformou
numa figura heróica para os Aranã por
sua personalidade.
Apesar da identidade indígena do grupo
se apresentar fortemente relacionada com o sobrenome
Índio, os Aranã ressaltam que seu povo
não se restringe à história do
grupo familiar Índio. Os Aranã atuais
constituíram-se através de um processo
de aliança entre as famílias Índio
e Caboclo, como ressalta Tião Caboclo:
Tem muitas famílias aqui (...). Fora isso,
tem a família Caboclo e a família Sangê,
mas o povo é um só.
É... O nome Aranã eu acho que pode
ser o povo Aranã; a família é diferente.
A família pode ser família Cabocla, família
Sangê... igual tem família Sangê...
Agora o povo é Aranã. (Fazenda Taquaral,
reunião com os Aranã, 31/03/2001)
Segundo o Senhor Jumá e Dona Terezinha,
filhos de Pedro Sangê, a união entre as
famílias Caboclo e Índio teve início
quando do casamento de seus pais, Pedro Sangê
e Maria Rosa das Neves. Maria teria nascido na Fazenda
Alagadiço, no ano de 1910, conforme sua certidão
de casamento com Pedro Sangê, pertencendo ao grupo
familiar Caboclo.
Contudo, teria sido na Fazenda Campo, local
onde nasceram todos os filhos do casamento de Pedro
Sangê e Maria Rosa, que o processo de aliança
entre as famílias Caboclo e Índio intensificou-se,
ainda no início do século XX.
A família Caboclo remete seu passado
indígena à região de Coronel Murta.
Segundo o octogenário Senhor Hildebrando Freire
Figueiredo Murta, quando a cidade foi fundada por sua
família, era de conhecimento de todos a presença
indígena na região. Os índios eram
identificados pelas denominações genéricas
de Tapuia e/ou Tocoiós, sendo esta última
designação relativa ao aldeamento existente
na região no século XVIII.
De acordo com Dona Luzia Cabocla, principal
guardiã da memória oral do grupo familiar,
a história de sua família remonta ao processo
de miscigenação entre índios, negros
e brancos trabalhadores da região de Coronel
Murta. As fazendas Vereda, Cristal e Alagadiço,
próximas ao aldeamento de Lorena de Tocoiós,
configuram-se como principais locais de referência
da presença dos Caboclo.
Para os Caboclo, a origem indígena remete
a um passado mais distante que aquele reportado pela
família Índio, algo em torno de quatro
gerações passadas. A família Caboclo
traz consigo, de forma mais acentuada, a idéia
de miscigenação. Todavia, refere à
origem e identidade indígenas como bases para
a ligação e a afinidade com a família
Índio. Também para eles, a consciência
de um passado comum proporciona um sentimento de pertença
de inequívoco apelo étnico.
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