Ao se inserirem no movimento indígena,
com apoio do Cimi (Conselho Indigenista Missionário),
do GTME (Grupo de Trabalho Missionário Evangélico)
e do CEDEFES (Centro de Documentação Eloy
Ferreira da Silva), os Aranã deram início
ao processo de investigação de sua própria
história, ampliando seus conhecimentos acerca
da realidade indígena no Brasil contemporâneo.
Participando das semanas dos Povos Indígenas
em Belo Horizonte, das reuniões do Conselho dos
Povos Indígenas de Minas Gerais, da Comissão
das Mulheres Indígenas do Leste, da Marcha 500
Anos Brasil, entre outros eventos, os Aranã conquistaram
seu espaço político e reforçaram
a luta dos povos resistentes no país.
Histórias foram reacendidas, direitos foram descobertos,
projetos de futuro foram redimensionados. O sonho da
vida em comunidade ganhou, enfim, perspectivas. Engajados
no movimento indígena, os Aranã se organizaram
para pesquisar sua história, sua origem étnica
e para conquistar seus direitos, sendo o primeiro deles
a terra.
Em 19 de outubro de 2000, juntamente com o
povo Caxixó, enviaram à Fundação
Nacional de Saúde (Funasa) documento solicitando
sua inclusão no Programa de Atenção
à Saúde do Índio, participação
nos encontros de saúde promovidos pelo Distrito
Especial de Saúde do Índio, participação
nos cursos de formação para agentes indígenas
de saúde, valorização de sua medicina
tradicional e cumprimento das diretrizes nacionais para
o atendimento à saúde indígena.
Sem resposta formal da Funasa e cientes de que a não
inserção dos Aranã nas políticas
públicas referentes aos povos indígenas
apoiar-se-ia em alegações quanto à
ausência de "reconhecimento étnico
oficial" do grupo, os Aranã encaminharam,
a 25 de outubro de 2000, novo documento à Procuradoria
da República, solicitando parecer da instituição
sobre sua "identidade étnica".
Neste mesmo ano, os Aranã solicitaram
ao CEDEFES, que possuía um projeto de apoio ao
grupo, que seu trabalho pudesse constituir também
de uma peça técnica para suporte à
inserção aranã nas políticas
públicas indigenistas. Em janeiro de 2001, o
CEDEFES iniciou os trabalhos referentes ao projeto e,
no decorrer do primeiro semestre, em diálogo
com a Procuradoria, foi acordada uma parceria entre
as duas instituições a fim de produzir
um relatório que subsidiasse o poder público
de informações sobre a história
e a identidade étnica do povo Aranã.
Em março de 2001, com o objetivo de
conquistar maior legitimidade e autonomia política,
os Aranã criaram o CIAPS (Conselho Indígena
Aranã Pedro Sangê).
Em julho de 2001, com a intenção
de manter os contatos com o órgão indigenista
oficial e de otimizar o processo de "oficialização"
do reconhecimento de sua identidade indígena,
os Aranã enviaram documento à Administração
Executiva Regional da FUNAI em Governador Valadares,
informando sobre sua atual situação e
solicitando sua inserção nos programas
governamentais destinados aos povos indígenas.
No dia 01 de outubro de 2001, ainda sem resposta
da Funai, os Aranã solicitaram uma reunião
com a Procuradoria da República para expor sua
situação e a ausência de respostas
dos organismos governamentais às suas demandas,
bem como solicitar à instituição
apoio para encaminhamentos do caso. Em resposta, no
dia 08 de outubro, Doutor Álvaro Ricardo de Souza
Cruz, Procurador, encaminhou ao coordenador regional
da Fundação Nacional de Saúde uma
recomendação (nº8/2001) "objetivando
a inclusão do Povo Indígena Aranã,
em fase de estudos sobre o seu reconhecimento, para
fins de assistência à saúde, incluindo-o
no conjunto de população alvo da política
de atenção à saúde indígena
no Estado de Minas Gerais".
Assim, a partir do ano de 2002, os Aranã
passaram a ser atendidos pelo Programa de Saúde
do Índio no estado, consolidando a primeira vitória
do grupo na luta pela inserção e acesso
às políticas públicas indigenistas.
Segundo o cadastramento prévio da Funasa,
realizado com base em levantamento preliminar do CIAPS
em 2000, cerca de 30 famílias aranã na
região de Coronel Murta e Araçuaí
são assistidas pelo Programa de Saúde
dos Povos Indígenas. A base econômica das
famílias que residem nas áreas rurais
advém de serviços prestados nas fazendas
dos municípios de Coronel Murta e Araçuaí,
da agricultura de subsistência - principalmente
de milho, mandioca, feijão, melancia, abóbora
e de hortas - e de aposentadorias. As famílias
que residem nas áreas urbanas têm nas aposentadorias
a sua principal fonte de renda, enquanto que os mais
jovens exercem atividades diversas: professores da rede
municipal de ensino, vigilantes de prédios, auxiliares
de escritório e serviços em geral.
Em processo de emergência étnica,
os Aranã são questionados sobre seu modo
de ser, sobre a semelhança deste com o cotidiano
de vida dos trabalhadores rurais da região e
seu esteriótipo. Quanto a isso, eles comentam:
Paulinho Aranã (Jibóia): Na
questão indígena (...) o que conta muito
é a aparência. Se o cara não tiver
a aparência de índio, os caras falam: 'você
não é índio! Você está
é aproveitando!' Eles falam mesmo! (...) Lá
no encontro que teve lá [em Cuiabá,
curso para formação de lideranças
indígenas, organizado pelo GTME] (...), na
hora de começar o encontro, a menina, quando
pediu pra cada um fazer uma mensagem na própria
língua, foi um aperto... Aí, um fala na
língua dele, outro fala, aí vai rolando...
Aí chegou perto de mim, assim... aí o
rapaz disse que não sabia falar a língua
dele e passou... Aí, só eu e mais uns
dois que não falaram nada... uma mensagem na
língua.
Manuel: Fui criado com fazendeiro, trabalhei
com fazendeiro; como que eu posso saber?...
Paulinho: Pois é... Nós marcamos
bobeira danada. Nós podíamos ter falado:
'bom dia para vocês todos aí.' Mas no momento
que fala da língua tradicional, aí a gente
não pensa.
Outro Aranã: Aí, se perguntar,
você fala: 'eu aprendi foi assim´.
Manuel Aranã: Com tanto massacre
que a gente teve... sofrimento que foi..
Mulher Aranã: Eu não aprendi
outra língua; eu aprendi foi essa.
(Reunião com os Aranã, Fazenda Taquaral,
31/03/2001)
Para os Aranã, a diferença entre
seu povo e a sociedade envolvente não está
na forma de sobrevivência, na língua, na
"aparência". Para eles, a diferença
passa por outras categorias, como ocorre para outros
povos indígenas inseridos em contextos regionais
com séculos de colonização européia.
Para o grupo, ser Aranã é possuir uma
história comum, uma origem indígena comum,
que une através de laços de parentesco
um grupo restrito de pessoas. É através
desse sentimento que os Aranã se organizam, que
obtêm apoio de índios e não índios
e que reivindicam hoje o direito de viver em comunidade,
o direito de ter uma terra.
Os Aranã foram reconhecidos oficialmente
pelo governo brasileiro em maio de 2003. Dois fatores
foram considerados preponderantes para essa conquista:
o envio do relatório "Aranã: a luta
de um povo no Vale do Jequitinhonha", de autoria
do CEDEFES/ANAI/PRMG, e que subsidia o órgão
indigenista oficial de informações acerca
da história do grupo étnico; e o fato
político do Brasil ter se tornado signatário
da Convenção 169 da OIT (Organização
Internacional do Trabalho), que trata da auto-declaração
como critério único para o reconhecimento
étnico oficial.
Atualmente, os Aranã aguardam o órgão
indigenista oficial (FUNAI) iniciar o trabalho de identificação
da Terra Indígena. De acordo com técnico
do DAF (Departamento de Assuntos Fundiários da
FUNAI), uma equipe técnica do órgão
deve ir à região do Vale do Jequitinhonha
em 2004 para iniciar o trabalho de levantamento fundiário
e diálogo com o povo indígena Aranã.
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