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Dois são os grandes problemas com que os Arara
se vêem às voltas na atualidade. Um deles
é a recorrente situação das terras
indígenas, com a indefinição oficial
sobre a TI Cachoeira Seca do Iriri, sempre projetada para
ser contígua à TI Arara, permitindo a reconstrução
dos processos tradicionais de interação
com o subgrupo lá aldeado e a garantia do necessário
suporte espacial e ambiental para a reprodução
do modo de vida Arara em seus próprios termos.
Em 1994, por indicação da Associação
Brasileira de Antropologia, atendi a uma solicitação
da FUNAI para proceder a novos estudos sobre a definição
da área indígena Cachoeira Seca do Iriri,
onde foi aldeado o subgrupo contatado em 1987. A despeito
do enorme esforço e do envolvimento dos próprios
índios e de entidades e representantes de colonos
e posseiros, que permitiram a construção
de uma proposta acordada e relativamente consensual
para a definição dos limites da área,
solucionando problemas anteriormente causados pela inépcia
e incompetência de alguns, não foi dado
o seguimento devido ao processo de regularização
da área, por razões que ignoro, mas das
quais já desconfio.
O outro problema é o modo rápido,
e muitas vezes desagregador, como estão se dando
as interações dos índios com os
milhares de colonos que os cercam. Apenas por conta
de sua população pequena, do crescimento
demográfico relativamente rápido e do
aumento da influência do português no dia-a-dia,
a reprodução sociocultural Arara já
poderia estar bastante comprometida.
Entre 1987 e 1992, mesmo entre os mais novos
e as mulheres - que têm uma interação
mais constante com o pessoal do Posto da FUNAI -, raros
eram aqueles que falavam de modo mais fluente o português.
A partir de então, com a introdução
progressiva de uma escola, com professoras contratadas
pela Prelazia do Xingu, crianças e adolescentes
começaram a usar mais intensamente o português,
chegando a substituir o idioma nativo mesmo quando apenas
entre si. Mas, em 1994, os índios adultos mais
velhos ainda eram, com poucas exceções,
quase que completamente monolíngues.
Agravando a situação, vários
homens adultos, sobretudo aqueles que se mudaram para
o posto de vigilância, começam a buscar
junto aos colonos, vizinhos naquele limite da área,
o acesso aos bens materiais que a FUNAI não mais
fornece: em troca, muitas vezes os Arara têm deixado
seus próprios afazeres para cederem seu trabalho
às tarefas dos colonos. Esta interação
cada vez mais constante tem aumentando também
a influência de igrejas protestantes - que há
muito já se insinuavam na escamoteada presença
de um missionário dublê de lingüista
entre os índios do posto de vigilância
-, e começa a mostrar seus outros efeitos deletérios,
como o consumo descomedido e descontextualizado de bebidas
alcoólicas, que é estranha às tradições
Arara mas comuns entre os colonos daquela região.
Até quando tudo isto ficará circunscrito
à parcela da população que, induzida
a viver no posto de vigilância, está mais
próxima e sujeita às influências
perversas é algo que ainda não se consegue
antever. Mas a realidade futura dos Arara dependerá
certamente da capacidade que tenham de interagir sem
perder as condições fundamentais para
sua própria reprodução e manutenção
dos aspectos centrais de seu modo de vida e sua visão
de mundo.
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