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A história do contato dos Arara com a sociedade
nacional é relativamente longa. Desde 1850 há
notícias de contatos pacíficos entre índios
Arara e moradores da região ribeirinha dos rios
Xingu e Iriri nas proximidades de Altamira. Em 1853
eles figuram pela primeira vez nos registros oficiais,
constando dos relatórios do Presidente da Província
do Pará, depois de aparecem pacificamente no
baixo rio Xingu. Em 1861, um grupo Arara permanece cerca
de dez dias entre seringueiros abaixo da Cachoeira Grande
do Iriri. Em 1873, o Bispo Dom Macedo Costa leva alguns
Arara para Belém.
Entre 1889 e 1894, eles são perseguidos
por seringueiros na região do divisor de águas
Amazonas-Xingu/Iriri. Durante sua expedição
ao Xingu, em 1896, Coudreau encontra apenas uma única
índia Arara, mas recolhe mais informações
sobre eles: o seu caráter pacífico e errante
em toda a região do Xingu e do Iriri, a comentada
beleza de sua mulheres, a sua miscigenação
com outros povos indígenas e, principalmente,
sobre a existência dos "Arara bravos". Nas primeiras
décadas deste século, os Arara chegam
a visitar, em diferentes oportunidades, a cidade de
Altamira.
Em momentos variados da história, muitos
subgrupos Arara foram forçados a pequenas migrações
no amplo território que ocupavam, seja por ataques
de outros grupos indígenas (principalmente Kayapó
e Juruna), seja por perseguições de seringueiros,
caçadores ou colonos. Desde o início dos
anos de 1950, gateiros e seringueiros do rio Iriri encontravam
acidentalmente os Arara, que até o final da década
costumavam aparecer em antigas moradas nas margens do
rio.
Em 1961 os Arara chegaram a ser acossados pela
Polícia de Altamira, que teria perseguido os
índios para vingar a morte de um animal de estimação
de um colono das cercanias da cidade. Em 1963 caçadores
de tartaruga que subiam o Penetecaua são atacados
pelos índios, que derrubam árvores para
fechar o canal e emboscar os caçadores. Em 1964
o sertanista Afonso Alves da Cruz percorre os caminhos
dos índios no Penetecaua: eram largos, grandes
e muito limpos, como se houvesse o trânsito constante
de uma população considerável.
As plantações eram também avantajadas.
Estimou-se o grupo em mais de 300 indivíduos.
Os anos de 1964 e 1965 assistem a uma enorme movimentação
de um grande grupo Kayapó (Kubenkankren) naquela
região, onde teriam ocorrido os maiores conflitos
com os Arara. Estes conflitos com os Kayapó ainda
freqüentam a memória e o imaginário
Arara como causadores de fugas, separações
e desaparecimento de vários dos antigos grupos
locais.
Os anos finais da década de 1960 assistem
a uma mudança profunda na dinâmica de toda
a região próxima à cidade de Altamira,
com o início das obras de construção
da rodovia Transamazônica e a radical transformação
do perfil da região. Planejada para passar exatamente
nos divisores de águas das bacias do Xingu/Iriri
e do Amazonas (dadas as suas melhores condições
geo-morfológicas para a construção
de uma estrada que deveria perenizar-se), a Transamazônica
passou a se impor como uma "barreira" espacial inexistente
anteriormente. Cortando ao meio o território
tradicionalmente usado e ocupado pelos Arara (o divisor
de águas), a nova rodovia se tornou marco e limite
da possibilidade de interação entre vários
subgrupos. O impacto da implantação dos
novos projetos em torno do leito da rodovia Transamazônica
sobre o modo de vida tradicional dos Arara afetou principalmente
o padrão de dispersão espacial e articulação
política dos grupos locais e a possibilidade
de exploração extensiva dos ecótipos
diferenciados (micro-ambientes dos igarapés pertencentes
às bacias do Amazonas e do Xingu/Iriri). A aglutinação
estratégica de vários grupos locais em
aldeias muito próximas para enfrentar as pressões
da penetração não-indígena
na região, e a limitação do território
utilizável apenas à bacia do Xingu/Iriri,
com a restrição do acesso à maior
parte dos igarapés da bacia do Amazonas (que
ficaram ao norte da rodovia) e a conseqüente perda
da flexibilidade na utilização de ecótipos
diferenciados, foram os resultados mais evidentes dos
projetos que vieram a reboque da nova rodovia.
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