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Atualmente, a aldeia do Laranjal é o palco
privilegiado da vida social Arara. O posto de vigilância
e a aldeia do Cachoeira Seca, como espaços de apenas
um único grupo residencial, carecem de formas coletivas
mais elaboradas de interação, cujo tempo
e lugar se dão no pátio da principal aldeia
e, principalmente, durante a estiagem, período
das grandes caçadas e das festas que as acompanham.
Os ciclos econômicos e rituais convergem
para a estação seca. Toda a agricultura,
cuidada durante o período úmido do ano,
serve não apenas aos propósitos da alimentação
cotidiana quando as grandes caçadas inexistem.
Ainda que a preferência explícita recaia
sobre a macaxeira, quase tudo o que plantam além
dela - batata, cará, milho, e frutas como abacaxi,
banana etc. - servirá para a fabricação
de uma bebida fermentada, concebida como a contra-dádiva
necessária para as caçadas que acontecerão
tão logo as chuvas cessem e a floresta esteja
outra vez seca o suficiente para os caçadores
seguirem trilhas e pistas dos animais. As trocas da
carne de caça pelas bebidas fermentadas pedem
sempre uma grande elaboração ritual, na
qual os grupos residenciais expressam seu caráter
coletivo: um grupo caça, outro fabrica bebida
para retribuir as carnes que receberão. Durante
toda a estação seca é isto o que
se vê na aldeia do Laranjal: um grupo partindo
para uma longa caçada, outro ocupando-se de colher
das roças tudo o que pode ser transformado em
bebida.
Do ponto de vista do simbolismo associado aos
ritmos econômicos, carne e bebida se articulam
num sistema cujo eixo principal é a doutrina
nativa sobre a circulação de uma substância
vital, a que chamam ekuru. Passando do sangue
dos animais abatidos à terra, e desta aos líquidos
que nutrem e fazem crescer os vegetais, a substância
vital é o objeto principal do desejo, e não
apenas dos seres humanos, mas também de todos
os seres que habitam o mundo: objeto de uma predação
generalizada no mundo, a substância vital ekuru
é o que os humanos buscam adquirir através
da morte dos animais na caça e da transformação
dos vegetais na bebida fermentada, chamada piktu,
fonte primordial de aquisição de substâncias
vitais pelos humanos.
A capacidade da terra em reprocessar as substâncias
vitais, transformando-as nos nutrientes dos vegetais
com os quais os humanos fazem bebidas, orienta também
as práticas funerárias Arara. De hábito,
os Arara não enterram seus mortos, mas lhes reservam
uma plataforma na floresta, no interior de uma pequena
casa funerária levantada especialmente
para cada ocasião. Afastado da terra, o morto
deve ir secando gradativamente, perdendo o que ainda
lhe restava de substâncias vitais para o conjunto
de seres metafísicos que passam a rondar os cadáveres,
alimentando-se daquilo que antes dava vitalidade ao
defunto. A funerária Arara é, assim, uma
espécie de devolução das substâncias
vitais que os humanos extraem do mundo; uma troca ou
reciprocidade escatológica para com os demais
seres do mundo.
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Por outro lado, a circulação de ekuru
se dá, entre os vivos, pelas trocas de carne
por bebida, que se dão principalmente nos ritos
que seguem o retorno dos caçadores. Deste modo,
os ritos são o modo pelo qual a doutrina nativa
de circulação da substância vital
se transforma num princípio de articulação
dos vários subgrupos num esquema de reciprocidade
e dependência mútua. As atividades econômicas
(caça e agricultura), os princípios de estruturação
social (a divisão dos subgrupos) e as percepções
nativas sobre o funcionamento do mundo ganham consistência
nas práticas rituais associadas às trocas
de carne por bebida. E, por estarem associadas às
concepções nativas sobre o funcionamento
do mundo, o xamanismo também tem aí o seu
lugar.
O xamanismo Arara é uma instituição
dispersa, difusa e generalizada entre os homens. Curadores
e agentes da mediação com as potências
metafísicas, todos os homens são iniciados
e praticam pelo menos em parte as técnicas e
artes xamânicas. E cabe eles também, ou
pelo menos àqueles que desfrutam de algum prestígio
ligeiramente maior, garantir, junto às potências
metafísicas, as condições para
que as caçadas e os ritos que fazem circular
carnes e bebidas entre os vários subgrupos se
concretizem.
Dentre as condições simbólicas
da caça, há um rito reservado aos xamãs
que, no interior da mata, dirigem fórmulas mágicas
às entidades metafísicas que controlam
as espécies animais (os oto) para pedir
filhotes para serem criados pelos humanos. A captura
de animais para criação é, assim,
concebida como produto da intercessão de um xamã
junto ao oto que controla aquela espécie
particular. Por outro lado, o pedido de filhotes para
criação interdita a caça de animais
daquela espécie para o envolvido no rito mágico.
Porém, tal interdição a que um
xamã se sujeita não se estende a nenhum
outro homem que, perambulando pelas matas, pode sem
qualquer constrangimento abater os animais.
De outro lado, as músicas que os Arara
tocam durante os longos ciclos de festas da estação
seca estão também intimamente relacionadas
às representações nativas sobre
as condições e práticas das caçadas.
As longas trombetas executam peças melódicas
conhecidas por sua relação com as principais
espécies animais que são caçadas.
Tocadas em grupos ou parcerias formais, as trombetas
anunciam a morte dos animais para seus protetores espirituais
ao mesmo tempo que servem como pretexto para o retorno
dos caçadores à aldeia, depois de sua
quase sempre longa estada na floresta. É pela
seqüência das músicas que são
tocadas na aldeia que os caçadores acompanham
o andamento das etapas rituais que preparam sua chegada,
quase sempre simulando uma invasão agressiva
da aldeia que se dissolve pela oferta de piktu
aos caçadores que entraram em confusa correria.
A série ritual das música então
continua, não mais com as músicas instrumentais
relativas às relações com os animais
e seus guardiões, mas com as músicas vocais,
que são verdadeiros diálogos cerimoniais
cantados para estabelecer as relações
entre seres humanos, melhor, entre os que foram à
caça e aqueles a quem cabe oferecer a bebida
aos que trazem carne.
Através de toda sua simbologia, os grandes
ritos associados às caçadas coletivas
são também um eficiente mecanismo através
do qual valores éticos e morais se manifestam,
se concretizam e servem à constituição
de uma idéia nativa de sua coletividade. Uma
intrincada rede de valores e princípios de interação
relativos à boa conduta, à gentileza,
à solidariedade e à generosidade tem,
nos ritos, seu lugar privilegiado de expressão.
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