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Um mito de origem do mundo terreno explica o padrão
de dispersão territorial que historicamente os
Arara mantinham no interflúvio Tapajós-Tocantins.
Originado num cataclismo celeste causado por
uma enorme briga entre parentes, o mundo terreno foi
o palco de um acordo político entre aqueles que,
por serem causadores da tragédia inaugural, foram
condenados a viver no chão. A divisão
em pequenos subgrupos, independentes e autônomos,
mas integrados numa rede de prestação
intercomunitária, sobretudo para as temporadas
de caça e festas, teria sido estabelecida como
uma espécie de pacto a garantir a não
repetição dos conflitos que deram origem
à vida terrena. Também o etnônimo
de que se servem tem relação com o mito
de origem: Ukarãngmã - quase que
literalmente "povo das araras vermelhas"-
é como se denominam, numa referência à
participação que aqueles pássaros
teriam tido logo após a tragédia que deu
origem ao mundo terreno. No mito, foram as araras vermelhas
que tentaram levar de volta aos céus muitos dos
que de lá caíram.
Falantes de uma língua da família
Karib, os Arara pertencem à mesma sub-família
dialetal - também chamada de Arara - que incluía
os Apiacá do Tocantins (extintos), os Yaruma
(extintos) e os Ikpeng, hoje no Parque Indígena
do Xingu, povos que viviam dispersos por um amplo território
que abarcava todo o vale do alto e médio Xingu
e o rio Iriri. Em termos geográficos, os povos
indígenas desta sub-família Arara ocupam
uma posição geográfica intermediária
em relação às maiores concentrações
demográficas de falantes de línguas da
família Karib: o maciço das Güianas
e os formadores do alto rio Xingu.
Entretanto, a região dos rios Ronuro, Batovi,
Culiseu, Culuene (justamente os formadores do rio Xingu,
hoje área do Parque Indígena homônimo)
é o lugar mais provável da dispersão
original dos povos desta sub-família dialetal.
Seu deslocamento pela bacia do Xingu parece ter coincidido
com um movimento migratório Kayapó, que
partiu dos campos do rio Araguaia em meados do século
passado e atingiu a região do médio Xingu
já no início deste século.
Toda a região entre o Tapajós
e o Tocantins (e particularmente o vale do Xingu) parece
ter sido um lugar de movimentação constante
de grupos indígenas, até o início
do segundo quartel deste século, quando levas
migratórias oriundas do nordeste brasileiro começam
a alterar a dinâmica demográfica da região
afetando as populações indígenas
já ali instaladas.
Narrativas míticas Arara apontam a margem
direita do Xingu como o lugar onde tudo teria começado:
a formação do mundo atual, a geração
do povo Arara, a dispersão dos subgrupos e o
início dos conflitos com os inimigos "tradicionais".
Dados históricos confirmam o trânsito dos
Arara por entre as duas margens do médio rio
Xingu até a fixação na sua margem
esquerda, junto ao rio Iriri, depois de cruzarem o Xingu
já abaixo da "Volta Grande", por volta de meados
do século XIX. Tanto informações
históricas - como as referências a conflitos
com caçadores e trabalhadores em obras públicas
- quanto a memória dos velhos Arara apontam para
a região próxima a Altamira, já
abaixo da foz do rio Iriri, como o lugar da maior concentração
de assentamentos de subgrupos Arara no passado.
Ocupando a região do divisor de águas,
entre o oeste Xingu, o leste do Tapajós e o sul
do baixo Amazonas desde meados do século XIX,
os Arara tinham à sua disposição
recursos naturais oriundos da bacia do Xingu e também
das águas que correm para o Amazonas.
Já na sua expedição ao
Xingu, em 1896, o viajante Henri Coudreau mencionava
a existência dos "Araras bravos" -subgrupos então
sem qualquer contato com o branco - à esquerda
do Xingu, na região entre o rio Curuá
(à esquerda do alto rio Iriri) "até não
longe do Amazonas". Lugar estratégico de multiplicação
das possibilidades de adaptação ecológica
e da otimização da utilidade dos recursos
diversos que caracterizam as bacias do Xingu e do Amazonas,
o divisor de águas permitia a cada grupo local,
dependendo de sua localização particular,
diferenças sutis quanto ao padrão de utilização
de matérias-primas desigualmente distribuídas
no território (as tabocas para flechas, as palhas
para trançados e cestarias, e a maior ou menor
ocorrência das palmeiras de inajá para
a extração de uma bebida típica,
etc). Ao mesmo tempo, o divisor de águas dava
aos Arara o acesso a territórios de caça
diferenciados e, por isso, mais produtivos em função
das diferenças entre as estações
de seca e chuva durante o ano.
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