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Tradicionalmente, uma rede intercomunitária
de prestações múltiplas estabelecia
as relações entre os vários subgrupos
e definia os princípios básicos da vida
social: a autonomia política e a independência
econômica conjugavam-se à colaboração
para os ciclos rituais; as alianças matrimoniais,
por outro lado, dado o princípio residencial
que os Arara seguem, dispersavam os homens e seus vínculos
por vários dos subgrupos pertencentes à
rede intercomunitária. A possibilidade de que
estes padrões tradicionais da vida social Arara
(dispersão e independência, articulação
e aliança) pudessem efetivar-se na prática
dependia, obviamente, da capacidade de cada subgrupo
se relacionar com os demais. Sua história recente,
marcada por deslocamentos forçados e pela procura
de novos lugares para moradia e exploração
econômica, a salvo das penetrações
exógenas no território, modificou os critérios
de escolha para os assentamentos de cada grupo local:
não mais a busca de autonomia e independência
como condição para a colaboração
ritual e para as alianças matrimoniais; a simples
possibilidade de sobrevivência física colocava-se
em primeiro lugar. A escolha de novos assentamentos
não obedecia mais à dupla condição
de manter a autonomia e a independência e permitir,
ao mesmo tempo, a articulação periódica
com os demais grupos locais. Contra a forma da dispersão
espacial tradicional, contra a autonomia política
e a independência econômica somadas à
colaboração ritual e às alianças
matrimoniais, a história recente dos Arara impôs
limites na possibilidade de atualizar o modo como operava
a rede de prestações intercomunitárias.
A situação pós-contato
trouxe uma realidade de redução espacial,
com a conseqüente perda da possibilidade de exploração
territorial ao modo tradicional, e de aglutinação
e concentração demográfica de vários
dos antigos subgrupos.
Há duas áreas legalmente
definidas para os Arara, com situação
jurídica e fundiária distinta: a Terra
Indígena Arara e a Terra Indígena Cachoeira
Seca do Iriri. A primeira é relativa aos subgrupos
contatados entre 1981 e 1983, e a segunda, àquele
subgrupo contatado somente em 1987. A área ao
norte da rodovia Transamazônica foi completamente
abandonada pelos índios, tanto como moradia,
quanto como território de exploração
econômica.
Todos os índios contatados entre 1981
e 1983 acabaram sendo aldeados ao sul do leito da rodovia,
inicialmente em duas aldeias diferentes e, posteriormente,
em uma única aldeia. Hoje em dia, a maior parte
dos Arara vive numa aldeia levantada pela FUNAI após
o contato, dentro da TI Arara, localizada nas proximidades
do igarapé Laranjal, cuja população
soma pouco mais de 100 indivíduos. Uma pequena
parcela da população, em torno de duas
dezenas de pessoas, que antes também viviam na
aldeia do Laranjal foi deslocada para um posto de vigilância
da FUNAI construído às margens do leito
da Transamazônica, formando o núcleo de
um outro "grupo residencial". A TI Arara tem
um total de 139 habitantes indígenas.
O mais afastado, e ainda relativamente
isolado dos demais, é o subgrupo contatado em
1987, aldeado nas proximidades do igarapé Cachoeira
Seca, no alto rio Iriri, na TI Cachoeira Seca, contando
com 56 indivíduos, todos descendentes de uma
única mulher (que em 1994 ainda vivia).
A população
total dos Arara no ano de 1998 era de 195 indivíduos.
Antes do contato, os grupos locais eram
integrados numa grande rede de prestações
múltiplas (econômicas, cerimoniais, matrimoniais,
etc.). As grandes reuniões realizadas na estação
seca serviam também ao propósito de reunir
estes vários grupos dispersos espacialmente.
Hoje, a despeito da redução de vários
grupos locais a uma única aldeia, transformados
assim em grupos residenciais, eles ainda atuam basicamente
como se estivessem na situação tradicional,
com grande independência e autonomia. O impacto
do contato se fez sentir principalmente nos arranjos
residenciais: a morte de alguns velhos líderes
e sogros durante e logo após o processo de atração
quebrou vínculos entre pessoas que reorganizaram
suas relações em outros grupos residenciais.
Ainda que não se possa subestimar os prováveis
efeitos do longo processo de contato, desde o final
da atração a população Arara
tem tido um crescimento demográfico bastante
razoável. Algo em torno de 30% da população
já nasceu na situação de contato
permanente com a sociedade nacional. É claro
que tais mudanças trouxeram algumas conseqüências,
mas ainda não parecem ter alterado os principais
traços da vida social Arara, nem o estatuto fundamental
dos subgrupos.
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Na aldeia do Laranjal, cada um dos antigos grupos
locais acabou por aglutinar-se, no geral, num mesmo grupo
residencial, como expressão de sua natureza coletiva.
Tais unidades residenciais se caracterizam como grandes
casas coletivas, centradas sobre a figura de um homem
já velho, pai da maior parte das mulheres e sogro
dos homens adultos que ali vivem. Malgrado serem nomeados
apenas pelo nome de seu velho líder e não
terem um estatuto jurídico muito claro, tais grupos
residenciais têm um evidente reconhecimento público
quanto a seu caráter social: cada indivíduo
é dito e tido como pertencendo a um grupo residencial
específico, e as casas coletivas funcionam de fato
como unidades sociais independentes e que, para vários
aspectos, da vida social, operam como uma espécie
de sujeito coletivo.
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Diferente da aldeia do Laranjal, a aldeia levantada
pelos índios junto ao Posto da FUNAI no igarapé
Cachoeira Seca apresenta-se simplesmente como um pequeno
aglomerado desordenado de casas ocupadas por unidades
conjugais diferentes. Certamente porque, em se tratando
de um único grupo local, cujo isolamento dos demais
é produto de sua história peculiar, a configuração
residencial ali ganhou mais indeterminação.
Os grupos residenciais são
formados por uma junção de lógicas
distintas. Os casamentos são definidos sobre
a base mínima de exogamia de grupo natal. A residência
uxorilocal, quase que compulsória para o primeiro
casamento de um homem (os Arara são, no geral,
poligínicos), é um princípio importante
de recrutamento, mas que concorre com opções
individuais de escolha sujeita a variações
(prestígio e afinidades pessoais, pactos de solidariedade
e cooperação entre pessoas, etc). Se as
relações de afinidade formam um dado importante
na composição dos grupos residenciais,
uma outra condição é a necessidade
de que os grupos residenciais se comportem como unidades
eficientes de cooperação: um número
razoável de homens adultos, solidários
nas tarefas coletivas que os grupos devem desempenhar
(a caça na estação seca, o preparo
de uma roça coletiva, etc.). Afinidade e a necessidade
de cooperação são princípios
que organizam os grupos residenciais: a afinidade implicando
numa forma de cooperação compulsória
(um modo concreto de "serviço da noiva" a ser
prestado a sogros e cunhados), que os Arara tentam evitar,
e as relações de consangüinidade
e de "amizade formal" que os Arara reconhecem (parcerias
de caça e parcerias de guerra) numa outra forma
de cooperação, menos tensa e mais amistosa
(mas que, virtualmente, seria tão compulsória
quanto a primeira).
Há uma larga margem de imponderabilidade
nas razões que orientam as escolhas pessoais
que influenciam o modo de distribuição
da população por entre as várias
casas. Na aldeia do Laranjal, por exemplo, há
três grupos residenciais reconhecidos, mas cinco
casas diferentes: duas delas são habitadas por
unidades conjugais que, por razões peculiares,
são autônomas na moradia mas socialmente
integradas em grupos residenciais maiores.
Os Arara não possuem um
termo específico para "aldeia", reunião
de casas em um espaço comum. A indistinção
entre casa e aldeia aponta também para o fato
de que, como no passado, e não muito remoto,
uma única casa pode ser toda a extensão
da moradia de um grupo local; sem o reconhecimento de
uma "aldeia" propriamente dita, espaço de reunião
de diferentes moradias, os Arara vêem como co-extensivas,
a casa e a aldeia.
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