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O cosmos - organizado por Kwamóty e
seus netos, Xixi e Nunâ - é
concebido em várias camadas que se encontram na
linha do horizonte. Existem duas terras, uma côncova
e outra convexa, sendo uma o molde negativo da outra,
cada qual com seus rios e águas subterrâneas.
Contendo as águas subterrâneas da terra de
cima existiria uma redoma, um imenso guarda-chuva, cujas
bordas são mantidas presas às extremidades
desta terra por imensos sapos míticos. Entre essa
redoma e esta terra fica o ar necessário à
vida. O sol e a lua, onde foram residir Xixi e
Nunâ, respectivamente, movimentam-se de tal
forma que, quando nesta terra é dia, na outra é
noite e vice-versa. Essas camadas são interligadas
por caminhos invisíveis que somente os xamãs
podem ver e percorrer.
Outrora essas duas terras eram interligadas
por um tipo de escada que Kwamóty deixara
para que eles, os Bakairi primordiais, pudessem
em ambas transitar. Como passaram a fazer "fuxicos"
entre si e entre as duas terras - causando rupturas
na sociedade em formação - ele a cortou,
ocasionando um dilúvio, do qual se salvaram apenas
dois pares de irmãos. As duas terras distanciaram-se
mais, o sol e a lua se encontraram. O eclipse de sol
é tido pelos Bakairi como prenúncio
de retorno ao caos.
Kwamóty controlou o caos
colocando a referida redoma, mas abandonou-os à
própria sorte. Eles passaram a conhecer a dor,
a doença, a morte e a luta pela sobrevivência.
A estrutura do universo se define com a morte,
pois a terra em que viviam não aceitou que se
enterrassem nela os seus mortos. Kwamóty,
num derradeiro gesto, inverte a posição
das duas terras. Com ela entra em circulação
a mais temida das forças cósmicas: os
iamyra. Cada pessoa que morre libera dois iamyra:
um que sai pelo olho esquerdo, que vai habitar os rios
desta terra, onde controla os tutores sobrenaturais
das espécies de peixes, de animais aquáticos,
de aves ribeirinhas; outro que sai pelo olho direito
e vai residir na outra terra, sendo hierarquicamente
superior a todos os demais sobrenaturais, pois presidem
os ciclos naturais - inclusive as estações
do ano - e a ordem cósmica.
São duas estações do ano:
kopâme, o "tempo das águas"
(meados de setembro a meados de abril) e âdâpygume,
o "tempo da seca" (meados de abril a meados
de setembro). Há, ainda, duas sub-categorias
que denominam kopâme ipery e âdâpygume
ipery, respectivamente o "início das
águas" e o "início da seca".
Tempo e espaço se relacionam através
do ciclo de uma substância vital denominada ekuru.
Presente em todos os seres vivos, inanimados e animados,
é obtida através de alimentos, fazendo-se
presente no sangue. Sem ela o sangue - yunu -
coagula, sobrevindo a morte. Tal substância é
eliminada através de líquidos, resíduos,
secreções e excrementos corporais que,
em contato com a terra, é reprocessada pelos
vegetais. Na sua forma livre e pura, somente os vegetais
a contêm. No intervalo que vai do contato com
a terra ao reprocessamento, toda ekuru que é
eliminada mantém consigo as propriedades daquele
que a expeliu. No caso da pessoa humana, das unhas e
cabelos cortados, das fezes, do cuspe "levantam
kadopy", que são semelhantes a ela
porém sobrenaturais. Seus lugares preferidos
são as casas abandonadas, os lugares sombrios.
Aparecem aos vivos, assustando-os, o que provoca desmaios
e doenças.
Os terrenhos kadopy, que são resíduos
dos resíduos corporais, têm existência
efêmera , ao contrário dos iamyra,
que são essência. Infestações
de kadopy e de iamyra, poluem o espaço,
tornando-o inóspito, insalubre. E esta é
uma das razões da sua dispersão e da sua
mobilidade.
Na estação das chuvas, dada a grande
umidade reinante, a ekuru penetra mais rapidamente
no solo, que se reabilita.Já na estação
da seca, a falta de umidade imprime no ciclo da ekuru
uma grande lentidão. Apenas nas margens dos rios
e riachos seu ritmo é mais acelerado, o que resulta
em um terreno mais fértil, menos poluído,
mais adequado à vida.
Assim eles explicam a existência de diferentes
domínios espaciais que denominam iduanary
e pojianary, "região de mata"
e "região de capim", respectivamente.
Da mata e dos rios é que eles extraem, fundamentalmente,
a ekuru necessária à vida. Os Kurâ-Bakairi
só se alimentam de vegetais e de animais vegetarianos
ou essencialmente vegetarianos, desprezando os carnívoros.
Nas matas ciliares praticam a agricultura e
caçam sempre em grupo. Devido aos perigos a elas
associadas, é vedada a presença de pessoas
do sexo feminino, antes da terra ser preparada para
o plantio. Dentre esses periogos destaca-se Ynhangõnrom,
monstruoso sobrenatural, "senhor" das matas,
que possui um enorme peito que aperta, jorrando um leite
mortal naqueles que a depredam. Ele tem por ajudante
Karowi, um pequeno, porém horrendo ser.
Nas matas mais fechadas pode-se encontrar os iamyra
que nelas buscam abrigo quando surpreendidos nesta terra
pelo dia. Nas roças e capoeiras também
pode-se encontrá-los, pois sentem saudades dos
"parentes", dos lugares onde viveram e trabalharam.
O contato com esses sobrenaturais é fonte de
desequilíbrios bio-psíquicos e de morte
iminente. Pronunciar os nomes dos mortos significa evocá-los,
o que deve ser evitado, até que sejam recolocados
em circulação. Cada espécie de
animal tem o seu "senhor", ser sobrenatural
que a tutela e que se volta contra aqueles que cometem
excesso. Um ente maléfico, Kilâino,
faz os caçadores perderem-se nas matas.Associados
ao domínio aquático, existem muitos sobrenaturais.
Além dos "senhores" de cada espécie
de peixe, de animal aquático e de ave ribeirinha,
tem-se pakororo, enorme onça branca e
sobrenatural que vira as canoas dos pescadores, bem
como poro tapekéim, imenso e monstruoso
peixe que pode virar as canoas e engoli-los vivos. Há,
ainda, uma legião de seres sobrenaturais com
formas humanas, denominados kurâmã.
Dentre os sobrenaturais relacionados a esse
domínio, os Bakairi temem mais os iamyra
subaquáticos, que podem assumir formas de peixe.
Diante de tantos perigos, o domínio aquático
é essencialmente masculino.
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