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A primeira referência documental conhecida
sobre os Baniwa menciona sua aliança com os Caverre
(um grupo Piapoco do Rio Guaviare), no início do
século XVIII, contra expedições guerreiras
karib envolvidas na obtenção de escravos
para os espanhóis. Os Baniwa também são
mencionados em fontes portuguesas da mesma época
como tendo sido trazidos como escravos, provavelmente
pelos Manao do Médio Rio Negro, do Alto Rio Negro
ao Fortaleza da Barra. Há registros no Arquivo
Público de Belém do Pará de que os
Baniwa foram capturados em grande número entre
os anos de 1740 e 1755, e enviados para Belém.
É possível também que tenham absorvido
refugiados de outros povos indígenas durante as
guerras de captura de escravos na primeira metade do século
XVIII.
Com a intensificação da colonização
no Rio Negro, na segunda metade do século XVIII,
doenças introduzidas pelos brancos começaram
a espalhar a morte entre os Baniwa. Apesar da impossibilidade
de se fazer estimativas, os registros mencionam várias
epidemias graves de sarampo e varíola nas décadas
de 1740 e 1780. O seu efeito, aliado à deterioração
geral das condições de vida e ao abastecimento
garantido de mercadorias pelos "brancos",
convenceu muitos Baniwa a deixarem suas terras e irem
para as cidades coloniais recém-fundadas no Baixo
Rio Negro. Ali trabalhariam para os brancos na agricultura,
no Serviço Real e na coleta de produtos da floresta.
Quando não era possível persuadir os que
ficaram em suas terras, os militares portugueses - às
vezes aliados a outros povos aruak, como os Baré
- recorriam à força. Há vários
casos registrados de "descimentos" na década
de 1780 com ataques armados a aldeias baniwa, aos quais
os índios resistiam, o que lhes valeu a reputação
de "belicosos".
A permanência dos índios nas cidades coloniais
era, em geral, temporária, pois as vilas coloniais
do final do século XVIII eram constantemente
assoladas por doenças, sofriam grandes perdas
demográficas e freqüentes deserções
por parte dos índios descidos das regiões
dos altos rios. Os Baniwa estavam entre os que constantemente
desertavam. Os que permaneceram nas vilas coloniais
foram assimilados à população branca
ou cabocla.
Ao final do século XVIII, as colônias
portuguesas e espanholas atravessaram um período
de desorganização que permitiu aos povos
nativos recuperar-se parcialmente das perdas sofridas
e se reorganizar. Dentre eles, estavam os Baniwa que
retornaram às suas terras nesse momento e procuraram
reconstruir sua sociedade. Mas não tiveram trégua:
por volta de 1830, os comerciantes brancos voltaram
ao Alto Rio Negro. Muitos eram caboclos que viveram
durante longos períodos nas aldeias indígenas
e eram aliados úteis dos militares dos fortes
de São Gabriel e Marabitanas, no Alto Rio Negro,
na arregimentação de mão-de-obra
indígena para o Serviço Real, indústria
e extração de produtos da floresta ou
serviços domésticos nas casas das famílias
da elite de Manaus. O que os militares precisassem os
comerciantes faziam em troca da proteção
ao seu negócio. Houve também vários
casos registrados de militares que tinham seu próprio
comércio ou se tornaram comerciantes ao deixar
o Exército. O naturalista Alfred Russell Wallace,
que visitou a região na metade do século,
menciona casos de ex-soldados que se tornaram comerciantes
no Içana e continuaram recebendo auxílio
e proteção do comandante de Marabitanas
em troca de forçar índios Baniwa a trabalhar
para eles na coleta de salsaparilha. Os Baniwa foram
muito prejudicados por esse sistema, embora sempre que
possível se mantivessem longe dos brancos.
A crescente resistência à dominação
branca entre os índios do Alto Rio Negro culminou
numa série de movimentos messiânicos entre
os Baniwa, Tukano e Warekena, desencadeados a partir
de 1857. Surgiram as figuras dos profetas baniwa, que
instituíram uma nova forma de organização
religiosa chamada "o canto da cruz", ou "a
religião da cruz", que perdurou até
o início do século XX e cuja memória
ainda se mantém viva em certas partes da região.
O sistema simbólico acionado neste e em outros
movimentos posteriores consistiram em um entrelaçamento
intencional de determinados símbolos cristãos
com os temas e preocupações subjacentes
da religião baniwa: a cruz e o açoite
como símbolos de sofrimento ritual; as festas
dos dias-de-santo e as danças sagradas do herói
cultural, Kuwai, como símbolos de purificação;
e as figuras de Cristo Salvador e Nhiãperikuli/Kuwai/pajé
poderoso como símbolos de salvação
e imortalidade.
O primeiro movimento messiânico foi liderado
por Venancio Anizetto Kamiko, um Baniwa da fratria Dzauinai,
do alto Guainía, o mais famoso entre todos os
profetas desde meados do século XIX até
sua morte em 1903. Segundo as fontes escritas, ele realizava
grandes cerimônias entre as comunidades do Içana
em que ele pregava, na presença de uma cruz.
Sofria de catalepsia e, durante os ataques da doença,
dizia que ele morria, viajava ao céu, onde comunicava
com Deus, que lhe deu ordens de perdoar as dívidas
dos índios aos comerciantes brancos. Atraiu um
grande contingente de seguidores que acreditava em seus
poderes e que ele era emissário de Deus. Logo,
chegou a um momento em que ele profetizava a destruição
do mundo por um grande incêndio do qual seriam
salvos somente os Baniwa do Içana que dançavam
em rodas, dia e noite, cantando a música dos
ritos de iniciação. Segundo as fontes
orais que os Baniwa e outros povos do Alto Rio Negro
contam até hoje, Kamiko pregava a observância
rigorosa do jejum, rezas cerimoniais e a total evitação
de relações sociais e econômicas
com os brancos (militares), como meios de se obter a
salvação no paraíso prometido.
As narrativas contam que ele pregava também contra
a bruxaria e feitiçaria nas comunidades Baniwa,
pois ele procurava instalar uma nova ordem moral entre
os seus seguidores.
Outros líderes proféticos, discípulos
do Kamiko - como Alexandre, que atuava mais no rio Uaupés
-, pregavam a inversão da ordem sócio-econômica
existente, após a qual os brancos serviriam aos
índios em compensação para o tempo
em que os índios ficavam dominados pelos brancos.
Todas as narrativas orais relativas a esse tempo deixam
claro que os messias colocavam seu poder e conhecimento
contra a repressão dos brancos e que a chave
para a sua sobrevivência estava na autonomia em
relação à influência devastadora
do contato. Mas com a repressão militar a esses
movimentos, os messias e seus seguidores não
tiveram outra escolha senão refugiar-se em áreas
inacessíveis. Em seguida, muitos Baniwa se recusaram
a obedecer às ordens dos militares para retornar
aos assentamentos ribeirinhos; embora outros obedeceram
com relutância. Os messias continuaram, no entanto,
gozando de grande influência por toda a segunda
metade do século XIX e durante as primeiras décadas
do XX, fazendo suas curas e aconselhando os índios
que vinham visitá-los de todos os cantos da região.
Na década de 1870, o boom da borracha
havia atingido o Alto Rio Negro. Os patrões locais
que trabalhavam para grandes empresas de exportação
de borracha, tais como J.G. Araújo de Manaus,
tomaram o controle de terras e recursos naturais de
vastas áreas da região, explorando-as
com seus exércitos de seringueiros. O Içana
e seus afluentes ficaram sob o controle de um comerciante
espanhol, Dom Germano Garrido y Otero, seus irmãos
e seus filhos, que controlaram a região por mais
de 50 anos. Garrido instalou uma espécie de sistema
feudal, aparentemente com centenas de Baniwa a seu serviço.
Colocou seus filhos e colaboradores como "Delegados
dos Índios" em aldeias estratégicas,
manipulou relações sociais de compadrio
e casamento com os índios, manteve um abastecimento
regular de mercadorias, controlou o comércio
no Içana e submeteu ao endividamento um número
de índios suficiente para servir de exemplo.
Os Baniwa se lembram de Garrido como o patrão
mais poderoso de seu tempo, e também do terror
e da perseguição dos militares do Forte
de Cucuí que, na virada do século, caçavam
os índios do Içana e Uaupés para
servir de armadores, invadiam malocas, roubavam produtos
comerciais dos índios, enganavam trabalhadores
indígenas e também faziam contrabando.
À semelhança dos seringueiros colombianos
no Uaupés dessa época, os militares eram
temidos, como comprovam os registros de aldeias inteiras
buscando refúgio em áreas inacessíveis
ou fugindo logo que viam surgir um branco. Embora a
criação de missões salesianas,
a partir de 1914, e de postos do SPI (Serviço
de Proteção aos Índios), a partir
de 1919, tenha ajudado a controlar a situação,
parece ter tido efeitos mínimos no Içana,
pelo menos, no início. O regime extrativista
continuava em operação, intensificando-se
durante a Segunda Guerra Mundial.
As narrativas baniwa sobre essa época
são repletas da violência, fugas e terror
que marcavam as suas vidas. No entanto, nos anos 20
e 30, surgiu um outro profeta chamado Uétsu do
sib Adzanene, no Alto Guaínia, filho de Kamiko,
que novamente fizera campanha contra a bruxaria entre
as comunidades Baniwa para restabelecer a ordem moral
e a felicidade. Conta a história que Uétsu
teve poderes iguais ao pai, liderando um grande movimento,
realizando festas e consolidando um grupo de discípulos
que o considerava como "rei". Comunicava-se
com as almas dos mortos e com Deus, que lhe avisou de
eventos que iam acontecer. Foi morto pelos seus inimigos;
no entanto, os descendentes dos seus discípulos
continuam até hoje visitando o seu túmulo
para lhe pedir proteção.
Logo após a morte de Uétsu, apareceu
entre os Baniwa, no final da década de 1940,
Sophie Müller, uma missionária fundamentalista
norte-americana da Missão Novas Tribos, pregando
o protestantismo evangélico e, desse modo, reativando
as esperanças milenárias entre os índios.
Ela iniciou a sua evangelização entre
os Kuripako na Colômbia, estendendo esse trabalho
entre os Baniwa do Içana em 1949 e 1950. Pelo
menos no início, a conversão dos Baniwa
ao evangelismo tinha todos os sinais de uma continuação
do movimento iniciado por Uétsu. Muitos Baniwa
consideravam Müller como um messias, vinham de
todos os lados para ouvir a sua pregação
e se converter à nova fé. Em alguns aspectos,
a sua missão lidava com o mesmo problema interno
que lidavam os profetas: o da bruxaria, que ela identificou
em inúmeros lugares. A solução
que ela pregava, porém, era o abandono total
da pajelança, das festas de caxiri e toda a sabedoria
dos antepassados para adotar o novo modo de vida de
"crente". A maior parte da população
acreditava em sua mensagem milenarista, e que ela era
uma emissária de Deus que vinha para anunciar
"o fim do mundo".
Na mesma época em que Müller andava
no Içana, padres salesianos começaram
a abrir uma missão no baixo Içana, num
confronto direto com o avanço do evangelismo
protestante na região, criando uma situação
de conflito aberto entre os seguidores da Sophie e os
dos Padres. Müller foi forçada pelo SPI
(Serviço de Proteção ao Índio)
a sair do país em 1953; no entanto, ela manteve
contato com os Baniwa do Içana, através
de seus pastores e outros missionários da Missão
Novas Tribos, até a sua morte no início
dos anos 90. Num total, ela trabalhou mais de 40 anos
entre os Kuripako do Guaínia, foi responsável
pela tradução do Novo Testamento em três
dialetos Baniwa, pela formação de dezenas
de pastores, assim como a construção de
inúmeras igrejas nas comunidades Kuripako e Baniwa.
Até hoje, a população Baniwa mantém
a divisão entre crentes e católicos, que
corresponde aproximadamente às comunidades Walipere-dakenai
e seus cunhados dos rios Içana, Cuiary e Aiary
(os crentes); e os Hohodene e Dzauinai no Aiary e Baixo
Içana (os católicos). Porém, a
afiliação a essas duas religiões,
ou a nenhuma delas, é fluida em muitas comunidades.
Durante as duas últimas décadas,
os Baniwa enfrentaram uma nova onda de penetração
"branca", a serviço da política
de segurança nacional do Estado ou dos interesses
de companhias mineradoras. A partir dos anos 1970, quando
foi anunciada a construção da rodovia
Perimetral Norte que atravessaria suas terras, seguida
pela construção de pistas de pouso e,
desde 1986, da implantação do Projeto
Calha Norte, a área recebeu freqüentes visitas
de comissões do alto escalão do governo
federal. Agravando a situação, desde o
início da década de 1980, garimpeiros
e, em seguida, companhias mineradoras, protegidos pela
Polícia Federal, invadiram o território
baniwa, trazendo a destruição ambiental
e vários casos de violência.
Diante dessas invasões, os Baniwa inicialmente
reafirmaram sua postura histórica de autonomia
com relação aos brancos. Os capitães
das comunidades baniwa reivindicaram o controle sobre
seus recursos minerais e se colocaram contra a presença
de mineradores brancos em suas terras. A pressão
constante exercida pelas empresas, apoiadas pela repressão
da Polícia Federal, acabou gerando graves divisões
internas: algumas comunidades ficaram a favor da entrada
das empresas, outras não. Ao mesmo tempo, o Projeto
Calha Norte ameaçou diminuir drasticamente o território
não só dos Baniwa mas de todos os índios
do Alto Rio Negro. Nessas circunstâncias, vários
líderes surgiram para organizar melhor a resistência.
A participação ativa desses líderes
na Federação das Organizações
Indígenas do Rio Negro (Foirn), fundada em 1987,
e na política partidária, e a criação
de diversas associações locais de comunidades
baniwa - tais como a Organização Indígena
da Bacia do Içana (OIBI), a Organização
das Comunidades Indígenas do Rio Aiary (ACIRA),
entre outras - representam uma nova configuração
de articulações políticas que vêm
definindo as demandas concretas e específicas destas
comunidades (para saber a respeito do processo de demarcação
das TIs e da criação da Foirn, ver o item
"Demarcação de terras e organizações
indígenas" do verbete Noroeste
Amazônico). |