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As duas atividades básicas de subsistência
dos Baniwa são a agricultura e a pesca, que são
de importância econômica e cultural complementar
e igual. A intimidade dos Baniwa com as matas é
grande. Todo homem saberá dizer onde se encontram
as melhores terras para a colocação de roças,
onde procurar frutas e onde buscar a caça. Na área
dos Walipere-dakenai há muitas porções
de terra firme e por isso não lhes falta espaço
para abertura de novas roças. No entanto, não
possuem igapós em suas terras, ao contrário
de seus cunhados Dzauinai que vivem Içana abaixo,
numa região com muitos lagos. Os Dzauinai da comunidade
de Juivitera, por outro lado, não tinham terra
firme para plantar e atualmente dispõem apenas
de uma pequena ilha situada bem no meio do grande igapó
existente no médio Içana. Contam que esta
ilha foi "feita" pelos Walipere-dakenai, que
lhes trouxeram terra em muitas viagens de canoa. Nessa
época, as mulheres Walipere-dakenai que se casavam
com os Dzauinai padeciam por não terem mandioca
para fazer beiju suficiente, e foi por este motivo que
eles resolveram fazer um lugar para que seus cunhados
pudessem colocar melhores roçados.
Próximos aos antigos locais de moradia,
os Baniwa apontam também a existência de
manchas de terra preta que, quando possível,
são aproveitadas para roças por sua boa
produção. Há também as velhas
capoeiras, de onde se retira uma grande quantidade de
remédios. Além das grandes divisões
ecológicas - terra firme (não inundável),
campinarana (floresta arbustiva com folhas duras e rijas,
em solos arenosos) e igapó (floresta inundada
durante a maior parte do ano) - os Baniwa demonstram
um conhecimento mais fino e detalhado das diferenças
nas matas de sua área. Isto está patente,
por exemplo, nas narrativas de origem dos vários
grupos baniwa. Numa versão dessas histórias,
conta-se que quando o criador Nhiãperikuli foi
retirando o casal ancestral de cada um dos grupos (Walipere-dakenai,
Hohodene, Dzauinai, Adzanene etc.) do buraco da cachoeira
de Uapui, no rio Aiari, cada um deles foi viver em um
local determinado, no centro do mato, onde há
patauazal.
De fato, as formas como os Baniwa percebem seu
ambiente não só contêm as macrodivisões
apontadas acima com base em estudos de ecologia, como
também promovem um refinamento no interior dessas
categorias. Estas unidades "científicas"
recebem nomes específicos na língua baniwa:
hamariene (campinarana), édzaua (terra firme)
e arapê (igapó), embora não designem
especificamente o tipo de vegetação ou
o tipo de solo, pois se referem mais precisamente a
uma paisagem, com um tipo de vegetação
e um tipo de solo associados. Por exemplo, o termo hamariene
designa um ambiente "claro", uma característica
marcante das formações de campinarana,
pois a mata é mais aberta se comparada à
terra firme.
Além disso, há termos na língua
baniwa para designar tipos de vegetação
específicos, que se referem a uma gama enorme
de variações identificadas do interior
das categorias acima apontadas. Trata-se de um sistema
de classificação baseado na percepção
da dominância de diferentes espécies em
porções específicas da mata. Por
exemplo: o termo punamarimã é decomposto
em punama (= patauá) e rimã
(= concentração), podendo ser traduzido
por "área de patauá", ou mesmo
"patauazal". Segundo os Baniwa, o punamarimã
consiste em um tipo de vegetação específico
que ocorre no interior da mata de campinarana, ou seja,
a presença de uma espécie dominante indica,
nesse sistema, uma sub-unidade tipológica específica.
Este recurso classificatório é empregado
de modo generalizado, de maneira que todas as diferentes
porções de suas matas, na terra firme,
na campinarana ou no igapó, recebem nomes específicos.
Os Baniwa consideram os solos da floresta de
terra firme conforme um gradiente de cores que varia
de amarelo a preto. A terra preta ocorre em vários
pontos de seu território, como é o caso
do tipo mukulirimã, que é uma das melhores
terras, propícia inclusive para cultivos de milho.
Consideram justamente a coloração escura
e a textura grossa para a escolha do local onde abrir
um roçado. Um outro critério empregado
por seus antepassados seria o de degustar a terra: quanto
mais azeda mais imprópria à roça,
quanto mais saborosa (comparando com o sabor de castanha)
mais apropriada. Quanto à campinarana, apontam
que em geral o solo é arenoso, à exceção
dos tipos uaparimada, mapuruti e kuiaperimã que
são sensivelmente mais escuros, prestando-se
à abertura de pequenos roçados.
Embora a pesca seja uma atividade realizada
o ano inteiro, é na estação seca
do verão que acontecem as grandes expedições
de pesca nas lagoas do Médio Içana. Os
Baniwa conhecem muitas técnicas de pesca incluindo
o uso de armadilhas e redes, iscas, arcos e flechas,
facões e lanças e o timbó. Tanto
a pesca quanto a agricultura são atividades sincronizadas
com uma variedade de indicadores ambientais e calendários
míticos e, antigamente, eram vinculadas a uma
série de rituais importantes.
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Provavelmente são as atividades comerciais
e extrativas que mais têm contribuído a modificar
os seus padrões de subsistência. Desde cedo
na história de contato, os Baniwa têm participado
numa série de atividades extrativas tais como a
piaçava, borracha, sorva, castanha, minerais. Já
que a distribuição desses recursos é
desigual, a migração sazonal de mão-de-obra
se tornou um padrão comum. As atividades comerciais
incluem a produção de artesanato (cestos,
raladores de mandioca, redes, acangataras) e mandioca
para vender aos comerciantes, ou nos mercados urbanos.
Os Baniwa são excelentes artesãos. São
os únicos fabricantes dos raladores de mandioca
feitos de madeira e pontas de quartzo, que são
distribuídos em toda a região, por meio
das trocas interétnicas e dos comerciantes. Atualmente,
são os principais produtores de urutus e balaios
para venda, tecendo as peças
nos mais diferentes tamanhos, tipos de desenho e coloração.
Para conhecer mais a respeito dessa atividade, ver a versão
eletrônica do livro Arte
Baniwa. |