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A vida religiosa baseia-se tradicionalmente
nos grandes ciclos mitológicos e rituais relacionados
aos primeiros ancestrais e simbolizados pelas flautas
e trombetas sagradas, na importância central do
xamanismo (pajés e rezadores, ou donos-de-canto)
e em uma rica variedade de rituais de dança,
chamados pudali, associados aos ciclos sazonais e ao
amadurecimento de frutas.
Os rituais de iniciação tradicionalmente
são celebrados na época das primeiras
chuvas e amadurecimento de certas frutas, quando se
tem uma turma de meninos de dez a treze anos, prontos
para receber os ensinamentos sobre a natureza do mundo.
É absolutamente proibido para as mulheres e os
não-iniciados verem as flautas e trombetas sagradas,
sob pena de morte.
O ritual tem três fases: na primeira,
chamada wakapethakan, ou "nós açoitamos",
o dono do ritual (o responsável pela organização
de todo o trabalho e o dono da casa onde o ritual é
realizado) manda os homens buscarem frutas no mato e
as mulheres fazerem caxiri. Quando tudo esá pronto,
no dia marcado, os homens descem para o porto onde estão
escondidos as flautas e trombetas sagradas, se pintam
de preto e se preparavam para a chamada. Um velho, o
benzedor do ritual, fica junto com os meninos, com os
olhos tapados, na porta da casa do ritual e, com um
bastão na mão, chama os antepassados do
sib três vezes. Na terceira vez, os homens com
os instrumentos de Kuwai sobem do porto e fazem uma
procissão na praça, parando em frente
da casa, onde deixam os instrumentos no chão.
O velho tira o pano que tapa os olhos dos meninos e
os mostra os instrumentos, explicando o seu significado,
as proibições de falar sobre eles, e como
eles vão ficar em reclusão por um mês
(hoje, umas duas semanas), até estarem prontos
para sair da casa do ritual. A partir daí, os
meninos ficam em reclusão, jejuando com frutas
do mato, aprendendo as histórias sagradas, e
- o mais importante - fazendo todo tipo de cesto.
No final do período, o dono do ritual
convoca o velho e dois companheiros a realizar o ritual
mais importante - o benzimento da pimenta, chamado Kalidzamai.
Por uma noite inteira, os velhos entoam um cântico,
enquanto os homens tocam os instrumentos e tomam caxiri,
recriando - no seu pensamento - as viagens de Amaru
pelo mundo inteiro com os instrumentos enquanto Nhiãperikuli
e os homens a perseguiam. Nesse cântico, os velhos
benzem a pimenta e o sal, que depois são servidos
para os iniciandos com um pedaço de beijú.
Terminado o benzimento, ao raiar o sol, os velhos entregam
a pimenta benzida para o dono do ritual e ele convoca
os meninos a ficar, um por um, em frente dos velhos
benzedores para ouvir os conselhos deles de como viver
no mundo depois de terminada a sua iniciação.
Depois de dar os conselhos, o velho levanta o açoite
e surra três vezes o peito do iniciando.
Terminado a fase de reclusão, começa
a etapa de saída da casa, wamathuitakaruina,
ou seja, a fase de reintegração na vida
como adultos. Os iniciandos são pintados pelas
suas mães de vermelho, e ornamentados com cocares
e penas de garça. Com as peneiras de mandioca
que eles fizeram durante a reclusão nas mãos,
eles fazem uma fila e, ao sinal, saem da casa enquanto
os homens cantam. Saem e entram três vezes e,
na última vez, cada um apresenta a sua peneira
para uma menina, escolhida para o ritual de saída,
chamada kamarara, "como se fosse uma esposa".
Nesse momento o ritual termina, em meio a muita alegria
e festa, com a nova geração de adultos
que a sociedade produziu.
Os rituais de iniciação para meninas,
por sua vez, acontecem logo após a sua primeira
menstruação. A organização
do ritual é parecida com a dos meninos; as meninas,
porém, geralmente são iniciadas individualmente,
quando seus cabelos são cortados bem curtos -
"como meninos" -, e não lhe são
mostrados os instrumentos sagrados. Durante o período
da reclusão, a moça aprende a fazer os
ralos de mandioca (isto é, de fixar os pedaços
de quartzo em desenhos geométricos na tábua
já cortada pelos homens), vários tipos
de cerâmica (pratos pintados especialmente), os
instrumentos de fazer beiju (espanadores); alem de tudo
sobre como cuidar as roças, cozinhar etc. No
final do benzimento da pimenta, a moça - ornamentada
e pintada como os meninos - é instruída
a ficar em pé dentro de um balaio de beiju, enquanto
um outro balaio ornamentado com penas de garça
é colocado invertido sobre sua cabeça,
simbolizando o seu status de fazedora de beiju, o pão
do dia-a-dia da comunidade. Ela recebe a pimenta benzida,
em seguida recebe da sua tia ou avô e do velho
benzedor as instruções específicas
para meninas, e depois leva surra três vezes como
os meninos.
Outro importante ritual praticado tradicionalmente
pelos índios da região é o pudali
(dabukuri em língua geral), celebrados principalmente
em épocas de amadurecimento de frutas, mas também
em outras ocasiões como a piracema, a época
de desova dos peixes que subiram os rios em grandes
quantidades. São ocasiões em que parentes
e cunhados se juntam para beber caxiri (ou de mandioca
ou de frutas como pupunha) e dançar. Nessas ocasiões
alegres, quaisquer conflitos que existam entre cunhados,
por exemplo, podem ser contornados.
Existe uma grande variedade de pudali: Mawakuápan,
a dança com apitos mawaku, feitos de pedaços
de cana de açucar; Wethiriápan,
celebradas na época da fruta ingá; Heemápana,
quando os participantes tomam caapi (Banisteriopsis
sp) e dançam com maracás; Aaliapan,
dança dos jaburus; Kapetheápan,
dança com açoites, que é a festa
de Kuwai, também chamada Kuwaiápan celebradas
no início das chuvas; e Kuliriápan,
a dança dos surubi- talvez a mais famosa dos
pudali Baniwa, quando são fabricadas as flautas
surubí em grande quantidade. As flautas são
feitas de paxiúba, com cestaria em formato do
peixe surubí, pintadas de marrom e branco, e
ornamentadas com penas de garça. Ainda hoje,
algumas comunidades do alto Aiary fazem essa flauta
e realizam a dança. É a flauta e dança
que mais distinguem os Baniwa de outros povos da região.
Além dessas danças, os Baniwa
- pelo menos os do Aiary até o início
do século XX - dançam com máscaras,
chamadas hiwidaropathi, que representam diversos espíritos
e animais. Koch-Grünberg fotografou essas danças
entre as comunidades do alto Aiary no início
do século, além de vários instrumentos
(flautas) e ornamentos (acangataras, braceleiros, tornozeleiros),
os quais já não se vê mais.
Em relação ao xamanismo, há
duas categorias principais de xamãs: os donos-de-canto
(malikai-iminali) e os pajés (maliiri).
Os pajés podem ser cantadores e vice-versa, mas
há diferenças na formação,
curas e saberes que cada um domina. Os pajés
"chupam" (extraem por sucção
objetos patogênicos de seus pacientes), enquanto
os donos-de-canto "sopram", ou, como eles
dizem, "rezam" (cantam ou recitam fórmulas
com tabaco sobre ervas e plantas medicinais a serem
consumidas pelos pacientes). Somente os pajés
usam maracás em seus cantos e danças e
o pó sagrado pariká nas suas curas, o
qual os leva a um estado de transe. Para os donos-de-cantos,
o tabaco e uma cuia d´água são os
instrumentos principais. Tanto os pajés como
os donos-de-canto têm um extenso conhecimento
das plantas medicinais utilizadas nas curas.
Grande parte do poder dos pajés fundamenta-se
em seu conhecimento extenso e na compreensão
da mitologia e cosmologia, assim como o conhecimento
detalhado e sistemático das fontes múltiplas
de doenças e suas curas. Através de seu
papel de mediador entre os aflitos e os espíritos
e divindades do panteão baniwa, os pajés
curam, aconselham e orientam o povo, desempenhando assim
um dos serviços mais vitais para a saúde
e bem-estar contínuo da comunidade. Acredita-se
que os pajés 'de verdade' podem se transformar
em vários animais poderosos, notadamente o jaguar,
e nas próprias divindades. Normalmente, os pajés
realizam suas curas em grupos de três ou quatro,
com um líder guiando os cantos e ações
rituais.
Já os donos-de-canto se valem principalmente
de cantos, acompanhados por sopros de tabaco sobre matéria
médica (como plantas medicinais). Os velhos,
principalmente, são os que cantam ou recitam
essas fórmulas para várias tarefas: proteção
contra doenças, cura e alívio da dor,
ou então para chamar os animais de caça
e peixe, para fazer as roças crescerem, entre
outras atividades. Os velhos mais instruídos
sabem também os cânticos especiais, chamados
Kalidzamai, entoados durante os ritos de passagem (nascimento,
iniciação e morte). Esses cânticos
representam um saber altamente especializado e esotérico
das dimensões horizontais e verticais do cosmos
e das classes do ser. Essa é a atividade mais
sagrada e poderosa de todas as conhecidas pelos donos-de
cantos.
Nas décadas de 1950 e 60, graves conflitos
religiosos eclodiram nas comunidades baniwa como resultado
da evangelização dos protestantes e católicos,
introduzindo uma dimensão de tensão antes
inexistente entre os especialistas religiosos. As comunidades
protestantes, sobretudo, praticamente perderam todos
os seus pajés, junto com o culto de flautas e
rezadores Kalidzamai. Somente os donos-de-canto menos
importantes conseguiram continuar sua prática
e conhecimentos sem perseguição. A intolerância
dos protestantes provocou uma crise espiritual entre
os donos-de-cantos, muitos dos quais alegaram que uma
"doença" fez com que eles esquecessem
sua arte. Alguns pastores mais radicais, aliás,
fizeram campanha contra os pajés do Rio Aiary,
o único lugar na área Baniwa onde a pajelança
ainda é praticada. Hoje, a instituição
está em franco declínio, com apenas meia-dúzia
de pajés em todo o território Baniwa no
Brasil.
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Com a conversão ao evangelismo, todos os
pudali foram proibidos pelos missionários e seus
seguidores. Portanto, há toda uma geração
hoje que nunca viu nem ouviu a música dos pudali.
O grande transtorno provocado pela perda desses rituais
é evidenciado pelos inúmeros conflitos entre
os "crentes" e os "tradicionais" sobre
a maneira em que os instrumentos ou foram queimados ou
jogados no rio. Otabaco e caxiri, também proibidos,
são duas coisas que, segundo os Baniwa, traziam
alegria para a alma. Com a sua interdição,
naturalmente os conflitos internos também aumentaram.
Em seu lugar, os crentes introduziram as leituras do Evangelho,
as cerimônias de Santa Ceia (mensal) e as Conferências
(cada dois ou três meses), as quais, uma vez consolidadas,
substituíram os pudali. Dessa maneira, hoje em
dia, entre as comunidades crentes, essas cerimônias
fornecem ocasiões de alegria e felicidade, quando
- além dos ensinamentos da Biblia - há uma
fartura de comida e jogos para todos. |