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ATIVIDADES PRODUTIVAS   
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ATIVIDADES PRODUTIVAS

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Os Deni encontram na floresta a maioria dos alimentos que necessitam para sua subsistência. A mobilidade é condição fundamental para sua sobrevivência.

Caça

A atividade de caça ocupa um lugar de destaque no sistema produtivo deni. É uma atividade tipicamente masculina, sendo altamente valorizada pelo grupo. As caçadas são realizadas basicamente de duas maneiras: seguindo as trilhas na mata, procurando avistar os animais ou sinais dos mesmos. Bandos de queixadas, que podem chegar a conter mais de 300 indivíduos, deixam trilhas conspícuas na mata com sua passagem e são denominadas Rizama Raviné. Caititus, antas e veados também deixam rastros, que podem ser seguidos por um dia inteiro. Neste tipo de caçada, os cães são de fundamental importância, pois rasteiam e acuam a caça; e a outra maneira é caçar nos barreiros, que são pontos alagadiços específicos constantemente visitados por uma grande variedade de animais, que deixam o solo totalmente removido e, na sua maior parte, nu. Na maioria das vezes, os barreiros estão associados às cabeceiras de igarapés.

Os Deni criam vários animais silvestres, como os macacos barrigudo, guariba e prego, jacamim, jacu e jabuti. Além dos animais silvestres, criam também animais domésticos: cachorros, patos, galinhas e porcos.

Pesca

Assim como a caça, a atividade de pesca também ocupa lugar destacado na obtenção dos produtos que compõem a dieta alimentar dos Deni. Trata-se de uma importante fonte protéica, sobretudo durante o verão amazônico, quando o peixe se torna mais abundante.

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A pesca é uma atividade diversificada e envolve o emprego de várias técnicas: o arco e flecha, o veneno de peixes vekamá, a linha e o anzol. As pescarias longas, que demandam vários dias de viagem e a construção de acampamentos, são realizadas somente pelos homens e rapazes maiores. As pescarias com veneno envolvem toda a comunidade, desde a colheita das folhas de Vekamá, a preparação do veneno e a pescaria até o preparo do pescado.

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A pesca também é variada em relação ao tipo de ambiente em que ela é praticada. Todos os ambientes aquáticos da terra indígena são utilizados para pescarias. Segundo o biólogo Juarez Pezzuti, "lagos (Kurizá), ressacas, canos, a própria calha principal dos rios e a floresta alagada ou igapó, todos são explorados para a obtenção de peixes e quelônios. A variação sazonal no nível da água influencia decisivamente na distribuição da fauna aquática e, conseqüentemente, nos locais onde a pesca acontece em cada período do ano. Quando a água está no seu nível mais baixo, os peixes estão concentrados nos corpos de água remanescentes, o que facilita a atividade. Na medida em que a água sobe, os peixes vão invadindo habitats novamente disponíveis na floresta alagada à procura de alimento e os pescadores acompanham este movimento selecionando novos pesqueiros. Esta dispersão aumenta a dificuldade de obtenção de pescado, tanto na terra indígena como na bacia amazônica de uma maneira geral. A cheia é o período de escassez. (...)

A técnica de pescaria com anzol foi aprendida com o branco. Possivelmente a maior parte da proteína animal consumida pelos Deni é obtida através da pesca de anzol iscado com minhocas (Sumi), cuja utilização também foi aprendida com brancos. Além de anzóis iscados com peixes e minhocas, observamos a utilização de alguns frutos como isca, como o Araçá” (PEZZUTI, 1999).

O veneno vekamá também é utilizado para pescar piau, de forma bastante engenhosa. Os índios misturam o veneno com as larvas de uma espécie de caba (vespa) e um pouco de farinha de mandioca. Fazem uma bolinha com a mistura e utilizam-na como isca. O peixe come a isca e logo aparece boiando asfixiado, sendo então facilmente arpoado.

Os Deni da aldeia Cidadezinha deslocam-se por grandes distâncias para pescar e coletar ovos de quelônios. Pescam por todo o rio Cuniuá até o igarapé São Luís e o rio Canaçã. Coletam ovos de quelônios nos rios Cuniuá e Canaçã durante o verão amazônico e pescam tartaruga e tracajá em excursões que duram até oito dias, no rio Canaçã. Pegam os quelônios quando estes vão respirar, utilizando flechas com ponteira de ferro. Como a pesca é apenas para o consumo, pegam no máximo cinco tartarugas cada um.

Agricultura

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A importância dos produtos agrícolas para os Deni se explica pelo fato de que a principal fonte alimentar de origem vegetal e de carboidratos provem da roça. Alguns roçados, divididos em roças familiares, têm até 15 hectares e, a cada ano, se plantam roças novas. As áreas de roças das aldeias antigas são exploradas por até 15 anos, tanto para a coleta de frutos quanto para caçar, pois são locais de concentração de animais.

É comum que se prepare nova roça no local da antiga, nos roçados adjacentes às aldeias, diminuindo a necessidade de construção de roças novas cada vez mais distantes das casas. Roças a partir de quatro anos são rebatidas, requeimadas e replantadas, em alguns casos por mais de uma vez. Este reaproveitamento ocorre quando a aldeia está localizada em uma área onde terras mais altas são escassas, e também quando existe demanda maior de roça nova para o plantio de macaxeira e mandioca. O trabalho de roçar e brocar é obviamente mais fácil do que se fosse feito na mata primária, mas por outro lado é provável que o rendimento nestas segundas e terceiras roças seja menor, devido ao esgotamento do solo, que é pobre em nutrientes.

A seguir apresento uma listagem dos vegetais produzidos nas roças dos Deni: mandioca, macaxeira, vários tipos de carás, taioba, pimenta de cheiro, pimenta malagueta, banana (onde observamos variedades denominadas tumumu, biriharu, putaharu, vesevi, napinipana, katumi, arazu, bisasa e kasia ba), ananás, cana, algodão, tingui (vekama), urucum, pupunha, batata doce, caju, mamão, graviola, araticum, biribá, cubiu, cupuaçu, milho, abacate, tabaco (duas qualidades)” (Pezzuti, 1999:25-26).

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O tabaco é bastante cultivado, mas não atende à demanda dos índios, pois é a base do rapé, produto extremamente apreciado pelos Deni. O rapé, de acordo com Pezzuti, é obtido, “através da mistura de folhas de tabaco pulverizado com as cinzas da casca do Pupuí (Theobroma sp.), que contém a substância estimulante Teobromina (Anderson Guimarães, comunicação pessoal). Este rapé é amplamente utilizado por homens e mulheres nas diversas atividades diárias (...), e também durante a noite, antes de dormir. Pode ser inalado diretamente ou através de um inalador, o Piri, confeccionado com os ossos da ulna do macaco Humu (Ateles sp.). Pode também ser colocado na boca entre os dentes e as bochechas, ou simplesmente engolido.” (Pezzuti, 1999:29).

A primeira etapa para se fazer um roçado consiste na derrubada da mata nativa, trabalho realizado comunitariamente. Em geral, a derrubada ocorre em abril e no mês de agosto ocorre a queima e a coivara. Cerca de duas semanas após a coivara iniciam o plantio.

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Artesanato

A produção de artesanato pelos Deni não representa uma alternativa como fonte de renda, em larga medida, devido à dificuldade em se escoar a produção. Não obstante, os índios produzem diversos tipos de artesanato para uso do grupo: redes de algodão, cestaria, recipientes de barro, colares, pulseiras, anéis, esculturas em madeira, brinquedos, arcos, flechas, zarabatanas etc. Existem diversas ceramistas no rio Cuniuá, sendo apontadas duas como as principais: Taisá, da aldeia Marrecão e Amanihú, da aldeia Cidadezinha.

Extrativismo

O óleo de copaíba (karumã) é um dos principais produtos comercializados pelos Deni. A maneira como é extraído, entretanto, indica que é um recurso que se tornará cada vez menos rentável, pois é cada vez mais escasso e difícil de ser obtido. Isso porque os índios extraem o óleo utilizando o machado, com o qual sulcam o caule da árvore, o que acaba ocasionando sua morte. Os índios têm noção de que a exploração é predatória e que não é a melhor alternativa. Solicitaram que a FUNAI lhes fornecesse trados (instrumento utilizado para furar o caule da árvore, por onde é coletado o óleo), de forma que a copaibeira possa ser utilizada várias vezes.

Existem pelo menos dois tapiris (acampamentos) no rio Canaçã que os índios das aldeias Cidadezinha, Marrecão e Visagem utilizam quando vão extrair óleo de copaíba. Tais locais são também utilizados durante as expedições de caça ou pesca. Um varadouro liga estes locais à aldeia Cidadezinha, sendo o percurso vencido em um dia de caminhada.

A extração de madeira ocorria com bastante freqüência na terra indígena e os Deni eram utilizados como mão-de-obra. Os "brancos" os ludibriavam sempre na hora do pagamento, o que fez com que os Deni se desinteressassem por essa atividade. Assim, hoje em dia a extração de madeiras ocorre sem o consentimento dos índios e mesmo contra sua vontade.

Além de trabalharem para não índios na exploração madeireira dentro da Terra Indígena Deni, alguns índios estavam trabalhando para madeireiros da foz do Tapauá no igarapé Coatá. Deixam suas famílias na terra indígena e passam meses fora, retornando depois sem dinheiro e sem mercadorias.

Os Deni coletam vários frutos silvestres, como patauá, açaí, bacaba, buriti, pupunha etc. Diversas excursões de coleta são organizadas em diferentes épocas do ano.

A casca macerada da árvore amapá é denominada batú e é utilizada pelas mães para carregar seus bebês. A cinza da entrecasca da árvore caripé é utilizada para endurecer a argila utilizada na confecção de recipientes de barro. O tsubicutsu (caripé) é utilizado para fabricação de cerâmica, sendo a casca queimada e moída. A cinza resultante (Kununé) dá liga quando misturada com o barro.

Os Deni também coletam mel. Entretanto, essa atividade não é sistemática e sua freqüência depende da disponibilidade do recurso. O mel é proveniente das seguintes espécies de abelhas: jandaira (Rizi Tereré), Abi Itsúi, arapuá (Rizi Vaká), uruçu (Rizi Vesevi), Zumahê, abelha pimenta (Abi Kashi), dentre outras.

Etnofarmacologia

Os Deni coletam diversas espécies de cipós e outras plantas: o veneno karatunahú, utilizado para caça (com zarabatana ou arco e flecha) é preparado a partir da mistura de dois cipós, o irrá e o bekú (Curarea tecunarum); inupupu (jurubeba), é utilizada como anestésico para dor de dente; do patsi aproveitam as raízes, que são maceradas e ingeridas na forma de chá para aliviar dor de dente. O mapidzú é anestésico local para picada de arraia; do unuvana rebeberi, utilizam as folhas em emulsão para diminuir a febre; o cipó tsudá kumani tem o mesmo uso que unuvana rebeberi, amenizar febre em criança; teterú é um pião feito com o fruto do Anthodiscus amazonicus; o Avi kuburi, em mistura da folha macerada com água provoca vômito e acaba com o desânimo; zuká é um cipó cujo mingau é ingerido até provocar vômito, deixa a pessoa que o ingere forte e “esperta”; burinú é um cipó que deixa o caçador “marupiara”, com sorte na caçada. A coleta e preparação dessas plantas obedecem a critérios rígidos, de forma que possam trazer resultados benéficos para a pessoa. Os zupinehé (pajés) são os maiores conhecedores dessas plantas, o que não impede que qualquer outro Deni saiba como utilizá-las.


01:: Índios Deni levam produtos da floresta para vender na cidade de Itamarati. Foto: Rodrigo Padua Rodrigues Chaves, 1999.

02:: Índios da aldeia Kumarú Novo maceram o veneno Vekamã na floresta, antes da pescaria. Foto: Rodrigo Padua Rodrigues Chaves, 1999.

03:: Início da pescaria com veneno Vekamã, quando os índios "batem" o veneno no igarapé e misturam-no com a água. Foto: Rodrigo Padua Rodrigues Chaves, 1999.

04:: Aspirando rapé. Foto: Egon Heck, 1982.

05:: Ralando mandioca. Foto: Egon Heck, 1982.

06:: Takibunará fia algodão na aldeia Itaúba. Foto: Rodrigo Padua Rodrigues Chaves, 1998.

Rodrigo Padua Rodrigues Chaves

Antropólogo, mestrando pelo PPGAS da UnB

rodrigoc@unb.br

Setembro 2003

 
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