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Segundo pesquisa de Koop (1983), o casamento preferencial se dá entre primos cruzados, ou seja, a moça casa com o filho
da irmã do pai; o rapaz casa com a filha do irmão da mãe. O casamento entre primos paralelos é considerado incestuoso, tanto que
os irmãos do pai são classificados como pai (abi), e as irmãs da mãe estão na mesmo categoria de mãe (ami).
A regra de residência depois do casamento tende a ser matrilocal: "quando o rapaz casa vai morar na casa da mulher",
diz Hamú, patarahú (chefe) da antiga aldeia Buzina, expressando assim o ideal da matrilocalidade. O missionário Gordon
Koop afirma o seguinte: “Assim que a filha se aproxima da puberdade, o homem geralmente arranja o seu casamento e o genro
passa a morar na mesma casa, ou em uma casa ao lado do sogro. Durante três meses lunares, o genro nada recebe de sua mulher, além
dos favores amorosos. Por outro lado, ele deve caçar, pescar, coletar frutos da floresta, e entregar tudo à sua sogra (mashudini),
excetuando uma pequena porção que entrega à sua mãe. Após este período de três meses, sua mulher começa a cozinhar para ele, levando
a comida no prato, como antes fazia a sogra. Então, ele passa a dividir o que caça ou pesca entre sua mulher e sua sogra, reservando
uma pequena parte para sua mãe.
Geralmente, o genro mora perto do sogro no período de um ano ou mais, quando, então, trabalha com ele na maioria dos seus
projetos, como construção de casas ou derrubada da mata... também, ele caça e pesca juntamente com o sogro. O genro pode mudar-se
para longe, desde que consiga o consentimento do sogro” (KOOP, 1983:18).
A despeito da matrilocalidade, a descendência pelo lado paterno constitui a base da organização social. Homens que compartilham
o mesmo pai ou cujos pais têm um pai comum (primos), constituem uma parentela que geralmente vive próxima, compartilha o mesmo
trabalho coletivo e arranja os casamentos de suas filhas e filhos. Se um grupo de irmãos possui três ou mais homens adultos com
mulheres e filhos, eles podem se afastar da casa do sogro e construir suas casas próximas. Assim, os vínculos estruturais da família
extensa são aqueles entre um grupo de irmãos ou entre o sogro (hedi) e seus genros (hirubadi).
Com o levantamento populacional nas oito aldeias Deni, constatou-se a presença dos seguintes sub-grupos: 1) Seruvá
Kudé Deni. Povo do Xeruã, como os Deni do Cuniuá os denominam; 2) Upanavá Deni. Vieram do outro lado do rio
Purus, atravessaram o Purus, depois o rio Pauni, subiram os rios Mamorea e Aruá, até alcançar o rio Cuniuá. São majoritários na
aldeia Marrecão – Beira Rio; 3) Bukuré Deni. Vieram do rio Aruá, afluente do Cuniuá. São majoritários nas aldeias Visagem
e Samaúma; 4) Kunivá Deni. Provenientes do baixo rio Cuniuá, são majoritários na aldeia Boiador; 5) Varasá Deni.
Provenientes do rio Xeruã, são majoritários na aldeia Cidadezinha; 6) Minú Deni. Provenientes do igarapé Curabi, afluente
do rio Xeruã. São majoritários na aldeia Morada Nova; 7) Katú Deni; 8) Havá Deni, povo do patauá. São majoritários
na aldeia Rezemã e na Terra Indígena Deni; 9) Tamakuri Deni. São majoritários na aldeia Marrecão-Pista de Pouso; 10)
Mei Vessé Deni. Povo da taioba branca; 11) Makui Deni, são majoritários na aldeia Itaúba; 12) Zumahé Deni, povo
da onça, do qual existe apenas um representante na terra indígena; 13) Putavi Deni. Também possui apenas um representante.
Organização política
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Tradicionalmente, os membros da aldeia com posição
política proeminente são os chefes (patarahú)
e os xamãs (zupinehé). Antigamente, uns e outros
tinham várias mulheres. Não há tradução literal
para patarahú, a mais próxima seria "chefe
do grupo doméstico". Nos últimos anos, com a influência
da Funai e dos missionários que atuam na região, o papel
do patarahú passou a ter maior importância e
hoje é sinônimo de tuxaua, ou seja, chefe da aldeia.
Já os homens mais idosos da aldeia geralmente são os
Imabuté, contadores de histórias.
Segundo Koop, os principais critérios de escolha de um chefe da aldeia é que seja um homem maduro (com filhos em idade
suficiente para correr), de preferência que o pai tenha sido chefe e, sobretudo, que tenha espírito de liderança e características
pessoais que o qualifiquem para o cargo.
O chefe, contudo, não pode tomar decisões arbitrariamente, mas antes discuti-las com os homens adultos da aldeia (com
filhos que já podem correr e que participam da aspiração de rapé, shina). Em reuniões que ocorrem pouco antes de amanhecer,
as intenções são apresentadas e debatidas. De sua rede, o chefe ou alguém que deseja se pronunciar começar falar em voz alta.
Comentários ecoam através da praça central vindos de homens em suas respectivas redes. Assim, as decisões e projetos para o dia
são feitos coletivamente (Koop, 1983).
Mobilidade e moradia
O histórico de ocupação da Terra Indígena pelos
Deni indica que a média de ocupação de uma aldeia geralmente
não excede cinco anos. Vários fatores determinam a desocupação
de uma aldeia. Além da própria dinâmica de criação e
subdivisão de grupos domésticos, um dos fatores refere-se
às doenças levadas pelos “brancos” e que ocasionaram
altas taxas de mortalidade, como a tuberculose, o sarampo
e a pneumonia, dentre outras. As epidemias implicam
no abandono da aldeia e na dispersão dos sobreviventes.
Sahavi, patarahú da aldeia Morada Nova, relata os primeiros contatos com os brancos: “antigamente não tem
branco, só índio. Depois branco entrou aí...teve sarampo, teve catapora, teve gripe. Mas antigamente não sabia, quem pegava catarro
morre, não tinha remédio, morre, morre, morre. Aí o resto vai correndo, espalhando, pra onde fica não tem. Quando ele pega doença,
ele morre, antigamente vai ficar muito longe pra não pegar gripe. Morreram, mataram, morreram, morreram, morreram, morreram. Vai
pra cima de novo, mais pra cima, os brancos também vão atrás. Por isso diminuiu Deni, por causa de doença. Agora está aumentando
de novo.”
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Outro fator diz respeito à disponibilidade de
recursos para a subsistência da população da aldeia,
pois os Deni são exímios caçadores e a caça é uma atividade
altamente valorizada entre eles. Após alguns anos morando
no mesmo local, a caça fica escassa, levando os caçadores
a gastar cada vez mais tempo e energia para conseguir
cada vez menos carne. Isto os influencia na mudança
para um local de maior disponibilidade de recursos.
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As casas Deni, em geral, não possuem paredes, sendo construídas a uma altura que varia entre 1,5 e 3 metros do chão para
evitar a presença de animais. Os esteios e a base da casa são feitos com madeiras resistentes, como o jatobá, matá-matá, acapú,
acariquara, dentre outras. O assoalho é construído com troncos de paxiúba e a cobertura é feita com folhas de caranaí, as quais
são trançadas sobre tiras do tronco de paxiúba. As casas Deni têm duração média de três anos. A cozinha geralmente está localizada
junto à construção principal ou anexa a esta.
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Doença e morte
A sociedade indígena Deni sofreu um decréscimo populacional intenso, principalmente a partir de 1940, com a intensificação
do contato com as frentes extrativistas, o que levou à desarticulação e posterior reorganização de diversos sub-grupos Deni. Foram
identificados diversos surtos de tuberculose, pneumonia e sarampo ao longo da história do contato com a sociedade envolvente.
A reprodução física e cultural dos índios Deni foi ameaçada e, no início da década de 1990, esta sociedade indígena alcançou o
pico máximo de depopulação. Em 1992, particularmente, ocorreu um surto de sarampo que resultou na morte de 67 índios no período
de 12 meses. A taxa de mortalidade naquele período foi de 12%. Foram feitas várias denúncias à época e medidas emergenciais e
bastante simples, como a vacinação contra sarampo, foram tomadas. Iniciou-se uma lenta recuperação do grupo na última década.
Não obstante, os Deni ainda enfrentam sérios problemas na área de saúde, contando apenas com o apoio eventual de organizações
não governamentais (ONGs) e governamentais, como a FUNASA.
Devido ao altíssimo nível de mortalidade Deni, os cemitérios são muito numerosos e distribuem-se por toda a terra indígena.
A forma de sepultamento obedece ao mesmo padrão em todas as aldeias: o morto é envolto em uma rede e disposto na cova, que possui
cerca de dois metros de profundidade. A rede é atada dentro da cova, que não é preenchida com terra. Por cima da cova colocam
ripas feitas com tronco de paxiúba e sobre a paxiúba colocam terra. Finalmente, é construída uma pequena casa no estilo Deni sobre
a sepultura.
Segundo Sahavi Deni, quando o patarahú (chefe
do grupo doméstico) morre, o corpo permanece perto da
residência do morto e todos o pranteiam durante quatro
dias. Fazem fogo embaixo da rede para não apodrecer.
Todas as aldeias vêm chorar o morto. Enterram-no perto
da casa e do roçado.
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