Atualmente, o xamanismo é cada vez mais raro entre os Deni. Tradicionalmente, os xamãs (zupinehé) são preparados
para exercer o cargo desde os três anos de idade. De acordo com o que levantou Koop (1983), a diferença fundamental entre os xamãs
e os outros homens é a presença de uma substância chamada Katuhe em seus corpos, e a habilidade de comunicar-se pessoalmente
com espíritos (tukurime). Katuhe é uma cera amarela e densa extraída de colméias na floresta. O xamã mastiga essa
substância antes de ter visões e comunicar-se com os espíritos. Ele pode ficar enjoado, mas depois de aproximadamente duas semanas
de mastigação, vomitando e dormindo em sua rede, ele afirma que voa até o céu, onde escuta o tukurime.
A principal atribuição do xamã da aldeia é ter
visões e uma interlocução com o mundo espiritual, de
modo que possa identificar as causas de doenças e mortes,
assim como orientar a população a prevenir-se contra
essas adversidades.
Ainda segundo Koop, quando um Deni morre, o xamã busca conversar com seu espírito para determinar a causa da morte. Para
isso, mastiga katuhe até ter uma visão na qual ele cria asas, voa até o céu e vê os espíritos de índios (abanu)
e espíritos perigosos. Ele então desvenda o que acontecera com o espírito da pessoa morta ou quem a agredira. A partir dessa informação,
o povo decide se deve mudar-se para outro lugar ou fazer algo para evitar futuras agressões.
Além de tratar de pessoas enfermas, tradicionalmente o xamã tem ainda algumas responsabilidades políticas. Assim como
o chefe da aldeia, ele pode convocar todos para uma festa. Em todas as festas, o xamã era o cantador por excelência. Após uma
noite de festa, os homens reuniam-se na praça da aldeia de braços dados, com o xamã próximo ao centro. Depois das mulheres se
alinharem na frente dos homens, o xamã iniciava cada canção e os outros o seguiam cantando, dançando, primeiro para frente, depois
para trás ao redor do círculo (Koop, 1983). Hoje em dia a função de cantador pode ser desempenhada por outras pessoas. De todo
modo, em todas as festas, o cantador – hiridé – desempenha papel fundamental. Todos os Deni cantam e muitos têm músicas
próprias, algumas de muito sucesso.
Em 1999, tive a oportunidade de observar um ritual de cura na aldeia Marrecão. Sivirivi, da aldeia Cidadezinha, tinha
alergia a carne de porco-do-mato (anubezá) e, toda vez que a consumia, tinha problemas digestivos. No dia 25/04/1999, Sivirivi
estava passando muito mal e me pediu para levá-lo à aldeia Marrecão para o zupinehé rezar, pois, segundo ele, essa era
a única forma de se curar. Chegamos ao Marrecão e fomos até a casa de Zutihári, que colocou o doente deitado sobre uma prancha
de madeira. O zupinehé passou então a retirar a doença sugando os locais afetados (estômago e intestino) e cuspindo em
seguida. Ao mesmo tempo, ele massageava a região afetada. O trabalho de cura demorou oito minutos, ao final do qual foram retiradas
duas pedras da barriga de Sivirivi. Pouco tempo depois o doente disse se sentir aliviado e finalmente desapareceram os sintomas
do mal-estar.
Festas e jogos
As festas ocorrem com freqüência durante todo o ano, principalmente o ima amusinahá, literalmente definido como
“prolongamento da boa conversa”. Mas é durante o verão amazônico que os Deni passam grande parte do tempo preparando e participando
delas. Nessa época de fartura, ocorrem celebrações que duram vários dias.Por exemplo, Sahavi discorreu sobre a festa de verão
(banivá danará), que dura até 30 dias. Os Deni passam três meses caçando diariamente, na preparação para a festa.
Antigamente, esse tipo de ritual era mais freqüente. Nele, o chefe da aldeia conta histórias o dia todo e sua casa vive
cheia de gente.
Existem diversos tipos de brincadeiras, dentre
elas uma na qual os participantes seguem por uma trilha
na floresta preparada especialmente para a ocasião.
Cada aldeia tem seus representantes, que devem correr
com uma flecha, passando para seus companheiros, com
objetivo de saber quem corre mais e chega antes à aldeia
anfitriã. Ao chegarem na aldeia, todos vão comer caça
e banana e tomar caiçuma.
Uma outra brincadeira é a da cana, na qual homens e as mulheres se enfrentam e que pode ocorrer em qualquer época do ano.
Os homens vão buscar cana-de-açúcar no roçado e, ao chegarem na aldeia, deixam a cana no terreiro. A comunidade fica lá reunida
e os homens ficam circulando com pedaços de cana, que devem ser tomados pelas mulheres. Na primeira vez, os homens deixam-nas
pegar sem oferecer resistência. A partir de então, as mulheres têm que tirar a cana deles à força, iniciando-se uma verdadeira
batalha campal, onde vale tudo. A brincadeira termina quando todos os pedaços de cana estão em poder das mulheres. Do mesmo modo,
quando são as mulheres que vão colher a cana na roça, os homens têm que tomar a cana delas.
Koop testemunhou um ritual semelhante quando
esteve entre os Deni (1983), mas no caso os homens traziam
mandioca para as mulheres comerem. O autor comenta que
as mulheres vaiavam, riam e saíam das casas para comer
pequenas porções, todo o tempo comentando
sobre os homens para todos ouvirem. Depois disso, o
chefe trazia uma grande travessa de alumínio, um caldeirão
de mandioca e uma tigela de carne ou peixe para o centro
da praça. Após verter a mandioca sobre a travessa, ele
chamava as pessoas para festejarem. Um por um, cada
grupo doméstico trazia mandioca e carne ou peixe. Homens
e meninos formavam então um círculo; mulheres e meninas
formavam outro. Cada pessoa tinha sua própria tigela
ou prato com uma porção de mandioca e carne. Entre aqueles
do mesmo sexo, homens e mulheres adultos passavam carne
e peixe de um prato a outro, sendo comum que um pedaço
de carne passasse por muitas pessoas antes de ser ingerido.
Comumente essa refeição começava ao anoitecer e se estendia até alta noite. Então a dança continuava e podia prosseguir
até o amanhecer. Na manhã seguinte, homens e mulheres podiam lutar na praça. As mulheres freqüentemente lutavam entre si por frutas
ou pedaços de cana-de-açúcar. Às vezes, porém, desafiavam os homens. O evento terminava com todos sujos e cansados, mas geralmente
felizes (Koop, 1983).
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