| A região
do Uaçá era inicialmente "aberta"
não só para a entrada de estrangeiros nas
aldeias indígenas, como também para o trânsito
dos índios nos espaços vizinhos. Durante
muito tempo, os Galibi saiam com freqüência
da área indígena para trabalhos temporários.
Deslocavam-se sobretudo para Caiena, onde são empregados
como trabalhadores braçais na construção
civil, como garimpeiros, como carregadores ou em restaurantes.
Os jovens que saíam ficavam naquela cidade por
alguns meses e na sua maioria voltavam para a área
indígena. Hoje, a fiscalização por
parte das autoridades francesas é maior e os "ilegais"
são reconduzidos ao Brasil. Os índios não
recebem mais um tratamento específico, sendo considerados
apenas brasileiros, entre tantos outros. Índios
que permaneceram de oito a quinze anos na Güiana
Francesa, tiveram que voltar porque nunca haviam se preocupado
em regularizar sua situação de cidadania
e trabalhista. Entretanto, os índios lá
gozam de prestígio, sendo considerados bons trabalhadores
e honestos.
Em Kumarumã um grande número
de índios já trabalhou do "lado francês".
Muitos voltaram por causa de suas mulheres, que não
se adaptavam à vida longe da aldeia, ficando
doentes. Aqueles que foram forçados a voltar,
sentem falta do emprego, da comida, verduras, queijos
e vinhos, mas acham que Kumarumã melhorou muito
nos últimos anos, que a vida é pacífica
entre os familiares e que há muita terra e rios
piscosos, um benefício para as comunidades indígenas.
Desde 1994, com apoio do Governo do
Amapá, são efetuados convênios entre
o Estado do Amapá e a APIO, com repasse de recursos
para a realização de projetos nas áreas
de saúde, educação e infra-estrutura.
Constata-se, ainda, maior participação
dos índios na política partidária
local, tendo se elegido um índio Galibi-Marworno
ao cargo de prefeito de Oiapoque em outubro de 1996,
pelo PSB.
Os índios idosos, a cada mês,
deslocam-se até Oiapoque para receber a aposentadoria
do Funrural, um apoio financeiro nada desprezível
para uma parte da população. Muitos Galibi-Marworno
vivem na cidade de Oiapoque, que tem duas ruas com os
etnônimos das famílias que ali residem:
a rua Karipuna e a rua Galibi. Um certo número
de famílias Galibi-Marworno vive em Saint Georges,
em um bairro à margem do rio Oiapoque. Outros
grupos, em parte de origem Galibi-Marworno, como os
do Flecha, localizam-se à margem do rio Urucauá
e os da aldeia Uahá, no igarapé Juminã,
no baixo Oiapoque. No km 90 da BR-156, o Posto de Vigilância
Tucay transformou-se em nova aldeia com várias
famílias de Kumarumã. Alguns Galibi-Marwono
vivem na aldeia Manga, localizada no rio Curipi e com
população Karipuna.
Os Galibi-Marwono recebem assistência
de várias agências sendo que a principal,
a FUNAI, está atualmente sem recursos para qualquer
projeto comunitário. Ela apenas mantém
os seus funcionários, que são poucos em
Kumarumã, e dá apoio logístico
para a remoção de doentes, às equipes
de saúde da Funasa e na compra esporádica
de remédios. A prefeitura de Oiapoque também
repassa recursos às comunidades indígenas.
Atualmente, os projetos mais significativos são
elaborados pelos índios e os recursos e apoio
técnico passam pelo Convênio APIO/Governo
do Estado do Amapá e suas Secretarias específicas.
O CIMI, responsável por vários
projetos no passado, como a implantação
de cooperativas, assistência médica e escolas
do kheoul, atua menos ultimamente, limitando-se às
atividades religiosas e à formação
de professores do kheoul em Oiapoque. Em 1998, um novo
padre, de origem polonesa, estava morando em Kumarumã,
aprendendo a língua e participando das atividades
cotidianas, como preparo para uma futura assistência.
Desde 1998, a convite do cacique Paulo Silva, vive também
na aldeia o pastor Carlos e sua esposa, professora na
aldeia. Celebra o culto, às vezes traz uma equipe
médica para consultas rápidas, mas o seu
objetivo principal é a conversão dos índios.
A assistência à saúde
em Kumarumã sempre foi precária, embora
conte com as equipes da Funasa e mesmo da FUNAI, além
do atendimento no Hospital do Índio em Oiapoque,
projeto realizado com a ONG France Libertés.
Os enfermeiros nas aldeias fazem o possível,
mas sem medicamentos e sem infra-estrutura adequada
é difícil trabalhar. A malária
é endêmica na região. Há
também diabetes, pessoas com pressão alta
e muitos homens com gastrite ou úlceras devido
à ingestão abusiva de álcool, especialmente
cachaça de má qualidade. As outras doenças
são as gripes periódicas, as verminoses
e diarréia, dermatoses e dores reumáticas.
Sobre o ensino escolar, a Escola Estadual
Camilo Narciso, com 600 crianças matriculadas,
compreende duas grandes edificações, uma
nova e a outra reformada com uma grande área
para a merenda escolar. Os produtos para a merenda são
comprados em parte, na própria aldeia. Kumarumã.
A escola é uma tradição antiga
entre os Galibi-Marworno, desde a época do SPI,
nos anos 40. A escola teve um papel aglutinador e transformador.
Foi uma das primeiras construções de Kumarumã.
Por causa da escola os Galibi abandonaram suas ilhas
no alto Uaçá e decidiram se instalar em
uma única aldeia. Em oposição ao
patois, falado pela população indígena,
na escola ensinava-se o português, língua
oficial. Esta norma era rígida e todos ainda
lembram a professora, Dona Doquinha, bastante severa
e exigente. Foi apenas com a chegada do CIMI nos anos
70 que o patois voltou a ser valorizado e mesmo ensinado
no pré-escolar e alfabetização.
Também foram elaboradas cartilhas em patois.
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