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A história da população
Galibi-Marwono refere-se às trajetórias
de populações distintas, migrantes de
antigas missões, fugitivas de aprisionamentos,
que criaram redes locais de sociabilidade concomitantemente
ou a partir de experiências anteriores em redes
mais amplas de contato interétnico.
No início da colonização,
a região poderia ser definida como "aberta"
a todas as vicissitudes da história. Por exemplo,
os Maraon são mencionados em relatos do século
XVI como habitantes da região do Uaçá.
Os Aruã migram para a região das Güianas,
no século XVII, fugindo das correrias portuguesas
da região do baixo Amazonas e chegam a ser escravizados
pelos franceses. Na primeira metade século XVIII,
os Maraon e os Aruã são reunidos nas missões
jesuíticas do litoral da Güiana Francesa,
juntamente com Galibi. Com a expulsão dos jesuítas
da Güiana entre 1765-68, uma ofensiva portuguesa
invade os antigos territórios de missões,
aldeias e estabelecimentos de colonos, aprisionam a
população indígena e a deportam
para o Amazonas. Os Aruã deportados retornam
no século seguinte e se instalam no alto Uaçá.
Mitos do Galibi-Marworno atuais mencionam a passagem
de caçadores de escravos e seus relatos lembram
da passagem de regatões.
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Após a visita do Marechal Rondon
à área, na década de 1920, o Estado
brasileiro decide consolidar a sua fronteira com a Guiana
Francesa e colocar sob seu controle as populações
indígenas do Uaçá. Data daquela época
a "união" (nas palavras de um Galibi-Marworno)
dos povos do Uaçá sob uma mesma administração,
um aparelho estatal e militar muito presente e atuante,
especialmente no lugar chamado Encruzo, criado especialmente
para o controle dos índios da região. Por
outro lado, ainda que por razões estratégicas
de Estado, o SPI "reúne" os índios
sob seu controle, reforçando a identidade indígena
dos povos da região, pela sua presença e
atuação. O SPI, que aí atuou de 1945
a 1967, retira da área intrusos e "estranhos",
como comerciantes, crioulos, franceses e ingleses que
haviam se instalado às margens dos rios para a
exploração de recursos naturais, como ouro
e madeira de lei, abundantes na região. Segundo
um informante, estes estranhos entravam com a conivência
de alguns caciques. Os índios trabalhavam para
eles mas sem nenhum benefício.
Data da época do SPI a introdução
de normas específicas para os índios, como
a proibição de bebidas alcóolicas
e uma regulamentação para os casamentos
de índios com não-índios. São
introduzidos novos conceitos relacionados ao trabalho
e ao comércio, controlados pelo órgão
indigenista. Entre os Galibi-Marwono e os Karipuna, a
Escola — instituição de maior destaque
e alcance — foi aresponsável pelo agrupamento
populacional em aldeias maiores, pelo uso da língua
portuguesa, pelo respeito aos emblemas nacionais, como
o Hino Nacional e o hasteamento da bandeira. Essa instituição
serve de justificativa para a aglutinação
de quase todas as famílias Galibi-Marwono na aldeia
de Kumarumã. Data daquela época, ainda,
a implantação da fazenda militar, no Suraimon,
alto Uaçá, destinada à criação
de búfalos em benefício dos militares de
Clevelândia do Norte.
Entre o final da década de
1960 até o fim dos anos 1980, a FUNAI e o CIMI
passam a atuar na região do Uaçá,
quando, de alguma forma, se reverte o quadro anterior.
Passam a ter prioridade a demarcação de
terras, a realização de assembléias
políticas regionais e o projeto de educação
diferenciada, promovendo-se a consciência de uma
nova auto-valorização entre os índios
do Uaçá. Destacam-se a ênfase dada
à cultura e aos direitos indígenas, além
do incentivo dado à língua kheoul, estimulando
os índios a considerá-la, assumidamente,
como língua materna. Durante cinco anos, de 1990
a 1995, o CIMI promoveu um curso pedagógico para
a formação de professores indígenas.
A FUNAI desativou a fazenda de búfalos, implantada
pelos militares no Uaçá, e o Encruzo foi
também, em parte, desativado, continuando apenas
como posto indígena e local de castigo e exílio
temporário para infratores, submetidos a trabalho
forçado. Cabe dizer que este costume do castigo
é antigo na região e antecede o SPI. Os
Galibi-Marworno se lembram de caciques poderosos e temidos
que o executavam. O SPI, entretanto, conferiu a esta
instituição a legitimidade do Estado.
Esta função penal do Encruzo foi extinta
pela Assembléia dos Povos do Uaçá
em janeiro de 1996.
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