Os
mitos registrados entre os Galibi-Marworno relatam e
interpretam fatos históricos marcantes, sempre
localizados na paisagem específica do Uaçá
que, por sua vez, também é de alguma forma
submetida a uma interpretação, como os
rios e lagos, as montanhas e formações
geológicas estranhas. Um exemplo é o mito
da guerra entre os Galibi e Palikur, verdadeira metáfora
fundante das relações interétnicas
na região, cujo cenário se estende do
alto Urucauá até o rio Maroni na Guiana
Francesa, e do qual foram registradas várias
versões: Palikur de Kumenê, Galibi-Marworno
e Palikur de Kumarumã. Esta última é
sem dúvida, a mais rica e complexa. Neste relato,
o confronto entre as duas nações, que
se prolongou durante décadas, encerra, por um
lado, uma relação de afinidade entre inimigos,
ou seja, tio materno Palikur/filho da irmã Galibi,
chefes guerreiros de suas respectivas nações
e, por outro lado, a relação de parentesco
entre seres deste mundo e do mundo dos invisíveis,
ou seja um Galibi, o primeiro de sua "nação",
gerado por uma mãe Palikur, deste mundo e um
pai, karuãna, invisível.
Outro exemplo é o mito do xamã
Uruçu, que realmente existiu e vivia na ilha
Bambu. Dizem que, perseguido e capturado pelos caçadores
de escravos vindos de Caiena, consegue, em alto mar,
escapar, transformando-se em cobra ou onça no
fundo da água, graças à ajuda de
seus karuãna e do pakará e maráca
que havia levado consigo. De volta ao Uaçá,
foge para o alto Tapamuru (afluente do Uaçá),
pedindo a seus espíritos auxiliares, os karuãna,
que interrompam o curso deste rio com enormes deslocamentos
de terra, para poder ficar ao abrigo de qualquer nova
investida. Este rio realmente apresenta esta característica:
obstruído o seu curso médio, corre subterrâneo
em seu leito.
Outro mito muito presente na cosmologia
Galibi-Marwono é mito da Cobra Grande. Os Galibi-Marwono
narram o mito fazendo referência aos índios
Palikur. O interessante é que essa versão,
de um povo com tendência matrifocal, inverte aquela
dos Palikur, com descendência patrilinear. O mito
faz referência à montanha Tipoca, uma elevação
bastante destacada na paisagem plana do médio
rio Uaçá. Ali são encontradas conchas
e caramujos marítimos, provavelmente vestígios
de uma época onde havia comunicação
daquele terreno com o mar, fato ainda a ser investigado
geologicamente.
A narrativa conta que no monte Tipoca
moravam antigamente muitos Palikur, em aldeias grandes,
especialmente na ponta Caraimura. Cobra Grande vivia
lá com sua fêmea e filho na Ponta Tipoca.
O seu "suspiro" localizava-se no lugar chamado
Mamã dji lo e por esse buraco ele jogava os restos
de sua comida e também saía para esse
mundo. Os índios gostavam de tomar banho no lago
e Cobra Grande, que só comia carne, saía
pelo buraco, dirigia-se à ponta Caraimura e matava
muitos Palikur que ele, a cobra-macho, considerava serem
macacos. A carne humana para ele era caça, ele
só comia macaco e assim dava sumiço a
vários índios por dia. A fêmea não
gostava e não comia carne; apenas comia frutos
do mar que o marido trazia para ela. (Na versão
Palikur, é a cobra-fêmea a devoradora de
gente, e a cobra-macho se apresenta como vegetariano
e curador).
Um dia um indiozinho de nome Iaicaicani
foi até a ilha Mamã dji lo, com arco e
flechas matar papagaios e tucanos, numerosos naquele
lugar. De repente, cai em um buraco. Como num sonho,
ele se encontra no outro mundo. Lá ele cruza
com uma senhora que lhe pergunta: "O que faz aqui?"
"Me perdi", responde ele. Então diz
a senhora: "Vou te dar um banho, tenho receio que
meu marido te mate". Depois do banho, ela o esconde
debaixo de um pote. Quando chega a cobra-macho, sua
mulher lhe enche a barriga de macaco e cachiri. Ele
também havia trazido caranguejos e lagostas para
sua mulher. Ele sentia um cheio diferente, saboroso.
Sua esposa nega várias vezes que há algo
diferente na casa, mas acaba confessando que é
um indiozinho e pede que não o mate. Felizmente,
o bicho havia comido e estava de barriga cheia. "Bem",
disse o Tipoca, você vai ser como meu filho e
vai brincar com o Tipoquinha".
Iaicaicani consegue escapar e retornar
à sua aldeia para contar o que estava acontecendo.
Então, os Palikur pedem sua ajuda para prepararem
uma armadilha para matar a cobra. Iaicaicani revela
que as cobras descansam sobre as pedras determinada
hora do dia, e os índios planejam uma armadilha
para alcançá-los nessa situação.
Iacaicani pede aos seus que matem apenas o macho e não
a fêmea. Os índios, porém, matam
os dois. Iacaicani e Tipoquinha, que haviam ido passear,
voltam porque Tipoquinha tem o privilégio de
ouvir o trovão, a voz de seu pai. Ele enlouquece
quando vê o que havia acontecido com os seus pais
e vai embora viver no lago Marapuwera, onde mora outra
cobra do mesmo nome, o seu tio paterno. Iacaicani visita
os seus parentes e diz: "Eu poderia ter voltado
a viver com vocês, mas vocês mataram a fêmea,
sinal que vocês não me querem de volta".
Ele saiu e todos choraram muito. "Eu vou para o
Marapuwera, viver com o Tipoquinha". Diz a história
que ele também se transformou em cobra e o seu
karuanã pode ser chamado pelos pajés em
sessões de curas e época do Turé.
Mesmo assim, ele é considerado um pequeno herói.
Fica evidente nesse mito, assim como
nos outros, a consciência dos Galibi-Marwono das
condições mutantes do espaço habitado.
Trata-se de uma região de confluência da
bacia do rio Uaçá com o oceano aberto,
região geologicamente em constante redefinição.
Tais mudanças geológicas são temas
para as narrativas míticas, que tratam de seres
que ocupam o mesmo terreno, bastante especificado e
marcado nos eventos míticos.
|