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PAJÉ E TURÉ   
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PAJÉ E TURÉ

Pelo que foi dito, percebe-se que o contato com os Karuãna, os espíritos auxiliares dos pajés e moradores do "outro mundo", são um aspecto importante da cosmologia Galibi-Marwono e característica de seu xamanismo. Os Karuãna não são todos iguais e desempenham funções diferentes, alguns são mais poderosos que outros e ao mesmo tempo que auxiliam são também perigosos e precisam ser controlados. Os karuãna kamará, os mais resistentes e guerreiros, nunca descem no terreiro da festa do Turé e não se sentam nos bancos, mas ficam atentos, no alto do mastro, a qualquer ataque ou indevida intromissão de espíritos de outros xamãs, inimigos ou ciumentos, prestes a encaminhar algum feitiço.

Pesquisas recentes mostraram a importância da avifauna para a cosmologia desta população. As aves estão intimamente relacionadas aos xamãs, enquanto indivíduos. Cada xamã possui um pequeno banco ornitomorfo, sobre o qual toma acento para realizar qualquer atividade que envolva o contato com os karuãna. O pajé Iok, por exemplo, guarda o banco em forma de arara vermelha que fora de sua mãe, uma reconhecida xamã em Kumarumã. Antes de morrer ela teria dito ao filho: "pega e guarda esse banco. Quando os índios fizerem um Turé, leva-o junto com você e naquela hora o meu karuãna virá te visitar".

Os bancos de aves são recobertos de desenhos, variação de dois motivos básicos: o kroari e o dãndelo, que não são apenas recursos ornamentais, mas servem para expressar uma vasta gama de significações e representações. Os dois motivos, respectivamente um losango e um zig-zag, são também expressão de uma metáfora fundante dos grupos do Uaçá, ancoradas na dicotomia: abrir-se para o exterior/fechar-se.

O Turé é considerado um ritual tradicional dos Galibi-Marwono. Ele seria normalmente realizado em outubro/novembro, época da seca e da derrubada das roças. Mas não é mais realizado atualmente. Para eles, o Turé é coisa muito séria e perigosa e deve ser realizado segundo regras bem definidas para ser motivo de alegria e não de desgraças. Os Galibi-Marworno não possuem mais um pajé atuante na aldeia. Uratê é Palikur; antigamente era sua esposa, Galibi e também xamã, que dirigia o ritual. O pajé Aniká, residente no Encruzo, um homem forte no domínio e trato com os Karuãna, não atua mais por ter se convertido à religião evangélica. Uma outra pajé vive hoje em Oiapoque e não freqüenta mais a aldeia.

Os índios contam a história de dois Galibi que se propuseram a realizar um Turé, usando o banco de um pajé falecido, mas como não haviam sido iniciados, especialmente para um relacionamento adequado com os espíritos das entidades sobrenaturais, estes chegaram confusos e insatisfeitos no espaço sagrado, não recebendo as oferendas esperadas, o que teria causado, poucos dias depois, a morte de um dos realizadores deste Turé. Esta foi a explicação dada pela não realização do ritual.

Os Galibi-Marworno ficam perplexos pela desenvoltura e freqüência com que os Karipuna realizam um Turé. De tudo isso se conclui que este ritual ainda possui um significado tradicional muito forte e presente entre a população de Kumarumã. Os Galibi afirmam, ainda, que o grande chapéu, o plumage, ornamento usado no Turé, é originalmente deles e não dos Palikur como se pretende.

Por outro lado, apesar de não exibirem abertamente o Turé, os homens adultos se reúnem durante as noites de lua cheia, no mês de outubro, em uma casa isolada no campo, domicílio do pajé Uratê, e cantam até o amanhecer, bebendo caxiri, para se alegrar com os Karuãna e agradecer as curas concedidas. Nestas ocasiões descem também os espíritos dos mortos, como o da esposa de Uratê, pajé também e que vem para sentar-se no seu banco, belíssima escultura de uma arara vermelha, cuidadosamente guardada pelos seus familiares há anos.

Sendo assim, mesmo sem xamã, o xamanismo ainda se mantém vivo. Por outro lado, muitos homens adultos praticam o potá, ou sopro, como uma forma de cura. Se os xamãs exercem as suas atividades sob a influência de espíritos da mata e da água, e de outros xamãs vivos ou mortos, a prática do potá não se faz através desses espíritos e não implica em poderes sobre os fenômenos naturais. O potá cura vários tipos de doenças, algumas delas causadas pela ave noturna kaiuiurú, que voa em sentido contrário com a barriga para cima. Usa-se para isso banhos com ervas, sopro, defumações e rezas na língua antiga ou patois.

 
Lux Vidal
Universidade de São Paulo
Fax: (011) 256.9573
janeiro de 2000
 
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