A
chefia de caráter tradicional era constituída
pelos chefes dos grupos locais, famílias extensas
que ocupavam as ilhas do alto Uaçá. Alguns
porém, eram mais prestigiados, com famílias
mais numerosas. Estes conseguiam reunir os grupos locais
para a festa do Turé ou de Santa Maria, quando
se consumia muito caxiri. Formou-se assim uma rede de
sociabilidade no alto Uaçá. Há
chefes lembrados como autoritários e temidos,
às vezes promovendo alianças nem sempre
benéficas ao conjunto das famílias. Na
época da visita do Marechal Rondon lideravam
chefes respeitados, cujos descendentes ainda vivem na
região do Uaçá.
Em Kaumarumã, atualmente, verifica-se
um forte sentimento comunitário institucionalizado.
As decisões são sempre tomadas em conjunto.
O cacique é assessorado pelo vice-cacique e os
conselheiros da comunidade, além do chefe de
Posto que é um índio.
Quando ocorrem brigas ou casos mais
graves, o transgressor pode pegar uma "faxina",
modalidade de castigo introduzida pelo SPI, em lugar
do cruel castigo do "tronco", que os índios
do Uaçá copiaram dos negros da Güiana
Francesa. Até 1996 esta faxina era severa, chegando
a 30 dias ou mais de serviço, roçando
tabocal nas margens do rio Uaçá, no Encruzo.
Esta modalidade de castigo foi abolida durante a Assembléia
de 1996. A faxina é agora realizada na aldeia,
quando se trata de delitos menores. Tratando-se de agressão
mais grave, como ferimentos com facão ou mesmo
homicídios, os culpados são expulsos da
aldeia, muitas vezes definitivamente ou entregues à
justiça comum. As medidas legais internas aplicadas
a infratores é uma área de pesquisa a
ser ainda desenvolvida na região.
Para discutir e resolver as questões
internas, o cacique, vice-cacique e conselheiros se
reúnem com a comunidade após convocação.
A cada ano é convocada uma assembléia
interna para discutir estratégias políticas,
projetos econômicos e questões internas.
Por outro lado, as assembléias gerais que se
realizam a cada dois anos são mais abrangentes.
Para estas, os índios convidam representantes
do Governo, militares, autoridades, técnicos
e pessoas ligadas a ONGs, além de índios
de outras regiões. Em 1991 cria-se a APIO que
representa todas as etnias da região com sede
e estrutura administrativa próprias, em Oiapoque,
o que vai permitir maior autonomia, agilização
burocrática, encaminhamento de projetos e repasse
de recursos. A partir de 1994 a política partidária
e a política do Estado estão mais presentes
na vida dos índios que passam a depender cada
vez mais do apoio do Estado do Amapá.
Os convênios firmados entre
a APIO e o Governo do Estado ou a Prefeitura de Oiapoque
têm permitido desenvolver vários projetos
nas áreas indígenas como a construção
de escolas e alojamentos de professores, reforma de
enfermarias, promoção de cursos para parteiras,
além do pagamento de professores, monitores,
merendeiras e agentes de saúde.
O prefeito atual de Oiapoque é
um índio Galibi-Marworno que se elegeu com o
apoio do PSB, partido do governador dos Estado do Amapá,
J. A. Capiberibe (reeleito em 1998). A deputada Janete
Capiberibe também está muito presente,
com viagens freqüentes às áreas,
apoiando as comunidades em várias ocasiões.
Nas eleições de 98, os índios das
reservas do Uaçá, Juminã e Galibi
do Oiapoque votaram em massa no atual governador. Por
isso mesmo os índios temem que qualquer mudança
no governo possa prejudicá-los, o que de fato
os torna muito dependentes da "política",
mesmo por falta de opções.
Com toda essa abertura, o gerenciamento
tradicional tornou-se mais complicado e os caciques
se dizem cansados e às vezes desgastados. Mas
uma coisa é certa: em momentos de crise, os índios
agem unidos e resistem com firmeza.
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